A positividade tóxica não é apenas um excesso de frases otimistas nem uma moda inofensiva das redes sociais. Ela funciona como uma pedagogia política da resignação. Quando o trabalhador exausto é instruído a "mudar sua mentalidade", a causa de seu sofrimento é deslocada: deixa de ser o salário insuficiente, a jornada extensiva, a insegurança do vínculo, o preço do aluguel ou a ausência de serviços públicos; torna-se sua disposição interior. A exploração, que é uma relação social concreta, reaparece como defeito de caráter. O resultado é uma anestesia: em vez de identificar quem organiza a precariedade, o indivíduo passa a vigiar a si mesmo.

O discurso da autoajuda empresarial oferece uma explicação pronta para a angústia produzida pelo capitalismo contemporâneo. Se a pessoa não consegue pagar as contas, faltou planejamento. Se está desempregada, faltou iniciativa. Se adoeceu, faltou equilíbrio emocional. Se não suporta a humilhação cotidiana, falta-lhe resiliência. Essa gramática é particularmente útil à classe dominante porque evita a pergunta decisiva: quais relações econômicas produzem, sistematicamente, tanta exaustão, medo e fracasso individualizado? A resposta exigiria falar de classe, propriedade, lucro e poder. A positividade corta esse caminho antes que ele comece.

O sofrimento convertido em defeito privado

Marx mostrou que o trabalhador, sob o capitalismo, é separado não apenas do produto de seu trabalho, mas também do controle sobre sua própria atividade. Ele trabalha para fins que não determina, sob ritmos que não controla, produzindo riqueza que não lhe pertence. A alienação não é um sentimento passageiro que se resolve com uma rotina matinal, um curso de produtividade ou uma frase colada na parede. É uma condição social. Mas a ideologia contemporânea tem interesse em apresentar essa condição como problema psíquico isolado, pois uma pessoa que interpreta a própria exaustão como incapacidade pessoal dificilmente reconhecerá nela uma experiência compartilhada.

O entregador de aplicativo oferece uma imagem nítida desse mecanismo. A plataforma o chama de parceiro e empreendedor, embora controle seu acesso às corridas, estabeleça incentivos, distribua punições opacas e transfira a ele os custos da bicicleta, da moto, da gasolina, da manutenção, do seguro e do acidente. Se ganha pouco, a narrativa disponível diz que precisa aceitar mais pedidos, trabalhar em horários mais duros, aprender a otimizar trajetos, melhorar sua avaliação. A exploração algorítmica se disfarça de desafio individual. A linguagem da autonomia encobre uma relação em que o risco é do trabalhador e a administração do lucro permanece concentrada na empresa.

O mesmo ocorre no call center, onde metas, monitoramento e scripts organizam cada minuto, mas a cobrança aparece como convite ao aperfeiçoamento. O operador que não atinge os indicadores é levado a sentir culpa por sua performance, ainda que as metas sejam definidas para intensificar o trabalho e reduzir custos. Na escola, professores submetidos à sobrecarga de turmas, à burocracia e à deterioração material do ensino recebem a receita da inovação permanente: devem ser criativos, adaptáveis, emocionalmente disponíveis, capazes de transformar a falta de condições em oportunidade pedagógica. O problema nunca é a política de sucateamento; é a suposta resistência do profissional à mudança.

Resiliência é o nome elegante da submissão

Não há nada condenável em desejar algum alívio diante do sofrimento. O problema começa quando o alívio é vendido como substituto da transformação. A positividade tóxica ordena que se agradeça pela crise, que se encontre propósito no esgotamento e que se descubra uma lição na violência do mercado. Ela não pede somente que o sujeito suporte o intolerável; exige que ele sorria enquanto suporta. A indignação, que poderia ser um primeiro passo para reconhecer a injustiça, passa a ser tratada como negatividade, inveja, vitimismo ou incapacidade de evoluir.

Essa operação tem uma função disciplinar. Quem se culpa procura corrigir a si próprio; quem reconhece uma estrutura procura alterá-la. Quem acredita que sua pobreza decorre de escolhas ruins busca consumir mais cursos, métodos, mentorias e promessas de reinvenção. Quem entende que sua condição tem relação com salários rebaixados, desemprego estrutural e concentração de riqueza pode se aproximar de colegas, sindicato, associação de bairro, movimento social ou greve. A culpa individual é politicamente mais segura para o capital porque quebra o elo entre experiências semelhantes. Ela transforma milhões de pessoas submetidas à mesma máquina em uma multidão de derrotas privadas.

É nesse ponto que a meritocracia se encontra com a autoajuda. Ambas pressupõem que a sociedade é uma pista razoavelmente igual e que os resultados expressam, em essência, o mérito de cada corredor. Mas não há corrida justa entre quem herda patrimônio e quem inicia o mês decidindo qual conta atrasar; entre quem dispõe de tempo, contatos e proteção e quem vende diariamente sua força de trabalho para sobreviver. A meritocracia não descreve o mundo brasileiro: ela moraliza sua desigualdade. O vencedor aparece como prova de virtude, e o perdedor, como prova de insuficiência. Assim, privilégios se tornam talento, e a exploração se torna escolha.

O espetáculo da felicidade obrigatória

As redes sociais ampliam a eficácia dessa ideologia porque transformam a vida em vitrine permanente. Debord analisou uma sociedade em que as relações são mediadas por imagens; hoje, a imagem do indivíduo produtivo, feliz e sempre em ascensão é uma mercadoria central. Há trabalhadores que saem de jornadas longas para produzir, no celular, o retrato de uma vida sem cansaço. Publicam disciplina, foco, treino, pequenos sinais de consumo e frases de superação. Não se trata de acusá-los de falsidade moral. Trata-se de perceber a pressão social que os empurra a provar, continuamente, que estão vencendo — mesmo quando a realidade material lhes retira chão.

O feed seleciona triunfos, não contracheques; corpos disciplinados, não dores nas costas; anúncios de liberdade financeira, não as noites mal dormidas de quem está endividado. Essa circulação de imagens reforça a comparação e converte desigualdades em vergonha. A pessoa não pergunta por que trabalha tanto e ainda vive no limite. Pergunta por que os outros parecem capazes de fazer render o mesmo tempo, embora esse tempo nunca tenha sido distribuído igualmente. A felicidade obrigatória produz isolamento porque torna constrangedor admitir fracasso, medo ou raiva. E um trabalhador isolado é mais facilmente administrado por empresas, plataformas e governos comprometidos com a precarização.

Há também um mercado lucrativo nessa administração da culpa. Empresas oferecem programas de bem-estar enquanto intensificam metas; plataformas falam de flexibilidade enquanto recusam direitos; gurus vendem controle emocional a pessoas cuja vida foi tornada incontrolável por dívidas e instabilidade. O cuidado com a saúde mental pode ser necessário, mas não pode servir como biombo para a saúde social destruída pelo trabalho. Terapia não substitui salário digno, descanso, moradia, previdência, proteção trabalhista e serviços públicos. Quando a empresa oferece meditação para quem não consegue almoçar com calma, ela pode estar tratando o sintoma para preservar a causa.

Da culpa à consciência de classe

Recusar a positividade tóxica não significa cultuar o desespero. Significa devolver os problemas à sua dimensão real. O trabalhador pode cuidar de si sem aceitar que sua sobrevivência seja responsabilidade exclusiva sua. Pode desejar melhorar de vida sem aderir à mentira de que todos dispõem das mesmas condições. Pode celebrar conquistas pessoais sem transformar o sucesso de poucos em explicação para o abandono de muitos. A crítica não é contra a esperança; é contra a esperança privatizada, aquela que manda cada um salvar-se sozinho dentro de uma estrutura feita para produzir perdedores.

A passagem decisiva é da culpa para o reconhecimento. Quando entregadores percebem que a redução de ganhos não é falha individual, mas decisão empresarial; quando professoras entendem que a sobrecarga não decorre de pouca vocação, mas de desmonte; quando operadores de telemarketing nomeiam o assédio como método de gestão, abre-se uma possibilidade coletiva. Organizar-se não garante vitória automática, mas rompe a ficção de que cada pessoa enfrenta um destino particular. Reivindicar direitos, formar redes de apoio, fortalecer sindicatos e movimentos não são sinais de negatividade: são formas práticas de negar que a vida deva obedecer ao cálculo do lucro.

O capitalismo precisa que seus danos sejam vividos como segredos íntimos. Precisa que a ansiedade pareça falta de método, que a pobreza pareça falta de esforço e que a revolta pareça falha emocional. A culpa individual cumpre esse serviço com eficiência porque ocupa a energia que poderia virar luta. Contra o imperativo de sorrir diante da ruína, é preciso sustentar uma ideia mais perigosa para a ordem: se o sofrimento é produzido socialmente, sua superação não será obra de uma mentalidade vencedora, mas de ação coletiva contra as estruturas que fazem da precariedade um negócio.