Alienação tecnológica não nomeia apenas o desconforto difuso de quem passa tempo demais diante de uma tela. O termo só ganha densidade crítica quando se pergunta: quem organiza essa técnica, em benefício de quem e contra quem? No capitalismo contemporâneo, a tecnologia não aparece como simples conjunto de ferramentas neutras, disponíveis para qualquer uso. Ela vem moldada pela forma mercadoria, pela concorrência e pela necessidade de extrair mais trabalho, mais dados, mais atenção. O entregador que pedala guiado por um aplicativo, a professora pressionada por plataformas educacionais, o atendente de call center monitorado segundo por segundo, todos experimentam a técnica não como ampliação livre de suas capacidades, mas como comando externo que invade o corpo, o tempo e a linguagem.

Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador se separa do produto que cria, do ato de produzir, de sua própria condição humana e dos outros trabalhadores. A técnica, sob o capital, aprofunda esse movimento. Não porque máquina e algoritmo sejam malignos por essência, mas porque entram na produção como meios de disciplinar, fragmentar e baratear a força de trabalho. O aplicativo não é só uma interface elegante entre oferta e demanda. Ele é um gerente automático que distribui corridas, pune recusas, esconde critérios, rebaixa remunerações e transforma a insegurança em rotina. O trabalhador continua produzindo valor, mas sua atividade aparece a ele como obediência a uma lógica opaca, inscrita na tela como se fosse destino natural.

Alienação tecnológica como forma de comando

Heidegger percebeu que a técnica moderna não é apenas um instrumento, mas um modo de revelar o mundo: tudo passa a aparecer como reserva disponível, algo a ser calculado, explorado e mobilizado. Esse diagnóstico ganha conteúdo histórico mais preciso quando recolocado na crítica marxista. No capitalismo de plataforma, não é só a natureza que vira estoque; o próprio sujeito é reconfigurado como recurso permanentemente acionável. O motorista precisa estar disponível. O freelancer precisa responder de madrugada. O professor precisa alimentar sistemas, preencher indicadores, converter aula em conteúdo mensurável. A experiência humana é traduzida em desempenho, rastreio e produtividade.

É nesse ponto que a alienação tecnológica deixa de ser um problema moral sobre “uso excessivo” e se revela como problema político. A técnica passa a organizar a vida segundo critérios que o trabalhador não define. O algoritmo decide quem aparece, quem recebe demanda, quem some. A plataforma promete autonomia enquanto centraliza o poder. O sujeito sente que escolhe, mas escolhe dentro de um corredor estreito desenhado por empresas que dominam infraestrutura, dados e mediação social. A liberdade vendida é a liberdade de se oferecer incessantemente ao mercado.

No Brasil, isso assume a face concreta da uberização. O trabalhador arca com bicicleta, moto, celular, internet, manutenção, risco de acidente e os intervalos sem remuneração. Em troca, recebe a retórica do empreendedorismo. A técnica, aqui, funciona como ideologia materializada: ela não apenas explora, mas ensina o explorado a interpretar sua exploração como oportunidade. Quando a renda despenca, a culpa é individual: faltou estratégia, disciplina, avaliação alta, disponibilidade. A plataforma desaparece como relação de poder e reaparece como ambiente neutro de conexão. É a meritocracia traduzida em interface.

O espetáculo digital e a fabricação do consentimento

Debord mostrou que, na sociedade do espetáculo, a relação social entre pessoas é mediada por imagens. As plataformas levaram isso a um patamar ainda mais invasivo: não se trata somente de contemplar imagens, mas de viver para alimentar circuitos de visibilidade e medição. O trabalhador não apenas trabalha; ele precisa performar engajamento, responsividade, simpatia, reputação. A subjetividade vira ativo econômico. O eu se converte em vitrine, portfólio, marca. A alienação tecnológica opera, então, em dois níveis simultâneos: intensifica a exploração material e captura simbolicamente o modo como os indivíduos se percebem.

Essa captura é decisiva para a estabilidade da dominação. Se o trabalhador reconhecesse com nitidez a estrutura que o submete, a técnica perderia parte de sua eficácia ideológica. Por isso, o sistema oferece compensações imaginárias: likes, ranqueamentos, selos, métricas, promessas de crescimento. Le Bon, ao estudar a psicologia das multidões, mostrou como afetos coletivos podem ser organizados por sugestão, contágio e simplificação. As redes sociais industrializaram esse mecanismo. A plataforma administra impulsos, organiza indignações, premia reflexos e achata a mediação crítica. O resultado é um ambiente propício para a circulação de ressentimento, ódio e submissão a lideranças autoritárias.

Não por acaso, o bolsonarismo encontrou nesse terreno uma infraestrutura favorável. A degradação das condições materiais de vida, combinada à mediação algorítmica da experiência, produziu um sujeito permanentemente excitado e politicamente desorientado. A técnica não cria sozinha o fascismo, mas oferece um aparelho poderoso para sua difusão. Ela acelera boatos, segmenta medos, transforma preconceito em comunidade afetiva. Enquanto isso, a crítica estrutural ao capital é deslocada por guerras culturais administradas por plataformas que lucram com conflito, atenção e compulsão.

Quando a eficiência devora o trabalho e a linguagem

No cotidiano do trabalho, a alienação tecnológica aparece também na linguagem gerencial que recobre a violência com termos assépticos. Não se demite: faz-se desligamento. Não se intensifica a exploração: otimiza-se processo. Não se vigia: acompanha-se performance. A técnica fornece à administração um vocabulário de inevitabilidade. Tudo parece decorrer de exigências objetivas do sistema, como se softwares e indicadores tivessem vontade própria. Mas por trás de cada painel de metas há decisões políticas sobre ritmo, custo, controle e descarte.

O call center talvez seja um dos laboratórios mais nítidos dessa lógica. O atendente tem fala roteirizada, pausa cronometrada, escuta gravada, tempo medido, emoção disciplinada. O corpo permanece sentado, mas a expropriação é total: voz, atenção, paciência e afeto são convertidos em mercadoria. Algo semelhante ocorre com professores submetidos a plataformas educacionais que reduzem o ensino a preenchimento de relatórios, postagem de tarefas e cumprimento de indicadores. A técnica, vendida como modernização, frequentemente rebaixa a autonomia intelectual e substitui o vínculo pedagógico por protocolos de gestão.

Alysson Mascaro insiste que direito e Estado não pairam acima da sociedade, mas operam dentro da forma social capitalista. Isso ajuda a entender por que a regulação da tecnologia costuma chegar atrasada, mutilada ou capturada. O problema não é apenas falta de norma; é a inserção estrutural do poder público numa ordem que depende da valorização do capital. As plataformas se apresentam como inovação inevitável, e o Estado muitas vezes atua para garantir essa inevitabilidade, seja por omissão, seja por legislação moldada para não tocar no núcleo da exploração. O discurso da disrupção serve, então, para naturalizar a retirada de direitos e a transferência de riscos ao trabalhador.

Contra a técnica como destino

Criticar a alienação tecnológica não significa desejar retorno romântico a um passado sem máquinas. A esquerda perde força quando troca crítica da forma social por nostalgia moral. O problema não é a existência de tecnologia avançada, mas sua submissão à acumulação privada e ao comando de classe. Uma técnica organizada para reduzir jornada, ampliar capacidades coletivas, socializar conhecimento e retirar do mercado o poder de decidir quem vive com dignidade seria outra coisa. O que existe hoje, porém, é o contrário: ganhos de produtividade que não libertam o trabalhador, apenas elevam a exigência de disponibilidade e intensificam a concorrência entre precarizados.

Romper com isso exige recusar a mistificação central do nosso tempo: a de que plataformas e algoritmos seriam instâncias quase naturais, acima da política. Não são. São formas historicamente determinadas de organização do trabalho, da circulação e da percepção, construídas por empresas concretas, protegidas por Estados concretos e legitimadas por ideologias concretas. Quando o entregador é chamado de parceiro, quando o desempregado é chamado de empreendedor, quando a vigilância é chamada de personalização, a linguagem já está trabalhando para o capital.

A tarefa crítica é recolocar a técnica no terreno do conflito social. Quem controla a infraestrutura? Quem define os critérios do algoritmo? Quem se apropria do valor extraído dos dados e do trabalho? Quem suporta o desgaste físico e psíquico da conexão permanente? Sem essas perguntas, a discussão sobre tecnologia fica prisioneira do fetiche da novidade. E fetiche, em Marx, é precisamente isso: a inversão pela qual relações sociais entre pessoas aparecem como qualidades naturais das coisas. A tela brilha, o aplicativo calcula, a plataforma conecta — e some de vista a relação de exploração que torna tudo isso possível.

Quando a técnica se apresenta como destino, a política já foi derrotada de antemão. A crítica da alienação tecnológica começa ao recuperar aquilo que o capitalismo digital tenta apagar: que máquinas, sistemas e redes podem ser reorganizados de outro modo, mas não sem enfrentar o poder de classe que hoje os governa. Enquanto a vida for tratada como insumo e a subjetividade como dado extraível, a modernização seguirá sendo apenas o nome elegante da velha barbárie.