A guerra cultural serve para que você não olhe o contracheque. Não se trata de dizer que preconceito, religião, sexualidade, racismo, direitos das mulheres ou violência contra pessoas LGBT sejam assuntos menores. São conflitos reais, atravessados por sofrimento material e por relações de poder. O truque está em outra parte: transformar tais temas em uma arena permanente de pânico, insulto e indignação, separada das condições que organizam a vida social. Quando a política é reduzida à briga incessante sobre costumes, quem trabalha mais, recebe menos e paga proporcionalmente mais imposto desaparece do centro da conversa.
O trabalhador brasileiro conhece a cena. Ele abre o aplicativo antes de amanhecer, aceita corridas ruins para não prejudicar a própria pontuação, compra combustível, arca com a manutenção da moto e termina o dia sem saber se a renda compensou. Ou atende ligações em um call center monitorado por segundos, submetido a metas que mudam de nome, mas conservam a mesma função: extrair mais trabalho com menos gente. Ou é professor cercado por tarefas administrativas, plataformas e cobranças que invadem a noite. Ainda assim, na tela que ocupa seus intervalos, a notícia urgente é uma polêmica cuidadosamente inflamada, uma frase recortada, um inimigo moral a ser odiado.
A consequência não é apenas distração. É desorganização política. A indignação que poderia se dirigir à escala de trabalho, ao aluguel, ao custo da comida, à dívida, à terceirização e à regressividade tributária é capturada por uma guerra de símbolos. A população é convocada a escolher um campo afetivo antes de perguntar quem lucra com a inflação, com os juros, com a privatização, com a informalidade e com a redução de direitos. O capital não precisa fabricar consenso completo; basta que a classe trabalhadora permaneça dividida e exausta, incapaz de reconhecer no próprio cotidiano uma experiência comum de exploração.
O conflito moral convertido em método de governo
O bolsonarismo elevou esse mecanismo a uma forma de fazer política. Sua força nunca esteve somente em defender valores conservadores, que possuem longa história no país. Ela esteve em produzir uma sensação de ameaça contínua: a família sob ataque, a fé perseguida, a infância corrompida, a nação humilhada por inimigos internos. Essa narrativa oferece alvos fáceis e imagens mobilizadoras para uma população submetida a insegurança econômica. Em vez de explicar por que o emprego é precário, por que o salário não acompanha as necessidades ou por que o Estado cobra tanto de quem consome e tão pouco de quem acumula patrimônio, ela oferece culpados culturalmente identificáveis.
É a operação típica do fascismo em sua dimensão social: converter frustração material em ódio contra grupos vulneráveis, intelectuais, artistas, movimentos populares, servidores ou qualquer figura que possa representar uma ameaça imaginária à ordem. A violência não aparece como defesa dos privilégios existentes, mas como restauração moral. A exploração, por sua vez, sai de cena. O empresário que exige disponibilidade total de seus empregados pode posar de defensor da família. O político que protege isenções e patrimônios pode se vender como guardião dos costumes. A contradição não é um acidente: é precisamente a eficácia ideológica da operação.
Quanto mais a política se torna uma disputa sobre identidades abstratas e escândalos instantâneos, menos ela pergunta quem controla a riqueza produzida por todos.
Marx identificou que as ideias dominantes de uma época tendem a ser as ideias da classe dominante. Isso não significa que cada notícia seja encomendada em uma sala secreta por grandes empresários. Significa que uma sociedade organizada pela propriedade privada dispõe de instituições, meios de comunicação, plataformas e hábitos mentais que tornam certas perguntas naturais e outras quase impronunciáveis. Perguntar se uma propaganda feriu a moral de alguém pode ocupar semanas. Perguntar por que os lucros empresariais são tratados como mérito e o salário como custo a cortar encontra muito menos espaço.
O espetáculo não precisa resolver nada
Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma forma de relação social mediada por imagens. A guerra cultural contemporânea realiza essa mediação com eficiência industrial. A polêmica precisa ser visível, simples e emocionalmente carregada. Ela deve caber em um vídeo curto, gerar reação imediata e obrigar cada pessoa a declarar sua posição. Não importa que a discussão seja falsa, que a frase tenha sido descontextualizada ou que o caso seja irrelevante para a vida da maioria. Sua utilidade está no fluxo: manter o público mobilizado como audiência e desmobilizado como classe.
As plataformas digitais aperfeiçoam essa captura. Seu modelo de negócio valoriza atenção, recorrência e engajamento; conteúdos que despertam medo, fúria e ressentimento circulam com vantagem. O trabalhador, já separado do controle sobre seu tempo no emprego, é também expropriado em seus momentos de descanso. Rola a tela, comenta, compartilha, combate estranhos e retorna ao trabalho com a sensação de ter participado da política. Mas participação não é o mesmo que poder. Poder seria organizar-se para interferir na jornada, no salário, na segurança, no direito à sindicalização e na distribuição da carga tributária.
A psicologia das multidões, examinada por Gustave Le Bon, ajuda a compreender a facilidade com que indivíduos isolados aderem a palavras de ordem, imagens e líderes que oferecem pertencimento. Mas seria um erro tratar esse fenômeno como defeito eterno de uma massa irracional. A multidão contemporânea é produzida por condições materiais: solidão urbana, competição no trabalho, medo de cair socialmente, destruição de vínculos coletivos e comunicação orientada por algoritmos. O ressentimento encontra na guerra cultural uma linguagem pronta. A extrema direita oferece a essa angústia uma narrativa; a ordem econômica que fabrica a angústia permanece protegida.
Quem ganha quando o salário sai de pauta
Ganham os grandes proprietários, os setores financeiros, as empresas que dependem de trabalho barato e os grupos econômicos beneficiados por uma tributação moldada para preservar renda e patrimônio no topo. Ganham também os agentes políticos que não pretendem enfrentar esses interesses, mas necessitam parecer insurgentes. É muito mais confortável atacar uma exposição, uma artista ou um professor do que discutir a estrutura de impostos, o poder dos bancos, a concentração fundiária ou a precarização promovida pelas próprias empresas que financiam campanhas e pautam governos.
Isso vale inclusive para setores que se apresentam como moderados. A guerra cultural não é monopólio da extrema direita, embora ela a utilize de modo mais brutal. Toda vez que o debate público substitui conflito de classes por controvérsias morais isoladas, há um ganho para quem prefere que a economia pareça uma paisagem técnica, sem responsáveis. Fala-se de austeridade como se fosse fenômeno climático; chama-se corte de direitos de modernização; chama-se redução de custo aquilo que, para alguém, significa menos comida, menos descanso e mais endividamento.
A meritocracia fornece a cola moral dessa ordem. Se o entregador não prospera, dizem que lhe falta esforço; se a professora adoece, faltaria resiliência; se o jovem de periferia alterna bicos, seria preciso empreender melhor. O sistema que concentra oportunidades e socializa riscos apresenta seus resultados como biografias individuais. Ao mesmo tempo, a guerra cultural oferece uma compensação simbólica: mesmo sem segurança econômica, o sujeito pode sentir que pertence ao lado dos “cidadãos de bem”, superior a algum inimigo escolhido. É uma dignidade falsa, comprada ao preço da solidariedade de classe.
Recolocar a vida material no centro
Recusar essa cortina não exige desprezar os conflitos culturais. Exige arrancá-los da manipulação que os torna úteis à exploração. Racismo, machismo e LGBTfobia não são distrações inventadas: dividem trabalhadores, rebaixam salários, naturalizam violências e distribuem de forma desigual o peso do cuidado e da precariedade. Enfrentá-los de modo consequente é ligá-los à luta por emprego digno, serviços públicos, moradia, tempo livre e direitos sociais, não convertê-los em combustível para uma máquina de escândalos.
O ponto decisivo é fazer a pergunta que a cortina tenta interditar: como vivemos e quem se apropria da riqueza que produzimos? Quando um entregador trabalha doze horas para sobreviver, quando uma trabalhadora de telemarketing não pode sequer controlar suas pausas, quando o professor leva para casa tarefas que não cabem no horário pago, não há questão apenas individual. Há uma estrutura de classe. A guerra cultural prospera quando essa estrutura é escondida por bandeiras, medos e inimigos convenientes. Olhar o contracheque, neste caso, é mais do que conferir um número: é reconhecer que a política começa no lugar onde o trabalho é explorado e a vida é administrada em favor do lucro.
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