O conceito de neoliberalismo costuma ser reduzido, de modo conveniente, à ideia de “Estado mínimo”. A fórmula é insuficiente e, em muitos casos, funciona como propaganda da própria ordem que pretende explicar. Neoliberalismo não é a simples retirada do Estado diante do mercado; é a reorganização ativa do Estado, das leis, das instituições e da subjetividade para que o mercado se imponha como medida geral da vida. Não se trata apenas de privatizar uma empresa pública ou cortar uma verba social. Trata-se de ensinar que saúde, educação, moradia, tempo, afeto e dignidade devem se comportar como investimentos, ativos, riscos e oportunidades individuais.
A força dessa ideologia está em apresentar uma escolha política e histórica como se fosse uma evidência técnica. Quando se diz que não há recursos para a escola pública, mas há renúncias fiscais, juros da dívida e mecanismos permanentes de transferência de riqueza para o capital, não estamos diante de uma necessidade natural. Estamos diante de prioridades de classe. Quando um governo afirma que precisa “modernizar” a legislação trabalhista, a pergunta decisiva não é se a lei ficou mais nova, mas quem passou a ter mais poder para determinar o ritmo, o preço e a insegurança do trabalho. O neoliberalismo é o nome de uma ofensiva que devolve ao capital condições ampliadas para comandar a existência social.
O conceito de neoliberalismo não significa ausência de Estado
A imagem do Estado ausente entra em colapso diante da realidade. Plataformas digitais dependem de infraestrutura pública, ordenamento jurídico, sistemas financeiros regulados, polícia, tribunais e uma massa de trabalhadores cuja reprodução cotidiana ainda passa por serviços públicos. Bancos não sobrevivem sem garantias institucionais; grandes empresas exigem contratos protegidos, benefícios tributários e socorros quando suas apostas fracassam. O Estado não desaparece: ele muda de função. Torna-se mais rigoroso na cobrança de obrigações dos de baixo, mais generoso na proteção dos interesses dos de cima e mais disposto a converter direitos sociais em mercados rentáveis.
É por isso que austeridade não é sinônimo de economia. Cortar políticas públicas, congelar investimentos ou reduzir a capacidade de atendimento do Estado não significa que o poder público deixou de gastar ou de intervir. Significa que escolheu intervir contra aqueles que dependem de serviços universais e a favor das formas privadas de acumulação. A austeridade disciplina a população pelo medo da escassez. Uma mãe espera por atendimento, um estudante vê sua escola degradada, um servidor é transformado em bode expiatório, e a precariedade passa a parecer consequência inevitável de uma suposta irresponsabilidade coletiva. Enquanto isso, o patrimônio e a renda financeira seguem protegidos por regras que raramente recebem o mesmo escrutínio moral.
Alysson Mascaro ajuda a desfazer a fantasia de que o direito seria um árbitro exterior às relações econômicas. O Estado e o direito capitalistas não são meros instrumentos que uma sociedade neutra pode acionar de qualquer maneira; eles organizam, estabilizam e reproduzem relações sociais fundadas na exploração. Sob o neoliberalismo, essa forma estatal não se torna menor: ela se torna ainda mais eficiente em produzir indivíduos juridicamente iguais que, na vida concreta, entram no mercado em posições brutalmente desiguais. O entregador e a plataforma podem assinar termos de uso; apenas um deles controla o algoritmo, os dados, o valor das tarifas e a possibilidade de sobreviver sem trabalhar naquele dia.
Neoliberalismo transforma o trabalhador em empresa de si
Marx mostrou que o trabalhador, separado dos meios de produção, precisa vender sua força de trabalho para viver. O neoliberalismo radicaliza essa condição ao exigir que essa venda seja vivida como projeto pessoal. O empregado deixa de ser apresentado como trabalhador e passa a ser “colaborador”; o desempregado é convertido em empreendedor em potencial; o adoecimento é lido como falha de gestão emocional; a ausência de direitos é anunciada como autonomia. A exploração não desaparece quando o patrão é substituído por um aplicativo ou por uma interface de gestão. Ela se torna mais opaca, pois o comando passa a se esconder em metas automáticas, notas de clientes, bloqueios e tarifas variáveis.
O entregador que pedala durante horas sob chuva e calor não é dono do próprio negócio porque escolhe o horário de conexão. Ele não define o preço da corrida, não controla a distribuição dos pedidos, não conhece os critérios integrais que reduzem seu alcance e pode ser desligado sem uma relação transparente de defesa. Sua aparente liberdade é a liberdade de assumir individualmente os custos da bicicleta, do celular, da manutenção, do acidente e da fome. A empresa, por sua vez, apresenta-se como mera intermediária tecnológica, embora organize o trabalho com uma minúcia que muitos patrões tradicionais invejariam.
O mesmo mecanismo aparece no call center, no professor submetido a plataformas educacionais, no trabalhador de logística medido por produtividade e na profissional que precisa manter presença constante em redes sociais para obter renda. A jornada não termina quando acaba o expediente, porque a própria pessoa é convocada a gerir sua empregabilidade, sua imagem e sua disponibilidade. Cursos, certificados, perfis atualizados e desempenho mensurável tornam-se requisitos para que alguém continue merecendo disputar uma vaga. A meritocracia opera aqui como moral da desigualdade: se todos concorrem, a derrota de muitos seria prova de insuficiência individual, e não resultado de uma estrutura que precisa produzir excedentes humanos e trabalho barato.
A concorrência como moral e como técnica de controle
O neoliberalismo não governa apenas por decretos, reformas e planilhas. Ele produz uma psicologia social. A concorrência deixa de ser um mecanismo restrito à circulação de mercadorias e se transforma em critério de valor humano. Quem descansa parece improdutivo; quem adoece parece incapaz; quem não se adapta parece ultrapassado. A comparação permanente dissolve a experiência de pertencimento de classe. Em vez de reconhecer no colega submetido à mesma meta um aliado possível, o trabalhador é induzido a enxergá-lo como rival por uma promoção, uma corrida mais vantajosa ou algumas horas de escala.
Essa individualização é decisiva para a alienação. O problema coletivo aparece como defeito íntimo. O jovem endividado é acusado de não saber planejar; a mulher sobrecarregada é aconselhada a organizar melhor a rotina; o trabalhador exausto deve praticar resiliência. A linguagem empresarial invade até o sofrimento: é preciso “otimizar” o sono, “investir” em relações, “potencializar” competências. Não por acaso, a indústria da motivação prospera onde a segurança material encolhe. Ela oferece técnicas de adaptação a uma ordem que deveria ser enfrentada politicamente.
Heidegger advertia que a técnica moderna não é apenas um conjunto de instrumentos neutros, mas um modo de desvelar o mundo como reserva disponível para uso e cálculo. Sob o neoliberalismo de plataforma, essa percepção alcança o próprio trabalhador. Ele se torna banco de dados, pontuação, tempo rastreável, deslocamento calculável, capacidade imediatamente acionável. A técnica poderia reduzir jornadas e ampliar a liberdade; sob o comando do capital, é empregada para intensificar vigilância, fragmentar vínculos e extrair mais valor. O problema não está no celular do entregador ou no software usado pelo professor. Está na propriedade e no poder que definem para que esses dispositivos servem.
O espetáculo neoliberal precisa de uma população culpada
Debord descreveu uma sociedade em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. O neoliberalismo contemporâneo atualiza essa dinâmica ao espetacularizar o sucesso individual. Redes sociais exibem empreendedores triunfantes, investidores precoces e trabalhadores que teriam transformado precariedade em liberdade. A exceção vira roteiro universal. O que se oculta é a rede de heranças, contatos, crédito, exploração alheia e proteção social que sustenta muitas trajetórias celebradas como mérito puro. A imagem do vencedor não só vende produtos; ela educa os demais a se culparem por não vencer.
No Brasil, essa culpa encontra terreno fértil numa sociedade marcada por escravidão, concentração fundiária, racismo estrutural e desigualdade persistente. A promessa neoliberal não corrige essa história: ela a administra, convertendo privilégios acumulados em sinais de competência e direitos negados em suposta falta de esforço. Sua política pode se combinar com discursos autoritários, moralistas e bolsonaristas porque ambos precisam deslocar a origem da crise. Em vez de apontar a exploração e a concentração de riqueza, elegem inimigos fáceis: servidores, pobres, movimentos sociais, professores, imigrantes, minorias e qualquer organização coletiva que ameace a disciplina do mercado.
Compreender o conceito de neoliberalismo, então, é recusar a mentira de que a vida submetida à concorrência é o único horizonte possível. Não basta defender um Estado abstratamente maior, se ele continua organizado para garantir a acumulação privada e administrar a miséria que ela produz. A questão é disputar para que servem a riqueza social, a técnica, o direito e o trabalho. Enquanto a produtividade coletiva for apropriada por poucos e a maioria for chamada a competir por restos, liberdade será apenas o nome elegante dado à obrigação de sobreviver sozinho.
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