Os exemplos de meritocracia costumam aparecer em materiais escolares como histórias edificantes: o aluno que estudou e passou, o funcionário que foi promovido, o empreendedor que começou pequeno e prosperou. A fórmula é sempre a mesma: havia uma escada, alguém subiu, logo a escada estaria disponível para todos. O que desaparece da narrativa é a pergunta decisiva: quem construiu a escada, quem a segura, quem foi impedido de chegar até ela e quem permanece trabalhando no chão para que outro possa subir? A meritocracia não é apenas a ideia de que esforço pode produzir resultados; isso seria uma banalidade. Ela é a ideologia que transforma resultados produzidos por condições sociais profundamente desiguais em prova moral de superioridade individual.

No Brasil, essa ideologia tem uma função especialmente brutal. Ela permite olhar para a desigualdade de renda, de moradia, de escola, de tempo livre e de acesso à saúde sem enxergar uma estrutura de classes. O filho da empregada doméstica que enfrenta horas de transporte, ensino precário e trabalho cedo é comparado ao filho de uma família abastada que dispõe de quarto silencioso, cursinho, rede de contatos e proteção material. Se o segundo chega à universidade mais prestigiada ou a uma posição de comando, seu ponto de partida é apagado e seu privilégio recebe o nome de mérito. Quando o primeiro não chega, sua exaustão é rebatizada como falta de disciplina, ambição ou planejamento.

Exemplos de meritocracia servem para ocultar a largada desigual

Um dos exemplos de meritocracia mais repetidos é o da aprovação em concursos e vestibulares. Há, certamente, estudo e dedicação de quem obtém uma vaga. Mas reconhecer esse esforço não exige mentir sobre as condições em que ele ocorreu. Estudar quatro ou seis horas por dia tem um significado inteiramente diferente para quem pode deixar de trabalhar, morar perto de uma biblioteca e contar com apoio familiar, e para quem divide um cômodo com parentes, cuida de filhos, enfrenta ônibus lotado e precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A prova pode ser a mesma; o tempo, o descanso, o espaço e a segurança que tornam possível se preparar para ela não são.

A igualdade formal do exame se torna, então, uma máquina de legitimação da desigualdade real. Todos recebem, em tese, as mesmas questões. Mas não receberam a mesma infância, a mesma escola, a mesma alimentação, os mesmos livros, a mesma chance de errar sem que o erro custasse o aluguel. Marx mostrou que o trabalhador aparece no mercado como sujeito livre para vender sua força de trabalho, embora essa liberdade seja condicionada pela necessidade: ele precisa vender porque não controla os meios de produzir sua existência. A meritocracia atualiza essa aparência de liberdade. Todos parecem livres para competir, mas apenas alguns entram na competição sem que a derrota ameace a própria sobrevivência.

O discurso meritocrático também é central na empresa. O trabalhador de call center recebe metas que se renovam antes que consiga respirar. Seu desempenho é medido por tempo médio de atendimento, número de vendas, avaliações do cliente e adesão a roteiros que limitam sua fala. Se alcança a meta, pode receber um bônus modesto; se não alcança, é advertido, pressionado ou dispensado. A empresa apresenta esse regime como oportunidade: basta esforçar-se mais. Só que a meta não mede simplesmente esforço. Ela mede a capacidade de suportar ritmos desumanos, transformar sofrimento em cordialidade e disputar com colegas uma recompensa deliberadamente escassa.

Nesse caso, a meritocracia opera como disciplina. Em vez de os trabalhadores perceberem que enfrentam a mesma administração, são levados a se enxergar como adversários. A colega que bateu a meta deixa de ser alguém submetida à mesma exploração e passa a ser a evidência de que os demais falharam. A organização privada converte um problema coletivo — salários baixos, metas abusivas, jornadas extensas — em culpa psicológica individual. Não é por acaso que a linguagem empresarial fala de “alta performance”, “protagonismo” e “atitude de dono” justamente onde a propriedade continua nas mãos de poucos. Exige-se do empregado o sacrifício de um dono, sem lhe conceder propriedade, poder de decisão ou participação efetiva na riqueza que produz.

O entregador premiado pela própria precarização

O caso do entregador de aplicativo é um dos exemplos de meritocracia mais transparentes e, ao mesmo tempo, mais naturalizados. A plataforma chama o trabalhador de parceiro, oferece desafios, bônus por quantidade de entregas e mensagens que associam rendimento a empenho pessoal. A tela produz uma espécie de placar permanente: mais corridas, mais pontos, melhor posicionamento, eventual acesso a incentivos. O entregador que pedala ou pilota por mais horas pode parecer, sob essa ótica, um vencedor de sua própria iniciativa. Mas a plataforma controla preços, distribuição de chamadas, critérios de bloqueio e regras que podem mudar sem negociação. O trabalhador assume a bicicleta, a moto, o combustível, o acidente, a manutenção, a chuva e o risco da rua; a empresa preserva o comando sobre o fluxo de trabalho.

A promessa meritocrática ganha aqui uma forma tecnológica. O algoritmo não precisa gritar como um gerente: ele ordena silenciosamente por notificações, mapas, pontuações e recompensas variáveis. Heidegger observou que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de ferramentas; ela organiza o modo como o mundo se torna disponível, calculável e explorável. Nas plataformas, o trabalhador é enquadrado como dado de desempenho, trajeto otimizável e disponibilidade a ser extraída. Seu mérito é medido pela disposição de ampliar a própria jornada. Aquele que recusa uma corrida ruim ou desliga o aplicativo para descansar corre o risco de perder renda e prioridade. A liberdade anunciada pela propaganda se parece muito com a liberdade de escolher em qual turno se estará submetido à necessidade.

O prêmio ao “melhor parceiro” é particularmente revelador. Ele individualiza uma remuneração que depende de milhares de decisões empresariais e condições urbanas: demanda em determinado bairro, trânsito, clima, segurança, valor da tarifa e disponibilidade de trabalhadores. Se alguém consegue faturar mais em um dia, a plataforma apresenta o resultado como prova de talento e persistência. Não mostra com a mesma ênfase que essa renda pode exigir jornadas intermináveis, exposição a acidentes e uma vida organizada pela urgência. A meritocracia fornece o enredo heroico para uma relação de trabalho que transfere custos ao trabalhador e concentra poder na empresa.

Quando o privilégio aparece como caráter

Outro mecanismo recorrente é a glorificação do empreendedor que “venceu sozinho”. O pequeno comerciante, a manicure que abriu salão, o vendedor que se tornou franqueado ou o influenciador que acumulou seguidores podem ter histórias de trabalho real e esforço intenso. O problema começa quando casos particulares são usados para explicar a sociedade inteira. Para cada trajetória transformada em propaganda, permanecem invisíveis as muitas pessoas que trabalharam tanto ou mais e foram derrotadas por juros, doença, desemprego, aluguel, violência, ausência de crédito ou simples falta de clientela. O êxito é exibido; o fracasso estrutural é tratado como defeito de caráter.

Essa seleção de vencedores pertence ao que Debord chamou de sociedade do espetáculo: uma forma social em que as relações entre pessoas são mediadas por imagens. A imagem do empreendedor incansável circula como mercadoria ideológica. Ela não descreve a média das vidas trabalhadoras; ela fabrica uma expectativa de que todos devem se vender como projeto individual. Nas redes, o trabalhador é convocado a exibir produtividade, resiliência e felicidade mesmo quando sua vida material se desorganiza. O espetáculo não elimina a exploração; ele a torna admirável, desde que seja narrada como superação.

É por isso que a meritocracia combina tão bem com o neoliberalismo e, no Brasil, com formas autoritárias de política. Ao dizer que cada um ocupa o lugar que merece, ela enfraquece a solidariedade e torna a desigualdade aceitável. O pobre deixa de ser sujeito de direitos e vira suspeito de preguiça; a política pública passa a ser tratada como privilégio indevido; cotas e proteção trabalhista são atacadas como favores que violariam uma competição imaginariamente pura. O bolsonarismo soube explorar essa disposição, misturando culto à força individual, desprezo pelos vulneráveis e hostilidade contra qualquer limite social imposto ao poder econômico. Não se trata de uma deformação acidental da meritocracia, mas de uma de suas consequências políticas possíveis.

Contra o mérito isolado, a história social do trabalho

Não há crítica séria da meritocracia que exija negar talento, disciplina ou estudo. O que precisa ser recusado é a transformação dessas qualidades em explicação total da posição social de alguém. Toda realização individual carrega trabalho coletivo: professores, famílias, trabalhadores que mantêm a cidade funcionando, políticas públicas, infraestrutura, conhecimentos acumulados por gerações. Até a empresa mais celebrada depende de estradas, energia, comunicação, formação pública de trabalhadores e um Estado que protege contratos e propriedade. O mito do vencedor autossuficiente só se sustenta apagando essa rede inteira.

Os exemplos de meritocracia importam, então, não como lições morais sobre pessoas virtuosas, mas como pistas para entender uma ideologia. Quando uma empresa premia quem suporta mais pressão, quando uma plataforma chama exploração de autonomia ou quando uma elite apresenta herança social como competência pessoal, não estamos diante de justiça. Estamos diante de uma narrativa que pede aos explorados que aceitem como natural a ordem que os explora. Recuperar a história material por trás de cada “sucesso” é romper com essa narrativa e recolocar a questão onde ela sempre esteve: na disputa coletiva por tempo, riqueza, direitos e poder sobre a vida social.