O Brasil paga aluguel para existir digitalmente. Paga quando uma empresa guarda seus arquivos e roda seus sistemas em servidores de gigantes estrangeiras da nuvem; quando uma repartição pública depende de programas proprietários para abrir, assinar e organizar documentos; quando uma loja precisa se curvar às regras de uma rede social para alcançar clientes; quando uma compra atravessa sistemas operacionais, lojas de aplicativos, redes de cartões e mecanismos de prevenção a fraude cuja arquitetura decisória está fora do país. Não se trata de uma imagem retórica sobre uma vaga “modernização”. Trata-se de uma condição material: parcelas crescentes da vida econômica brasileira só podem operar mediante infraestruturas controladas, licenciadas ou arbitradas por empresas sediadas sobretudo nos Estados Unidos.

Chamar isso de dependência tecnológica não significa defender uma fantasia de isolamento nacional, como se o Brasil pudesse se desligar das redes mundiais e fabricar, de um dia para o outro, cada chip, programa e servidor de que necessita. A questão é outra. Uma sociedade que não controla os meios técnicos pelos quais trabalha, comunica-se, registra sua memória e faz circular valor entrega parte decisiva de sua capacidade de decidir. No capitalismo de plataformas, a infraestrutura deixou de ser um suporte discreto da economia. Ela se tornou o próprio terreno em que a economia acontece.

A infraestrutura aparentemente invisível cobra seu preço

A nuvem vende a aparência de uma solução simples: em vez de comprar máquinas e manter equipes próprias, a empresa “contrata capacidade” conforme sua necessidade. Mas essa comodidade tem uma política. Bancos de dados, sistemas de atendimento, aplicações de governo, plataformas de comércio, rotinas industriais e serviços de inteligência artificial passam a depender de contratos, preços, padrões técnicos e decisões corporativas que não são definidos pela sociedade brasileira. O dado pode até ser gerado aqui e estar hospedado em instalações localizadas no país; ainda assim, a camada decisiva de propriedade, software, atualização e gestão pode continuar subordinada a uma corporação estrangeira.

O mesmo vale para os sistemas operacionais. O computador de um escritório, da escola, do hospital e da pequena empresa costuma iniciar o trabalho sob regras estabelecidas por fabricantes e desenvolvedoras privadas. No celular, Android e iOS não são apenas programas: são portas de entrada para uma economia inteira de aplicativos, publicidade, pagamentos, geolocalização e coleta de dados. Quem controla a loja de aplicativos pode impor taxas, critérios de visibilidade, condições de distribuição e formas de pagamento. Um desenvolvedor brasileiro pode produzir o aplicativo; mas seu acesso ao usuário depende de um pedágio técnico que não controla.

Heidegger alertava que a técnica moderna não deve ser entendida apenas como um conjunto de ferramentas neutras. Ela organiza o mundo como reserva disponível, como algo a ser calculado, extraído e posto em circulação. As plataformas realizam essa lógica em escala cotidiana. O entregador vira ponto móvel no mapa; o professor, produtor de conteúdo mensurável; o trabalhador de call center, voz transformada em indicador; o consumidor, perfil comportamental negociável. A dependência brasileira não é somente a compra de tecnologia pronta. É a adaptação da vida social a uma forma de técnica desenhada para extrair dados, renda e disciplina.

O pagamento é nacional, mas a cadeia não termina no Pix

O Pix é uma exceção importante e deve ser tratado como tal. Construído e operado no âmbito do sistema financeiro público brasileiro, ele demonstrou que infraestrutura de pagamento pode ser concebida como bem de interesse coletivo, e não como simples propriedade de conglomerados privados. Sua expansão reduziu a necessidade de certos intermediários e deu ao país uma capacidade concreta de organizar uma parte essencial da circulação monetária. É precisamente por isso que o Pix incomoda interesses privados internacionais: ele desmente a ideia de que toda inovação digital precisa nascer como mercadoria monopolizada.

Mas seria erro transformar essa conquista em certificado de independência. A atividade econômica que passa pelo Pix frequentemente começa em aparelhos controlados por sistemas estrangeiros, atravessa serviços de nuvem, é mediada por aplicativos proprietários e depende de redes de telecomunicação, chips e equipamentos cuja produção global é altamente concentrada. Cartões continuam conectados a bandeiras internacionais; lojas virtuais dependem de gateways, ferramentas de análise e provedores de infraestrutura; trabalhadores de aplicativo recebem por sistemas que registram cada trajeto, cada recusa e cada minuto de espera. A moeda pode circular por um trilho nacional, enquanto o comando sobre a interface, o dado e a relação de trabalho permanece privatizado.

Isso ajuda a compreender por que a soberania não cabe no discurso publicitário da “inovação”. A startup brasileira celebrada como sinal de autonomia pode ser montada sobre serviços de nuvem estrangeiros, captar recursos em fundos externos, anunciar em plataformas globais e vender sua eventual saída a uma empresa maior de fora. O empreendedorismo, nesse caso, não rompe a dependência: frequentemente a reorganiza sob a aparência de liberdade individual. O jovem que abre uma empresa de software é convidado a aceitar, desde o início, padrões técnicos e comerciais que o tornam cliente cativo de infraestruturas alheias.

Trabalho subordinado ao algoritmo importado

A consequência mais dura dessa arquitetura aparece no trabalho. O entregador não negocia apenas com um restaurante ou com um consumidor; ele está submetido à lógica de uma plataforma que distribui corridas, define incentivos, administra bloqueios e coleta informações em tempo real. Essa plataforma se apresenta como mera mediadora tecnológica, mas exerce funções de comando sobre o processo laboral sem assumir plenamente as obrigações de empregadora. A tecnologia permite que a velha exploração capitalista apareça com a máscara de uma oportunidade autônoma.

Marx descreveu a alienação como separação entre o trabalhador e o controle sobre sua própria atividade, seu produto e as condições em que produz. A plataformização aprofunda essa separação. O trabalhador não conhece os critérios que ordenam o aplicativo, não participa da definição das metas e não possui os dados que ele próprio gera. Seu comportamento é convertido em informação proprietária; sua necessidade de renda é convertida em disponibilidade permanente; sua avaliação por clientes e máquinas se torna uma forma de vigilância. Quando a infraestrutura é estrangeira, a distância entre quem trabalha aqui e quem acumula poder se amplia ainda mais, atravessando contratos corporativos, jurisdições e cadeias financeiras opacas.

Não é diferente no call center que mede pausas e duração de chamadas, no professor pressionado por plataformas educacionais que transformam ensino em painel de desempenho, ou na pequena comerciante que precisa pagar para que seu perfil seja mostrado a quem já a segue. Debord escreveu que o espetáculo não é um amontoado de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Hoje essa mediação é também uma relação de aluguel. Para aparecer, vender, trabalhar e até comprovar que existe administrativamente, o sujeito precisa atravessar interfaces pertencentes a grandes empresas.

Soberania exige propriedade social, não patriotismo de vitrine

O problema não será resolvido pela troca de uma marca estrangeira por uma empresa brasileira igualmente orientada a monopolizar dados e precarizar trabalhadores. Uma plataforma com sede nacional pode reproduzir a mesma dominação de classe, e o Estado brasileiro, como lembra Alysson Mascaro ao analisar os limites estruturais da forma estatal, não está automaticamente acima dos interesses do capital. Ainda assim, o Estado é um campo indispensável de disputa porque regula compras públicas, dados, tributação, telecomunicações, direito do trabalho e as condições de concorrência. Deixar tudo isso ao mercado é decidir, na prática, que a infraestrutura coletiva será organizada por quem busca renda privada.

Uma política de soberania tecnológica consequente exigiria ampliar infraestrutura pública e comunitária, fortalecer pesquisa e produção local onde elas forem estratégicas, priorizar padrões abertos e softwares auditáveis nas instituições públicas, impedir que contratos de nuvem convertam dados sociais em ativos privados e assegurar interoperabilidade que reduza o aprisionamento a uma única plataforma. Exigiria também enfrentar o núcleo de classe da questão: reconhecer vínculo e direitos onde há comando algorítmico, garantir acesso dos trabalhadores aos dados que produzem e submeter plataformas essenciais a controle democrático.

O Brasil não deixará de depender ao substituir cada aplicativo por um símbolo nacional. Deixará de pagar aluguel digital quando tratar informação, conectividade, sistemas de pagamento e capacidade computacional como meios sociais de produção. Enquanto essas bases forem mercadorias comandadas por poucos conglomerados, a chamada transformação digital seguirá significando, para a maioria, mais vigilância, mais extração e mais trabalho sem poder. A disputa pela tecnologia é uma disputa por quem organiza a vida coletiva e por quem se apropria do valor que ela produz.