O conceito de colonialismo de dados refere-se à apropriação massiva de informações pessoais e sociais por corporações e Estados, estabelecendo um paralelo com as práticas clássicas de exploração colonial. Mas o paralelo só é útil se for levado a sério: não se trata de dizer que um aplicativo é idêntico a uma metrópole europeia do século XIX, e sim de compreender que o capitalismo encontrou uma nova fronteira de expropriação. Depois de tomar terras, recursos minerais, força de trabalho e mercados, ele busca converter a própria vida social em matéria-prima: deslocamentos, conversas, afetos, compras, pausas, rotas, opiniões, doenças, vínculos e medos.

Os dados não aparecem espontaneamente como riqueza disponível. Eles são produzidos por pessoas em atividade. Cada entrega aceita, cada corrida solicitada, cada formulário preenchido, cada aula ministrada numa plataforma e cada atendimento de call center deixa rastros que podem ser organizados, cruzados e vendidos ou usados para prever condutas. O usuário é apresentado como alguém que recebe um serviço conveniente; o trabalhador de plataforma, como um empreendedor autônomo. Nos dois casos, participa da criação de um patrimônio informacional que não controla, não conhece integralmente e do qual não recebe o valor correspondente.

É por isso que colonialismo de dados não significa apenas invasão de privacidade. A privacidade é uma dimensão decisiva, mas a questão é mais funda: quem possui a infraestrutura que registra a vida, quem define os critérios pelos quais ela será classificada e quem pode transformar essa classificação em poder econômico e político? A resposta, sob o capitalismo digital, aponta para grandes empresas de tecnologia, fundos, intermediários financeiros e aparatos estatais que operam em estreita ou eventual colaboração.

Colonialismo de dados: por que a comparação com a colonização importa

O colonialismo histórico submeteu territórios e populações a uma ordem externa de extração. A metrópole organizava portos, leis, violência e comércio para retirar riqueza das colônias, enquanto apresentava esse saque como civilização, progresso ou modernização. O colonialismo de dados repete essa estrutura em outro terreno. Plataformas sediadas em centros do capitalismo global capturam informações geradas em países periféricos, processam-nas em sistemas opacos e extraem delas lucro, capacidade de previsão e domínio sobre mercados locais.

Não é necessário que uma empresa estrangeira carregue bandeira imperial para que a relação seja colonial. Basta que ela imponha a infraestrutura indispensável à circulação econômica e social, determine unilateralmente suas regras e faça dos habitantes de um território fornecedores gratuitos de matéria-prima informacional. Quando milhões de brasileiros dependem de mecanismos de busca, redes sociais, sistemas de anúncios, aplicativos de transporte, meios de pagamento e serviços em nuvem controlados por conglomerados estrangeiros, uma parcela crescente da experiência coletiva passa por canais cuja lógica não é pública nem soberana.

A colonização dos dados não toma apenas informações isoladas; toma a capacidade coletiva de conhecer, antecipar e organizar a própria vida social.

Essa capacidade tem valor. Saber onde há demanda por entregas, quais bairros consomem mais, que linguagem mobiliza uma multidão, quais trabalhadores aceitam determinada tarifa ou quais famílias enfrentam endividamento permite intervir no comportamento antes mesmo que ele se consolide. O dado, isoladamente, pode parecer banal. Seu poder nasce da escala, do cruzamento e dos modelos que transformam traços dispersos em perfis, probabilidades e decisões automatizadas.

Do trabalho explorado à vida inteira como fonte de valor

Marx mostrou que a riqueza capitalista depende da exploração da força de trabalho: o trabalhador produz mais valor do que recebe em salário, e essa diferença é apropriada pelo proprietário dos meios de produção. A extração de dados não elimina esse mecanismo; ela o amplia. O entregador de aplicativo não é explorado apenas quando pedala ou dirige por horas para alcançar uma remuneração incerta. Sua rota, velocidade, avaliações, tempo de espera, recusas e disponibilidade alimentam um sistema que aperfeiçoa a gestão da mão de obra e reduz seu poder de barganha.

O algoritmo surge como se fosse uma tecnologia neutra que simplesmente calcula a melhor distribuição de pedidos. Na prática, ele é um instrumento privado de comando. Ele pode baixar tarifas, priorizar quem aceita mais corridas, punir silenciosamente quem recusa chamadas, alterar áreas de demanda e bloquear trabalhadores sem uma explicação inteligível. A empresa chama isso de eficiência; o trabalhador vive isso como subordinação sem chefe visível, jornada sem limite definido e salário sem critério transparente.

O mesmo ocorre no call center, onde pausas, entonação, duração das chamadas e metas são monitoradas; na escola, quando plataformas educacionais convertem desempenho, participação e dificuldades dos estudantes em registros administráveis; e no comércio, quando sistemas de produtividade transformam cada gesto em indicador. A gestão por dados não é uma camada tecnológica colocada sobre relações previamente justas. Ela reorganiza a exploração, tornando-a contínua, minuciosa e aparentemente impessoal.

A aparência de escolha e a alienação digital

O êxito desse sistema depende de apresentar a captura como livre adesão. Clicar em “aceito” parece um ato individual, mas quase nunca é uma negociação. Os termos são longos, mutáveis e impostos por empresas das quais depende a sociabilidade cotidiana ou o próprio acesso ao trabalho. Recusar pode significar perder contato com familiares, oportunidades profissionais, meios de deslocamento ou canais de venda. A liberdade formal do clique encobre uma necessidade social concreta.

Debord ajuda a perceber outro aspecto: na sociedade do espetáculo, a realidade social é mediada por imagens e mercadorias que se apresentam como naturais. As plataformas não vendem somente comunicação; vendem visibilidade, reconhecimento e pertencimento. Ao publicar, reagir e consumir conteúdos, as pessoas acreditam estar apenas se expressando. Estão também trabalhando para a máquina de publicidade e perfilamento, produzindo atenção e dados que retornam a elas como anúncios, recomendações, modulações de desejo e hierarquias de relevância.

Essa é uma forma específica de alienação digital. Aquilo que os indivíduos produzem coletivamente — conhecimento sobre seus hábitos, redes e necessidades — volta contra eles como poder estranho. Volta como preço variável, como propaganda dirigida, como seleção automática de currículo, como crédito negado, como conteúdo político calculado para gerar indignação. A vida se torna legível para o capital, enquanto os critérios do capital permanecem ilegíveis para quem é medido.

Estado, segurança e a administração das populações

Seria confortável atribuir o problema apenas às big techs, como se o Estado fosse um contrapeso naturalmente protetor. Estados também coletam, cruzam e usam dados para administrar populações, ampliar vigilância e definir suspeitas. Cadastros públicos podem ser indispensáveis para políticas sociais; o problema aparece quando a necessidade de planejamento serve de pretexto para opacidade, compartilhamento indiscriminado e controle de grupos já vulnerabilizados. Dados de território, renda, raça, consumo e circulação podem sustentar direitos ou intensificar seletividade policial e burocrática, conforme a correlação de forças que organiza seu uso.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados representa um limite jurídico importante, pois reconhece direitos sobre informações pessoais e impõe deveres de tratamento. Mas o direito não paira acima das relações materiais. Como observa a crítica marxista do Estado desenvolvida por Alysson Mascaro, as formas jurídicas operam dentro de uma sociabilidade estruturada pela mercadoria e pela propriedade. Uma lei pode restringir abusos, punir vazamentos e exigir transparência; não dissolve, por si, o poder econômico de quem controla servidores, códigos, mercados e infraestruturas de comunicação.

Além disso, a proteção individual baseada no consentimento é insuficiente diante de inferências coletivas. Uma empresa pode não conhecer uma informação íntima declarada por uma pessoa e, ainda assim, deduzi-la a partir de milhares de sinais: localização, rede de contatos, padrão de consumo ou comportamento semelhante ao de outros perfis. O dano não é apenas individual. Quando um sistema classifica bairros, trabalhadores ou grupos sociais como mais rentáveis, mais arriscados ou menos desejáveis, ele administra desigualdades coletivas.

Contra a soberania privada dos algoritmos

Falar em colonialismo de dados exige abandonar duas ilusões. A primeira é que bastaria educar o usuário para ele “usar melhor” a tecnologia. Cuidado individual é válido, mas não enfrenta plataformas que concentram infraestrutura e transformam a participação social em condição de sobrevivência econômica. A segunda é que a inovação empresarial, deixada a si mesma, produzirá espontaneamente liberdade. A técnica, como advertia Heidegger, não é apenas um conjunto de ferramentas neutras: ela organiza um modo de revelar e tratar o mundo. Sob o capital, esse modo tende a enxergar pessoas como recursos disponíveis, perfis calculáveis e estoques de atenção.

Uma resposta democrática precisa disputar a propriedade e o controle da infraestrutura digital. Isso inclui transparência efetiva sobre decisões automatizadas no trabalho, direito de contestar bloqueios e pontuações, limites ao compartilhamento de bases, fiscalização pública forte, proteção de dados sensíveis e organização coletiva de trabalhadores submetidos à gerência algorítmica. Inclui também recusar que serviços essenciais, comunicação pública e conhecimento social dependam integralmente de monopólios privados.

O alvo não é a tecnologia em abstrato. O problema é uma tecnologia submetida à acumulação, que converte a cooperação humana em propriedade alheia e chama esse roubo de personalização. Enquanto os dados produzidos pela sociedade forem tratados como espólio corporativo ou instrumento de vigilância estatal, a promessa digital de conexão continuará escondendo uma realidade mais brutal: a expansão da exploração para dentro da própria vida.