Nesta semana, a pesquisa BTG/Nexus colocou Augusto Cury, do Avante, com 11% das intenções de voto, isolado em terceiro lugar, atrás de Lula, com 39%, e Flávio Bolsonaro, com 33%. O dado, por si, já seria suficiente para acender o alerta sobre um personagem até aqui periférico no debate eleitoral. Mas o que chama atenção não é só a posição numérica: é o tipo de programa que acompanha essa ascensão. Cury defende taxar big techs e bets, levar a telemedicina a 80% das consultas básicas do SUS, reduzir ministérios, usar inteligência artificial na administração pública, empregar drones no combate ao feminicídio, criar polícia municipal integrada com reconhecimento facial e substituir o presidencialismo pelo parlamentarismo. O conjunto parece heterogêneo, mas tem uma coerência ideológica bastante nítida: a política reaparece como administração, comunicação e tecnologia.
Há, nesse repertório, uma forma muito contemporânea de candidatura. Não se trata do velho neoliberal puro, que apenas promete privatizar tudo, nem do bolsonarismo tosco, que mobiliza brutalização aberta e guerra cultural permanente. O que surge aqui é o candidato-plataforma: alguém que combina linguagem de inovação, reorganização do Estado, mediação algorítmica dos conflitos e soluções operacionais para problemas que são, na verdade, históricos e estruturais. Em vez de enfrentar as determinações materiais da violência contra as mulheres, oferece drones. Em vez de discutir subfinanciamento, desigualdade territorial e precarização da saúde pública, oferece telemedicina em massa. Em vez de politizar as relações entre capital, Estado e soberania, propõe embaixadores como influenciadores digitais. A forma do discurso já diz muito: o país aparece como um sistema ineficiente a ser otimizado.
É exatamente aí que o trecho de Alysson Mascaro ajuda a sair do espanto superficial. Ao analisar a crise brasileira, Mascaro insiste que ela não pode ser lida apenas como instabilidade conjuntural, troca de governos ou erro de desenho institucional. O que está em jogo é uma sobreposição de camadas: crise do capitalismo mundial, crise das experiências de centro-esquerda latino-americanas e crise específica do modelo político nacional. Mais do que isso, ele distingue níveis do visível, do oculto e do invisível. O visível é a crise econômica e a fragilidade política local. O oculto é a intermediação geopolítica do capital e a operacionalização das instituições estatais. O invisível é a maquinaria da ideologia, que produz subjetividades e horizontes de compreensão capazes de reproduzir os próprios termos do sistema até quando a crise é estrutural.
A candidatura de Augusto Cury, ao menos tal como aparece nessa notícia, se encaixa com precisão nesse plano do invisível ideológico de que fala Mascaro. Porque suas propostas não se apresentam como defesa aberta de uma classe, de um bloco de poder ou de um projeto de reorganização da acumulação. Elas se apresentam como bom senso tecnológico. O conflito desaparece sob a forma de ferramenta. A contradição social é traduzida em déficit de gestão. A crise do Estado vira problema de desenho institucional. A desigualdade se torna falha de acesso. A violência se converte em questão de monitoramento. E a política, enfim, é rebaixada a uma engenharia de procedimentos supostamente neutros.
Quando Mascaro afirma que a ideologia está lastreada nas práticas do sistema e constitui subjetividades, ele está nomeando precisamente esse processo pelo qual a própria linguagem da crise já vem domesticada. O eleitor não é convidado a compreender por que o SUS sofre pressão permanente sob o capitalismo dependente brasileiro; é convidado a admirar a eficiência da telemedicina. A população não é chamada a discutir por que plataformas digitais concentram poder econômico e extraem renda socialmente produzida; é chamada a aceitar a tributação dessas empresas como ajuste regulatório, sem tocar na estrutura de sua dominação. A segurança pública não é pensada a partir da reprodução social da barbárie; ela é convertida em integração de bancos de dados, IA e reconhecimento facial. Tudo isso parece moderno justamente porque a ideologia contemporânea aprendeu a falar a língua da inovação.
Há um ponto decisivo aqui. Algumas propostas de Cury podem até soar, isoladamente, razoáveis ou mesmo progressivas. Taxar big techs e bets, por exemplo, não é em si uma bandeira reacionária. O problema está na moldura geral em que elas são inseridas. A taxação aparece menos como enfrentamento da lógica de espoliação do capital de plataforma e mais como calibragem de um ecossistema econômico que deve continuar funcionando. A inteligência artificial na administração pública aparece menos como questão sobre automação, poder e opacidade decisória e mais como promessa de eficiência. A redução de ministérios aparece como sinal de racionalidade empresarial aplicada ao Estado. Em todos os casos, a política se submete à gramática da gestão.
Essa gramática não cai do céu. Ela é produto da própria crise brasileira tal como Mascaro a descreve. Depois do esgotamento relativo do ciclo de conciliação de classes e da deterioração das formas tradicionais de legitimidade institucional, o sistema político precisa fabricar novas embalagens para a mesma impossibilidade de fundo: administrar uma sociedade profundamente desigual sem tocar nas bases de sua reprodução capitalista. Surge então o fetiche da inovação estatal. Não se promete transformação social; promete-se atualização operacional. Não se promete ruptura com a dependência; promete-se inserção mais inteligente nas redes globais. Não se promete democratização real do poder; promete-se uma interface mais amigável entre governantes e governados.
O caso dos “embaixadores influenciadores” é particularmente revelador. A diplomacia, que diz respeito a relações de Estado, geopolítica, comércio, soberania e conflito internacional, é recodificada na linguagem da visibilidade digital. O embaixador deixa de ser pensado primordialmente como agente de uma estratégia internacional e passa a ser imaginado como operador de imagem. Debord já havia mostrado que, na sociedade do espetáculo, a representação se autonomiza e passa a organizar a própria experiência social. Aqui, a política externa corre o risco de virar branding nacional. O país, em vez de enfrentar sua posição subordinada na divisão internacional do trabalho, aprende a performar melhor sua marca nas plataformas.
Algo semelhante ocorre com a proposta de telemedicina em 80% das consultas básicas do SUS. Não se trata de negar usos pontuais da tecnologia. A questão é outra: quando a mediação técnica é elevada a solução central, ela tende a naturalizar a escassez material e a precariedade territorial como se fossem dados incontornáveis. Em vez de médicos, equipes, postos, carreira pública e investimento maciço, oferece-se conectividade. Em vez de universalização concreta da infraestrutura de cuidado, oferece-se acesso remoto. A técnica aparece como ponte neutra, quando muitas vezes opera como modo de administrar a falta. Heidegger lembrava que a técnica moderna não é meramente um conjunto de instrumentos, mas um modo de enquadramento do real. O problema da saúde, então, passa a ser visto segundo aquilo que pode ser calculado, acelerado e distribuído em rede.
Também não é casual que o parlamentarismo reapareça nesse pacote. Em momentos de crise, frações das classes dominantes frequentemente buscam rearranjos institucionais que prometem estabilidade sem mobilização popular. A questão não é discutir abstratamente virtudes de um sistema ou de outro, mas perceber o que esse deslocamento expressa no contexto brasileiro: a tentativa recorrente de tratar a crise política como falha de mecanismo, e não como manifestação da contradição entre forma estatal e reprodução do capital. É o que Mascaro chama de operacionalização das instituições estatais: muda-se a engrenagem, preserva-se a máquina.
A ascensão de um nome como Augusto Cury mostra, assim, menos a força singular de um candidato do que a disponibilidade social para esse tipo de ideologia. Depois de anos de colapso institucional, devastação neoliberal, bolsonarismo e plataformização da vida, ganha terreno a fantasia de que um gestor tecnologicamente atualizado poderia reconciliar eficiência, sensibilidade social e ordem. Essa fantasia é sedutora porque fala a linguagem da época: menos partido, mais solução; menos conflito, mais interface; menos povo, mais usuário; menos política, mais governança.
O que o cruzamento entre a notícia e Mascaro revela é que a crise brasileira segue produzindo formas ideológicas capazes de esconder sua própria raiz. O capitalismo em crise não sobrevive apenas pela força bruta, pela chantagem do mercado ou pela tutela das instituições. Ele sobrevive também porque fabrica subjetividades que passam a imaginar a salvação sob a forma de aplicativo, algoritmo, reforma administrativa e comunicação digital. Quando isso acontece, a própria crítica social corre o risco de ser absorvida como demanda por melhor gestão do desastre.
O Brasil não está diante de uma novidade excêntrica, mas de uma mutação previsível da ideologia em tempos de crise estrutural: o velho domínio de classe vestido de inovação, o Estado convertido em painel de controle e a política reduzida à arte de administrar tecnicamente uma sociedade que continua organizada para produzir desigualdade, dependência e alienação.
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