Ideologias não são um conjunto de opiniões abstratas que indivíduos escolhem como quem seleciona uma marca na prateleira. Elas são formas sociais de perceber, nomear e suportar uma realidade organizada contra a maioria. No capitalismo brasileiro, sua força aparece justamente quando deixam de soar como doutrina. O entregador que pedala ou pilota uma moto por doze horas, sem salário garantido, férias, jornada limitada ou proteção efetiva contra acidentes, não precisa ouvir diariamente uma palestra sobre neoliberalismo. Basta que a plataforma lhe ofereça uma tela com metas, medalhas, pontuações e a palavra parceiro. A exploração chega traduzida como oportunidade; a insegurança, como flexibilidade; a ausência de direitos, como liberdade.
É esse o terreno concreto em que uma crítica das ideologias precisa operar. Os portais escolares podem definir o termo como um sistema de ideias, mas essa definição, embora não seja falsa, não alcança seu funcionamento decisivo. Ideologia é aquilo que faz uma relação histórica de dominação aparecer como ordem natural, decisão técnica ou consequência do mérito. Ela não precisa convencer todos de que o mundo é justo. É suficiente que faça parecer impossível imaginar uma alternativa praticável, ou que atribua cada fracasso exclusivamente à conduta do próprio derrotado.
Ideologias que cabem na tela do aplicativo
O modelo das plataformas de entrega é uma fábrica cotidiana de ideologia. A empresa não se apresenta como empregadora, embora determine preços, distribua pedidos, ranqueie trabalhadores, estabeleça punições opacas e possa bloquear a fonte de renda de alguém por meio de um aviso automatizado. Ela se descreve como intermediária tecnológica, e o trabalhador recebe a identidade de empreendedor. A operação não é mero capricho semântico. Se há empreendedor, não haveria patrão; se há parceiro, não haveria vínculo; se a renda depende de aceitar corridas ruins e atravessar a cidade sob chuva, o problema seria a estratégia pessoal de quem trabalha, não a regra econômica imposta pela plataforma.
Marx observou que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. A frase não quer dizer que empresários se reúnem numa sala para redigir cada pensamento que circula na sociedade. Quer dizer que a classe que controla os meios materiais de produção tem condições privilegiadas de fazer sua visão particular parecer universal. Hoje, as grandes empresas de plataforma possuem não apenas capital e lobby, mas também a arquitetura digital que organiza o trabalho e registra a vida laboral. O algoritmo é uma chefia que se oculta atrás da aparência de cálculo imparcial. Seu comando chega sem rosto: uma corrida oferecida, um bônus condicionado, uma área de alta demanda, um bloqueio que ninguém explica adequadamente.
A técnica, nesse caso, não é neutra. Heidegger chamou atenção para o risco de uma técnica que enquadra tudo como recurso disponível. Sob a lógica das plataformas, o entregador é convertido em disponibilidade logística: seu tempo, sua rota, seu corpo e sua necessidade de renda tornam-se variáveis a serem otimizadas. O consumidor, por sua vez, é educado a desejar rapidez permanente, rastreamento em tempo real e comida barata entregue à porta. A tela separa o pedido de suas condições humanas de realização. Quanto mais perfeita parece a conveniência, mais invisível fica quem assume o risco do trânsito, do assalto, do desgaste físico e da remuneração insuficiente.
O empreendedorismo como disciplina da culpa
A ideologia empreendedora ganha força porque responde a uma experiência real: o emprego formal é escasso, os salários são baixos e a sobrevivência exige improviso. Seria inútil ridicularizar quem abre um pequeno negócio, vende comida, presta serviço ou aceita entregar por aplicativo. A crítica não se dirige à iniciativa de quem precisa viver; dirige-se ao uso político dessa necessidade. Quando governos, empresas e influenciadores celebram o empreendedor como modelo universal, transformam o abandono social em virtude moral. A pessoa que não encontra trabalho deixa de aparecer como vítima de uma estrutura econômica e passa a ser acusada de não ter criatividade, disciplina, resiliência ou disposição para “sair da zona de conforto”.
Essa linguagem produz uma disciplina severa. O trabalhador por produtividade aprende a se vigiar: calcula se dormiu demais, se recusou pedidos demais, se descansou quando deveria estar acumulando pontos. No call center, a voz é medida por segundos, pausas e avaliações de clientes; na escola privada, o professor é pressionado por métricas, disponibilidade digital e satisfação tratada como produto; na entrega, cada deslocamento é convertido em dado. A gestão abandona a aparência clássica do capataz, mas não abandona a extração de mais-valia. Ao contrário, torna-a mais barata ao deslocar para o trabalhador custos de equipamento, combustível, manutenção, saúde e tempo morto.
Chamar isso de autonomia é uma das ficções mais úteis ao capital contemporâneo. A autonomia real pressupõe poder recusar trabalho sem cair na fome, participar das decisões que definem a produção e contar com condições materiais para orientar a própria vida. O entregador que precisa permanecer conectado porque as contas vencem não escolhe livremente entre trabalhar e não trabalhar. Escolhe, dentro de uma coerção econômica, qual grau de exaustão consegue suportar. A liberdade de ligar e desligar o aplicativo serve como propaganda porque encobre a falta de liberdade mais profunda: a de não vender continuamente a própria força de trabalho em condições degradadas.
A multidão conectada e a fabricação do consenso
As ideologias também operam pela circulação de imagens. Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, a relação social entre pessoas aparece mediada por imagens. O anúncio de um jovem sorridente com mochila térmica, dono do próprio horário e supostamente senhor do próprio destino, é mais eficiente do que uma defesa aberta da precarização. Ele oferece uma imagem desejável àqueles que conhecem o medo do desemprego. Não importa que a rotina concreta seja marcada por longas jornadas e renda oscilante; o espetáculo vende uma personagem capaz de dar sentido individual à insegurança coletiva.
As redes sociais ampliam esse mecanismo. Vídeos de empresários de si mesmos, coaches financeiros e defensores da “meritocracia sem desculpas” organizam uma psicologia de massas adaptada ao mercado. Gustave Le Bon, apesar dos limites conservadores de sua teoria, percebeu que multidões podem ser conduzidas por imagens simples, repetição e sugestão. As plataformas digitais industrializaram esses recursos. O conteúdo que humilha pobres, demoniza direitos trabalhistas ou glorifica a riqueza imediata encontra uma infraestrutura de recomendação que recompensa indignação e simplificação. A crença de que todo pobre poderia enriquecer se trabalhasse o bastante não resiste à realidade social, mas persiste porque converte desigualdade em narrativa moral confortável para quem se beneficia dela ou teme reconhecer sua própria vulnerabilidade.
O bolsonarismo soube explorar essa matéria ideológica. Sua retórica contra “privilégios”, sindicatos, universidades e supostos inimigos internos não oferecia apenas um programa político: oferecia alvos para a frustração produzida pelo próprio capitalismo periférico. Em vez de perguntar por que tanta gente trabalha sem direitos, por que a riqueza se concentra e por que serviços públicos são desmontados, o discurso fascistizante aponta o dedo para o professor, o servidor, o nordestino, a mulher que reivindica autonomia, o militante de esquerda. A violência social é deslocada para uma guerra cultural em que o explorado pode se imaginar aliado de seu explorador contra alguém ainda mais vulnerável.
Desfazer a falsa escolha individual
Não há crítica séria das ideologias sem atenção às instituições que as sustentam. Como insiste Alysson Mascaro em sua análise da forma jurídica, o Estado e o direito não pairam acima da sociedade como árbitros desinteressados. Eles participam da reprodução das relações capitalistas, ainda que sejam também campo de disputa. Quando o trabalho de plataforma é classificado de modo a evitar responsabilidades empresariais, não se trata de uma simples falha técnica da legislação. Trata-se de uma disputa sobre quem deve carregar os riscos da economia: o capital que lucra com a mediação digital ou quem depende da bicicleta, da moto e do próprio corpo para produzir o serviço.
Desideologizar não significa prometer que alguém poderá olhar o mundo de um lugar puro, exterior a toda história. Significa reconduzir ao seu fundamento social aquilo que aparece como destino individual. O entregador não é empreendedor porque tem uma mochila e um celular; é trabalhador porque sua sobrevivência depende de vender sua força de trabalho e porque outra parte se apropria do valor que ele produz. Nomear essa relação não resolve, por si só, a precarização. Mas quebra a gramática que impede sua contestação. Onde a plataforma diz parceria, é preciso enxergar subordinação; onde o mercado diz mérito, é preciso enxergar classe; onde a propaganda diz liberdade, é preciso perguntar quem tem o poder de desligar o outro.
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