Comunismo é o nome que Karl Marx e Friedrich Engels deram à superação histórica do capitalismo: uma sociedade sem classes sociais, sem propriedade privada dos meios de produção e sem Estado como instrumento de dominação de uma classe sobre outra. Não se trata de repartir igualmente a pobreza nem de entregar toda a vida a uma burocracia, mas de abolir a separação entre quem trabalha e quem controla fábricas, terras, plataformas, máquinas, dados e decisões. Seu princípio mais conhecido, formulado por Marx, é que o livre desenvolvimento de cada indivíduo seja condição do livre desenvolvimento de todos.

Origem do conceito

A palavra comunismo existia antes de Marx, associada a correntes igualitárias e operárias que reagiam à miséria produzida pela industrialização. Marx e Engels lhe deram outro sentido: não uma utopia desenhada por alguém de fora da história, mas um movimento real nascido das contradições do capitalismo. Onde há uma classe que possui os meios de produzir riqueza e outra que, para viver, precisa vender sua força de trabalho, há conflito de classes.

Para Marx, o capitalismo socializa a produção: milhares ou milhões de pessoas cooperam, direta ou indiretamente, para fabricar alimentos, construir casas, transportar mercadorias, programar sistemas e cuidar de vidas. Mas o resultado dessa cooperação é apropriado privadamente. O trabalhador produz riqueza que não controla; a empresa decide o que, como e para quem produzir conforme a rentabilidade. O comunismo designa a possibilidade de os produtores associados assumirem conscientemente esse controle.

Como o comunismo opera como horizonte

Comunismo não é sinônimo automático de estatização. A propriedade estatal pode substituir um patrão privado por uma administração distante sem que os trabalhadores decidam efetivamente sobre a produção. A questão central é a propriedade social e o poder coletivo sobre os meios que tornam a vida possível. Isso envolve transformar não apenas a distribuição da renda, mas a própria organização do trabalho, do tempo, da cidade e das necessidades.

Marx distingue, na Crítica do Programa de Gotha, uma fase inicial de transição, ainda marcada por limites herdados da velha sociedade, de uma forma mais desenvolvida em que vigoraria o princípio: de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades. Essa formulação não promete que todo desejo individual será atendido de modo mágico. Ela aponta para uma sociedade em que a produção não esteja subordinada ao lucro e em que necessidades fundamentais — moradia, saúde, educação, alimentação, mobilidade, cultura e tempo livre — não dependam da capacidade de compra.

O desaparecimento do Estado, nessa perspectiva, não significa ausência de organização coletiva. Significa o fim de um poder separado, armado e burocratizado para garantir a dominação de classe. Uma sociedade complexa continuará precisando deliberar, planejar, coordenar e resolver conflitos. A diferença é que tais funções deixariam de servir à preservação da propriedade de poucos e poderiam ser submetidas ao controle democrático dos muitos.

O problema concreto do trabalho

O comunismo só se torna inteligível quando confrontado com a experiência cotidiana da exploração. O entregador de aplicativo arca com bicicleta, combustível, manutenção e riscos, enquanto a plataforma controla preços, distribuição de corridas e avaliações por meio de algoritmos. Chamado de empreendedor, ele tem pouca ou nenhuma influência sobre as regras que determinam sua renda. No call center, metas, scripts e monitoramento transformam a fala em mercadoria e comprimem o tempo até para ir ao banheiro. O professor, cercado por plataformas, indicadores e vínculos precários, vê o trabalho de formar pessoas ser administrado como redução de custos.

Essas situações não são desvios ocasionais de um capitalismo que poderia ser humanizado apenas com boa gestão. Elas expressam uma lógica em que o trabalho existe prioritariamente para valorizar capital. A crítica comunista não despreza reformas trabalhistas, serviços públicos ou direitos sociais; elas podem aliviar sofrimentos reais e ampliar capacidade de organização. Mas recusa tratá-las como solução final enquanto bancos, grandes empresas, proprietários de terra e plataformas digitais mantêm o comando sobre a riqueza produzida socialmente.

Comunismo no Brasil hoje

No Brasil, a palavra comunismo costuma aparecer menos como debate sobre propriedade e poder do que como espantalho político. Setores da classe dominante e da extrema direita chamam de comunista qualquer defesa de universidade pública, sindicato, imposto sobre grandes fortunas, direitos trabalhistas ou política de redistribuição. Essa falsificação é útil: desloca a conversa sobre salários, jornadas, concentração fundiária e lucros para fantasias sobre uma ameaça abstrata à liberdade.

O bolsonarismo explorou intensamente esse anticomunismo, mobilizando medo moral e ressentimento para proteger interesses muito concretos: desregulação, privatização, repressão a movimentos sociais e enfraquecimento da organização coletiva. O fascismo não precisa convencer a população de que o capital manda; basta fazê-la identificar seu mal-estar com inimigos mais frágeis ou imaginários — professores, militantes, artistas, pobres, indígenas, migrantes.

Levar o comunismo a sério, hoje, é recolocar a pergunta que essa propaganda tenta interditar: por que quem produz a riqueza tem tão pouco poder sobre ela? Não é uma promessa de paraíso nem uma desculpa para autoritarismos cometidos em seu nome. É uma crítica radical à ordem que naturaliza a desigualdade e uma aposta em formas coletivas de produzir e viver que não façam da vida humana um meio para a acumulação.