Defina burguesia: não se trata simplesmente de apontar pessoas ricas, empresários famosos ou famílias que ostentam patrimônio. Burguesia é o nome de uma classe social definida por sua posição nas relações de produção: ela detém, controla ou comanda os meios pelos quais a riqueza é produzida — fábricas, terras, bancos, redes de comércio, empresas de tecnologia, plataformas digitais, imóveis, infraestrutura, fundos de investimento. Sua força não está apenas no dinheiro acumulado, mas no poder de decidir as condições sob as quais a maioria precisa trabalhar para sobreviver.

Essa definição importa porque o capitalismo realizou uma operação ideológica eficiente: fez parecer que a desigualdade entre quem manda e quem trabalha decorre de esforço individual, talento, risco ou mérito. A palavra “burguesia”, então, é frequentemente tratada como insulto antiquado, jargão de militante ou marca de ressentimento contra quem “venceu na vida”. Mas abolir o conceito não elimina a relação que ele descreve. Ao contrário: torna mais difícil enxergar por que tanta gente produz riqueza sem controlar sequer o ritmo, o preço e o destino de seu próprio trabalho.

Defina burguesia pela relação com o trabalho

Em Marx, as classes não são classificações morais nem identidades de consumo. Um trabalhador pode ter celular caro, viajar quando consegue parcelar e ainda assim pertencer à classe trabalhadora. Um pequeno comerciante pode viver em condições apertadas, endividado e submetido às grandes redes, embora juridicamente seja proprietário de um negócio. O ponto decisivo é saber quem precisa vender a própria força de trabalho para viver e quem pode comprar essa força de trabalho, extrair dela valor e apropriar-se do resultado.

O burguês não precisa, necessariamente, ficar diante de uma máquina ou dirigir pessoalmente uma empresa. Pode ser acionista, herdeiro, executivo remunerado para administrar capital alheio, proprietário de terras ou controlador de uma plataforma que sequer se apresenta como empregadora. A burguesia contemporânea se tornou mais sofisticada em seus instrumentos, mas não menos reconhecível em sua função: organizar a produção de modo que o trabalho alheio gere lucro privado.

É por isso que a imagem do empresário como sujeito isolado que “cria empregos” é tão enganosa. Emprego não é favor; é uma forma social em que alguém vende tempo, corpo, inteligência e saúde porque foi separado dos meios para produzir autonomamente sua existência. A empresa contrata porque espera retirar do trabalho mais valor do que paga em salário. Se não houver essa diferença, não há razão capitalista para contratar. O lucro não nasce da generosidade de quem investe, tampouco de uma abstração chamada mercado: ele depende da exploração de trabalho vivo.

A burguesia brasileira não mora apenas na caricatura do milionário

No Brasil, a figura da burguesia aparece na posse concentrada da terra, no comando de conglomerados financeiros, na especulação imobiliária, no controle privado de hospitais, escolas, comunicação, energia e logística. Ela aparece também no empresário que reivindica liberdade econômica enquanto depende de isenções, contratos públicos, crédito estatal, perdões de dívida e uma legislação moldada para reduzir o custo do trabalho. O discurso liberal costuma louvar um mercado sem Estado, mas a burguesia real jamais recusou o Estado quando ele garante propriedade, reprime greves, socorre negócios ou transfere recursos públicos para interesses privados.

Alysson Mascaro insiste que o Estado, no capitalismo, não é um árbitro situado acima das classes. Sua forma jurídica organiza uma sociedade fundada na circulação de mercadorias e na propriedade privada. Isso não quer dizer que cada lei seja escrita diretamente por um grupo de empresários, como em uma conspiração simplória. Quer dizer algo mais profundo: as instituições operam dentro de limites estruturais que preservam a reprodução do capital. Quando direitos trabalhistas são atacados em nome da modernização, quando privatizações são vendidas como eficiência ou quando o orçamento é submetido ao pagamento da dívida, não se está diante de escolhas técnicas neutras. Trata-se de política de classe.

O bolsonarismo soube dar a essa política uma linguagem de agressão moral. Transformou empresários em supostos produtores heroicos e trabalhadores organizados em inimigos da economia; chamou de liberdade a redução de direitos e de privilégio qualquer proteção social. Ao mesmo tempo, mobilizou ressentimentos contra pobres, mulheres, negros, indígenas, professores e movimentos populares, oferecendo uma fantasia de ordem a setores socialmente inseguros. O fascismo não precisa abolir o capitalismo para prosperar. Pode, ao contrário, servir à defesa brutal da propriedade e à destruição de toda força coletiva capaz de confrontá-la.

Plataformas atualizam a exploração sem eliminar a burguesia

Há quem imagine que aplicativos e inteligência artificial dissolveram as classes, porque o entregador é chamado de parceiro, o motorista de empreendedor e o trabalhador de call center se tornou um operador de sistemas. O vocabulário mudou; a dependência, não. O entregador compra ou aluga a moto, arca com combustível, manutenção e risco de acidente, disputa corridas definidas por um algoritmo opaco e pode ser bloqueado sem negociação real. A plataforma controla preços, acesso ao cliente, critérios de avaliação e distribuição das demandas, mas evita reconhecer o vínculo que seu próprio comando produz.

Nesse arranjo, a burguesia não desaparece atrás da tela: ela se protege atrás dela. Os donos e investidores das plataformas concentram dados, infraestrutura digital, marca e poder de decisão. A técnica, como alertava Heidegger em outro contexto, não é um instrumento inocente que possa ser separado automaticamente das formas sociais que a dirigem. Quando submetida ao capital, ela enquadra trabalhadores como recursos calculáveis, mede segundos, rotas, pausas e avaliações, convertendo a vida em desempenho. O algoritmo não é uma entidade soberana: é uma escolha empresarial sedimentada em código.

O mesmo vale para a professora pressionada por metas e plataformas educacionais, para o atendente de call center cronometrado entre uma ligação e outra, para a enfermeira com equipes reduzidas e para o jovem que aceita tarefas avulsas pela internet. A promessa é autonomia; a experiência é disponibilidade permanente. A burguesia contemporânea aprende a extrair valor sem precisar exibir a antiga fábrica fumegante. Ela fragmenta contratos, terceiriza responsabilidades e chama insegurança de flexibilidade.

O espetáculo faz a classe dominante parecer um estilo de vida

Guy Debord ajuda a perceber outro mecanismo decisivo: na sociedade do espetáculo, relações sociais são mediadas por imagens. A burguesia passa a ser apresentada como um estilo desejável de consumo, não como uma posição de poder. O influenciador que exibe uma rotina de luxo, o coach que vende disciplina, o investidor convertido em celebridade e o empresário celebrado como inovador deslocam a pergunta essencial. Em vez de indagar quem controla a riqueza produzida coletivamente, o público é convidado a perguntar como imitar a aparência de sucesso.

Essa operação é particularmente cruel em um país desigual. A pessoa submetida a jornadas exaustivas recebe a mensagem de que sua pobreza revela falha de mentalidade; se não prospera, teria escolhido mal, estudado pouco ou reclamado demais. A meritocracia transforma uma estrutura de classe em drama psicológico individual. Ela preserva a burguesia não só por meio da propriedade, mas também pela fabricação de culpa entre aqueles que ela explora.

Definir burguesia com precisão é recusar essa névoa. Não significa imaginar que todos os indivíduos ricos tenham os mesmos interesses imediatos, nem negar conflitos entre frações do capital industrial, financeiro, agrário e tecnológico. Significa reconhecer que, apesar dessas disputas, existe uma ordem comum a preservar: a propriedade privada dos meios de produção e a subordinação do trabalho ao lucro.

Enquanto um entregador tiver de aceitar uma corrida ruim para não ser punido pelo aplicativo, enquanto uma trabalhadora for demitida para elevar a rentabilidade de acionistas, enquanto a terra servir mais à especulação e à exportação do que à vida de quem nela trabalha, a burguesia será mais que uma palavra de dicionário. Será o nome de uma dominação concreta. E só pode ser enfrentada quando o trabalho deixa de se enxergar como fracasso individual e volta a se reconhecer como força coletiva capaz de reorganizar a sociedade.