Dependência é a forma subordinada de desenvolvimento das economias periféricas no capitalismo mundial: elas podem industrializar-se, crescer e modernizar-se, mas o fazem sob relações que transferem riqueza para os centros do sistema e preservam sua posição desigual. Para Ruy Mauro Marini, não se trata de uma falta passageira de desenvolvimento nem de um erro de administração nacional. É uma relação histórica entre países e classes, sustentada pela superexploração do trabalho, pela especialização produtiva e pela apropriação externa de parte do valor produzido aqui.

Origem do conceito

A teoria marxista da dependência ganhou força na América Latina nas décadas de 1960 e 1970, quando ficou evidente que industrialização e crescimento econômico não eliminavam a desigualdade entre países. O Brasil construía fábricas, cidades e grandes obras, mas mantinha pobreza em massa, concentração fundiária, salários rebaixados e forte necessidade de capital, máquinas e tecnologia estrangeiros.

Ruy Mauro Marini foi um dos principais formuladores dessa leitura. Contra a ideia de que os países latino-americanos apenas precisariam repetir o caminho dos países ricos, ele mostrou que o capitalismo periférico não está fora do desenvolvimento capitalista: ele é produzido dentro dele. A riqueza dos centros industriais dependeu, e ainda depende, de relações desiguais com regiões fornecedoras de alimentos, matérias-primas, energia, trabalho barato e mercados para mercadorias e capitais externos.

A dependência, assim, não significa simples submissão diplomática a uma potência. Ela é uma engrenagem econômica e social: crédito internacional, propriedade estrangeira, patentes, remessa de lucros, dívida pública, cadeias globais de produção e comércio desigual ligam a periferia a interesses que não controla.

Como a dependência opera

Marini identificou na superexploração do trabalho o mecanismo decisivo da dependência. Ela ocorre quando o capital compensa seus limites e sua posição subordinada extraindo mais do trabalhador do que seria necessário para reproduzir sua força de trabalho em condições dignas. Isso pode acontecer pela extensão da jornada, pela intensificação do ritmo ou pela redução do salário abaixo das necessidades reais de vida.

Não se trata apenas de receber pouco em comparação com alguém de outro país. Trata-se de viver sob um regime em que o desgaste físico, mental e familiar do trabalho é tratado como recurso barato e renovável. Um operador de call center submetido a metas inalcançáveis, vigilância constante e salário insuficiente não é um acidente externo ao modelo. Um entregador de aplicativo que arca com bicicleta, moto, combustível, manutenção e risco de acidente enquanto a plataforma retém parte da renda também revela uma atualização dessa lógica.

A dependência ainda limita o mercado interno. Se grande parte da população recebe pouco, não consegue consumir de maneira estável os bens produzidos pela própria economia. O capital busca então compensar essa limitação com exportações, endividamento, crédito caro, consumo das camadas abastadas ou nova rodada de compressão salarial. A modernização aparece, mas convive com precariedade estrutural.

O Brasil dependente

No Brasil, a dependência pode ser vista na centralidade da exportação de commodities, na vulnerabilidade diante do câmbio e dos juros internacionais, na importação de componentes tecnológicos e na presença de empresas transnacionais em setores estratégicos. Isso não quer dizer que toda exportação seja, por si, dependência, nem que não haja produção industrial e tecnológica no país. A questão é quem controla as decisões, para onde vão os ganhos e quem paga o custo social do crescimento.

Quando o país prioriza superávits comerciais baseados em soja, minério, petróleo ou carne, enquanto serviços públicos são pressionados por cortes e trabalhadores enfrentam informalidade, a relação entre riqueza exportada e pobreza interna deixa de ser paradoxo. É parte do modo dependente de acumular. A mesma lógica atravessa a escola: professores com múltiplas jornadas e estrutura precária formam a força de trabalho de uma economia que trata educação como gasto a conter, embora exija qualificação contínua.

As plataformas digitais acrescentam uma camada contemporânea. Elas capturam dados, organizam mercados e definem regras de trabalho a partir de centros corporativos frequentemente situados fora do país. A tecnologia não cria sozinha a dependência, mas pode aprofundá-la quando transforma trabalhadores locais em prestadores desprotegidos e concentra propriedade, infraestrutura e conhecimento em poucas empresas.

Dependência, política e fascismo

A dependência não produz automaticamente fascismo, mas ajuda a entender o terreno em que saídas autoritárias ganham força. Crises recorrentes, desemprego, inflação, endividamento e frustração social podem ser convertidos pela extrema direita em ódio contra pobres, migrantes, movimentos sociais, servidores públicos ou supostos inimigos internos. Em vez de confrontar a classe dominante, o capital financeiro e os mecanismos internacionais de transferência de valor, o discurso fascista oferece punição, militarização e nostalgia de uma ordem que nunca foi igualitária.

A crítica de Marini recusa tanto o nacionalismo vazio quanto a crença de que bastaria atrair mais investimento externo para superar a subordinação. Enfrentar a dependência exige mexer na propriedade, na organização do trabalho, no controle democrático dos recursos e na capacidade coletiva de decidir o que produzir, para quem e sob quais condições. Sem isso, desenvolvimento pode continuar sendo apenas outro nome para a exploração mais eficiente.