O trabalhador que vota na extrema direita não é um enigma moral, nem a prova de uma suposta ignorância natural das maiorias. Ele é o produto de uma ordem que o explora durante o dia, o humilha nos serviços públicos, o endivida no fim do mês e, à noite, lhe entrega uma explicação falsificada para sua própria ruína. A pergunta decisiva não é por que uma pessoa pobre “vota contra seus interesses”, como se esses interesses fossem uma evidência transparente. A pergunta é quem nomeia o sofrimento, quem oferece uma causa para ele e quem consegue transformar desamparo em força política.
A extrema direita brasileira fez isso com competência brutal. Ela se apresentou como insurgência contra “o sistema” ao mesmo tempo que preservava seus pilares: poder patronal, concentração de renda, destruição de direitos trabalhistas, privatização do comum e submissão da vida à lógica do mercado. O bolsonarismo pôde atacar políticos, imprensa, universidades, Supremo Tribunal Federal e movimentos sociais sem atacar seriamente a relação entre capital e trabalho. Ao contrário: vendeu a retirada de proteções como liberdade, chamou precarização de oportunidade e tratou o patrão como criador de riqueza, enquanto o trabalhador aparecia como indivíduo que precisa se virar.
A revolta existe, mas seu endereço é disputado
As pesquisas eleitorais de 2022, incluindo levantamentos recorrentes de Datafolha e Quaest, mostraram um quadro que desmente duas simplificações comuns. De um lado, Lula teve vantagem importante entre os mais pobres e os eleitores de menor renda; de outro, Jair Bolsonaro manteve adesão expressiva em parcelas da classe trabalhadora, sobretudo entre segmentos atravessados pelo conservadorismo religioso, pelo empreendedorismo de necessidade e pelo medo da perda de posição social. Não houve uma conversão homogênea dos pobres ao bolsonarismo. Houve algo mais complexo e perigoso: uma disputa real pela interpretação da experiência popular.
O entregador de aplicativo sabe que trabalha muito e recebe pouco. Sabe que o aplicativo muda regras unilateralmente, bloqueia sua conta sem diálogo e o trata como “parceiro” para não reconhecê-lo como empregado. Mas saber que se sofre não significa identificar imediatamente a estrutura que produz o sofrimento. A empresa de plataforma se esconde atrás de uma tela; o algoritmo parece uma força da natureza; o empresário desaparece sob a marca simpática e a linguagem da inovação. O que permanece visível é o trânsito hostil, a violência urbana, o imposto no consumo, a fila do posto de saúde, o político profissional e a sensação de que alguém sempre passa na frente.
É nesse intervalo que a extrema direita opera. Ela não inventa a frustração do entregador, da caixa de supermercado, do operador de call center ou do professor submetido a metas. Ela captura essa frustração e lhe fornece alvos mais fáceis: o “vagabundo” que recebe benefício, o servidor público, o imigrante, o morador da periferia tratado como criminoso, a mulher que reivindica autonomia, o militante de esquerda, o professor, o artista, a pessoa LGBT. O capital, que organiza a exploração, permanece fora do enquadramento. A raiva sobe, mas sobe por uma escada cuidadosamente construída para não chegar ao andar de cima.
O antissistema que protege o sistema
O discurso bolsonarista foi eficaz porque entendeu uma verdade incômoda: a democracia liberal brasileira é vivida por milhões como distância e abandono. O sujeito que depende de transporte ruim, saúde sucateada, escola sob pressão e crédito caro não encontra no Estado uma promessa concreta de igualdade. Encontra burocracia, polícia, humilhação e portas fechadas. Quando a extrema direita grita contra Brasília, ela se apropria de uma indignação que tem base material. Mas sua rebeldia é fraudulenta. Ela quer destruir mediações democráticas, direitos e organizações coletivas justamente para deixar o trabalhador ainda mais sozinho diante do mercado.
Essa fraude aparece com nitidez na figura do “empreendedor”. O trabalhador desempregado que vende comida na rua, faz corridas por aplicativo ou abre um pequeno negócio por falta de alternativa é convocado a se enxergar como futuro patrão, não como integrante de uma classe explorada. A palavra empreendedorismo funciona como anestesia ideológica: converte a ausência de emprego em escolha, a insegurança em coragem e a falta de direitos em autonomia. Se ele fracassa, a culpa é individual; se sobrevive, a vitória é apresentada como mérito pessoal. Desaparece a pergunta sobre quem lucra com uma massa de pessoas sem salário garantido, jornada limitada, férias, previdência e poder de negociação.
Marx chamou de ideologia esse processo pelo qual relações históricas de dominação aparecem como naturais, inevitáveis ou desejáveis. Não se trata de dizer que o trabalhador é incapaz de compreender sua situação, como se uma elite esclarecida devesse pensar em seu lugar. Trata-se de reconhecer que a vida social produz aparências poderosas. O empregado vê seu salário como pagamento por seu esforço, mas não vê diretamente a parcela de riqueza que produz e é apropriada pelo dono da empresa. O motorista vê a plataforma como instrumento de renda, mas não controla tarifa, demanda, avaliação nem regra. A dominação não precisa ser escondida por completo; ela só precisa ser apresentada como única realidade possível.
A multidão digital e a fabricação do inimigo
Gustave Le Bon, apesar de seus limites conservadores e de sua desconfiança das massas, percebeu que a multidão não se move apenas por cálculo individual. Ela é atravessada por imagens, repetição, medo, pertencimento e contágio afetivo. A extrema direita atualizou essa intuição para a infraestrutura das plataformas digitais. Não precisa reunir uma praça inteira: organiza multidões fragmentadas em grupos de família, canais de vídeo, transmissões ao vivo e correntes de mensagem. Cada indivíduo recebe a sensação de que descobriu sozinho uma verdade proibida, quando está apenas repetindo uma narrativa fabricada e distribuída em escala industrial.
O espetáculo, no sentido de Guy Debord, não é mera distração visual. É uma forma de organização da vida em que a relação direta entre pessoas é substituída por imagens e mercadorias. Na política de extrema direita, a imagem do homem simples que “fala o que pensa” vale mais que seu programa econômico; a performance de guerra cultural vale mais que a entrega de direitos; a cena de confronto vale mais que a análise das relações de classe. Bolsonaro pôde aparecer como inimigo da elite enquanto defendia interesses que beneficiam proprietários, setores financeiros e empresários. A imagem insurgente neutralizou o conteúdo regressivo.
O trabalhador, isolado pela concorrência e pela precarização, torna-se especialmente vulnerável a essa maquinaria. No call center, cada atendente é medido contra os demais por tempo de chamada e metas; na escola, o professor é cobrado por indicadores sem poder sobre as condições de ensino; no aplicativo, a remuneração varia conforme cálculos que ninguém conhece. A experiência cotidiana ensina competição, não solidariedade. Quando falta sindicato forte, associação de bairro, partido enraizado e espaço público de discussão, a comunidade política é substituída pelo rebanho digital. A pessoa deixa de reconhecer no colega alguém com problemas comuns e passa a enxergá-lo como rival ou ameaça.
Não há libertação sem organização coletiva
É confortável atribuir a adesão popular à extrema direita apenas à manipulação. Isso absolve a esquerda de enfrentar seus próprios fracassos de linguagem, presença territorial e organização. Uma crítica anticapitalista não vencerá porque possui dados melhores ou porque denuncia a incoerência de quem vota contra direitos trabalhistas. A experiência do trabalhador não cabe numa planilha eleitoral. Ela inclui medo de ser assaltado, humilhação institucional, desejo de reconhecimento, fé religiosa, memória familiar, cansaço e a aspiração legítima de não depender de ninguém. A disputa política começa por levar essas necessidades a sério, sem aceitá-las na moldura autoritária que a extrema direita lhes impõe.
Mas levá-las a sério não significa conciliar-se com o fascismo. Significa dizer com clareza que segurança não é licença para matar pobre, que dignidade não é vender a própria força de trabalho sem direitos, que família não é instrumento para subordinar mulheres e perseguir diferenças, que liberdade não é o poder empresarial de explorar sem limites. A extrema direita oferece pertencimento pela exclusão. A política de classe precisa oferecer pertencimento pela solidariedade: o entregador reconhecendo no professor, na empregada doméstica, no metalúrgico e no desempregado não concorrentes morais, mas sujeitos submetidos a formas diferentes da mesma ordem.
O voto da classe trabalhadora na extrema direita não é uma sentença definitiva nem um defeito de caráter. É a prova de que o capitalismo consegue produzir não só pobreza, mas também as ideias, os medos e os desejos que dificultam sua superação. Romper essa adesão exige mais do que desmascarar mentiras; exige reconstruir vínculos coletivos capazes de dar à revolta um alvo correto. Quando o trabalhador deixa de procurar um inimigo abaixo ou ao lado e passa a enxergar a estrutura que o explora, a promessa autoritária perde parte de seu poder. É nesse deslocamento, da culpa individual para a luta comum, que a política volta a ser possibilidade de emancipação.
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