Psicologia das multidões é o campo que investiga as mudanças de percepção, emoção e conduta que ocorrem quando indivíduos se reconhecem como parte de uma massa. Em sua formulação mais conhecida, a de Gustave Le Bon, a pessoa imersa na multidão perde parte de seu autocontrole e senso crítico, sente uma força que não teria isoladamente e se torna mais suscetível ao contágio emocional, à sugestão e a palavras de ordem. Mas essa descrição não deve servir para tratar toda ação coletiva como irracional: multidões podem reproduzir preconceitos e violências, mas também podem se organizar para reivindicar direitos. A questão decisiva é entender as condições materiais, os meios de comunicação e as forças políticas que produzem e dirigem seus afetos.

Origem do conceito em Gustave Le Bon

O médico e escritor francês Gustave Le Bon publicou Psicologia das Multidões em 1895, num período de expansão urbana, conflitos de classe e entrada mais ampla das massas na política europeia. Para ele, a multidão não era apenas uma reunião física: era uma situação em que os indivíduos adquiriam uma orientação mental comum. Nela, a personalidade consciente recuaria, enquanto impulsos, imagens simples e crenças compartilhadas ganhariam força.

Le Bon sustentava que a multidão age menos por argumentos encadeados do que por afirmações repetidas, símbolos, imagens e emoções intensas. A sensação de anonimato diminuiria a responsabilidade individual; o contágio faria uma emoção se propagar; a sugestão levaria pessoas a aceitar ideias ou comandos sem examiná-los. Daí sua atenção ao prestígio dos líderes, às palavras vagas e grandiosas e à repetição como técnicas de condução coletiva.

Há um limite político importante nessa teoria. Le Bon escrevia a partir do temor das elites diante da participação popular e frequentemente atribuiu à massa uma inferioridade quase natural. Sua psicologia pode descrever mecanismos reais de mobilização, mas carrega um viés conservador: transforma conflitos sociais e interesses de classe em defeitos psicológicos de um povo supostamente incapaz de pensar.

Como o contágio coletivo opera

Numa situação de massa, a emoção compartilhada pode alterar rapidamente o que parece aceitável, urgente ou verdadeiro. Uma frase de efeito repetida por uma liderança, uma cena recortada em vídeo ou a identificação com um grupo podem valer mais, naquele instante, do que a verificação dos fatos. O indivíduo não desaparece literalmente nem deixa de ter responsabilidade; porém, sua decisão passa a ser pressionada por uma atmosfera coletiva, pela necessidade de pertencimento e pelo medo de se separar do grupo.

Esse mecanismo não ocorre somente em atos de rua. Uma torcida, uma congregação, uma reunião empresarial ou uma avalanche de comentários podem formar comportamentos de multidão. Nas plataformas digitais, o contágio não exige proximidade física: indignação, pânico, humilhação e entusiasmo circulam por compartilhamentos, tendências e recomendações algorítmicas. A arquitetura da plataforma recompensa a reação veloz e visível, enquanto a dúvida, a leitura longa e a correção posterior têm menos alcance.

Para a crítica social, porém, não basta dizer que as pessoas foram “manipuladas”. A sugestão encontra terreno em experiências concretas de medo, precariedade, ressentimento, isolamento e falta de horizonte. Quando o trabalhador de call center é vigiado por metas, quando o entregador depende de um algoritmo opaco para receber corridas, quando o professor enfrenta salas superlotadas e desvalorização, a promessa de uma explicação simples e de um culpado visível pode oferecer uma falsa sensação de ordem.

No Brasil das redes, da política e do trabalho

No Brasil, a psicologia das multidões ajuda a ler a circulação de campanhas políticas, boatos morais e pânicos digitais, sem reduzir o eleitorado ou os participantes de manifestações a uma massa sem consciência. O bolsonarismo mostrou como lideranças podem mobilizar identificação afetiva, antagonismos e repetição de mensagens para construir uma comunidade de fiéis contra inimigos imaginados ou reais. Vídeos curtos, transmissões ao vivo e grupos fechados intensificam a impressão de contato direto entre líder e público, mesmo quando a comunicação é profissionalmente organizada.

Também seria enganoso aplicar o termo apenas à direita ou apenas a multidões presenciais. A indústria cultural, a publicidade e as plataformas produzem consensos cotidianos: transformam consumo em identidade, competição em virtude e sofrimento social em fracasso individual. O empreendedorismo compulsório oferece ao trabalhador precarizado a imagem de autonomia, ao mesmo tempo que esconde a dependência em relação a empresas, aplicativos, crédito e avaliações de clientes.

A multidão pode ainda se constituir como força de resistência. Greves, mobilizações por moradia, atos contra o racismo e lutas por serviços públicos envolvem afetos coletivos, palavras de ordem e identificação. Isso não as torna automaticamente justas ou livres de problemas, mas mostra que a ação coletiva não é uma doença da razão. Ela pode ampliar a capacidade de pessoas isoladas reconhecerem uma condição comum e enfrentarem poderes que, individualmente, parecem incontornáveis.

Da massa irracional à crítica da ideologia

Uma leitura marxista desloca a pergunta: em vez de perguntar apenas por que a multidão “se deixa levar”, pergunta quem controla os meios de produzir visibilidade, quais interesses organizam a circulação de ideias e que relações sociais tornam certas mensagens convincentes. Ideologia não é uma hipnose externa aplicada sobre sujeitos vazios. É a forma pela qual relações de dominação aparecem como naturais, inevitáveis ou desejáveis.

Por isso, combater a manipulação coletiva não equivale a exaltar o indivíduo isolado como modelo de lucidez. O isolamento também é uma forma de impotência produzida pelo capitalismo. A crítica exige organização, debate, educação política e meios coletivos de checagem e elaboração. Contra o líder carismático, o algoritmo que inflama e a empresa que lucra com atenção capturada, a tarefa é construir vínculos coletivos capazes de pensar, discordar e agir sem entregar sua potência a quem administra o medo.