A busca por fetichismo sociologia costuma conduzir a definições escolares sobre objetos aos quais se atribui poder ou, no vocabulário marxista, sobre mercadorias que escondem as relações sociais de sua produção. Mas o problema vivo no Brasil não cabe numa ficha de estudo. Ele está no entregador que espera uma corrida melhor sob o sol, olha para uma tela que lhe oferece R$ 6,50 por vários quilômetros e conclui que precisa trabalhar mais, ser mais rápido ou aceitar qualquer condição. A plataforma aparece como uma ferramenta técnica; a exploração, como decisão individual. É nessa inversão que o fetichismo opera com toda a sua força política.

Não se trata de dizer que o trabalhador de aplicativo é enganado por ingenuidade, nem de tratar a tecnologia como uma entidade maligna autônoma. A questão é material: empresas organizam o trabalho sem assumir plenamente os custos, transferem bicicleta, moto, combustível, manutenção, acidentes e tempo de espera para quem trabalha, enquanto preservam para si o comando sobre preços, acesso às corridas e avaliação. O aplicativo encobre essa relação ao apresentar o processo como encontro espontâneo entre um consumidor, um prestador independente e uma interface eficiente. A sociologia que se limita a descrever essa mediação como inovação perde o essencial: ela é uma forma contemporânea de disciplinar a força de trabalho.

Fetichismo sociologia e a falsa autonomia da plataforma

Em Marx, o fetichismo da mercadoria não é uma ilusão banal que desaparece quando alguém recebe uma aula correta. É uma aparência objetiva da sociedade capitalista. Na circulação, pessoas parecem relacionar-se com coisas e preços; o vínculo social entre trabalhadores, proprietários e consumidores fica oculto. A mercadoria parece possuir valor por natureza, como se o preço de uma entrega viesse da distância no mapa, da demanda do momento ou de uma matemática imparcial. Só que cada taxa definida pelo aplicativo é também uma decisão sobre quem suportará o custo do serviço e quanto da riqueza produzida será apropriada pela empresa.

A palavra parceiro, tão comum no vocabulário das plataformas, é uma peça decisiva desse fetichismo. Ela não descreve uma associação entre iguais, mas fabrica uma imagem jurídica e moral para uma relação assimétrica. O entregador não controla o valor pago, não conhece integralmente os critérios de distribuição das chamadas, pode ser bloqueado por decisões opacas e depende de avaliações que frequentemente reproduzem o preconceito e a arbitrariedade do consumidor. Ainda assim, recebe o título de empreendedor. O nome empresarial substitui a proteção trabalhista e converte o desamparo em atributo de caráter: quem não prospera teria falhado em gerir a si próprio.

Essa operação ideológica tem efeitos muito concretos. Quando o ganho cai, a empresa pode atribuir o resultado a uma oscilação abstrata da demanda. Quando um trabalhador se acidenta, o risco é tratado como problema individual de quem escolheu pedalar ou pilotar. Quando há bloqueio, a ausência de explicação é apresentada como procedimento automatizado, e não como exercício de poder patronal. A técnica não elimina a decisão humana; ela a enterra sob códigos, termos de uso e notificações. Heidegger percebeu que a técnica moderna não é apenas um conjunto de instrumentos: ela organiza o modo como o mundo se revela, transformando seres e recursos em disponibilidade. Nas plataformas, o trabalhador é reduzido a um ponto substituível na logística urbana.

O algoritmo como máscara da relação de classe

Falar em algoritmo costuma produzir uma reverência semelhante à que antigas sociedades tinham diante de forças naturais. “Foi o sistema” se tornou uma frase capaz de encerrar uma discussão sobre renda, punição ou desemprego. Mas o sistema tem donos, metas de expansão, investidores, equipes de gestão e estratégias empresariais. Seu funcionamento pode ser tecnicamente complexo, porém sua função social é reconhecível: extrair trabalho, reduzir custos e fragmentar a capacidade de resistência coletiva. O algoritmo é fetichizado quando sua opacidade é tomada como prova de neutralidade.

Essa neutralidade é especialmente útil num país marcado por desemprego, informalidade e desigualdade racial. O jovem negro que entrega comida em bairros de alta renda não encontra no aplicativo uma liberdade abstrata; encontra uma das poucas portas de renda imediatamente disponíveis, sem seleção formal e sem garantia alguma. A plataforma vende a narrativa da escolha, enquanto a necessidade econômica dá a essa escolha o peso de uma imposição. A liberdade de conectar-se ao aplicativo é inseparável da liberdade patronal de pagar pouco, alterar regras unilateralmente e desligar trabalhadores sem negociação.

O fetichismo não apaga a exploração: ele lhe dá a aparência de serviço, inovação e oportunidade individual.

Por isso, a meritocracia é o complemento moral do fetichismo. Se a tela oferece a todos uma suposta chance de trabalhar, as diferenças de ganho parecem decorrer de empenho, inteligência ou disciplina. Desaparecem da cena o bairro onde se mora, o custo do veículo, a exposição à violência, o tempo perdido em deslocamentos, a saúde, a idade e a própria distribuição desigual das corridas. A promessa de que cada um recebe conforme sua performance despolitiza a desigualdade. Ela impede que uma remuneração insuficiente seja reconhecida como problema de classe e a traduz como defeito íntimo.

Da mercadoria ao espetáculo da independência

Debord ajuda a compreender por que essa ideologia não circula apenas nos contratos e nas propagandas corporativas. A sociedade do espetáculo não é o excesso de imagens: é uma relação social mediada por imagens. O entregador aparece na publicidade como sujeito sorridente, conectado, dono do próprio horário, circulando por uma cidade sem conflitos. Essa figura é mais do que marketing. Ela oferece ao público consumidor uma justificativa confortável para a conveniência da entrega rápida e oferece ao trabalhador uma imagem à qual ele é convidado a se ajustar, mesmo quando sua experiência cotidiana é exaustão, medo e endividamento.

Também o consumidor participa dessa cadeia sem precisar enxergar sua totalidade. Na tela, há um restaurante, um cardápio, um tempo estimado e uma taxa. O trabalhador que percorre a rua, enfrenta chuva e espera no portão aparece como ícone em movimento. A mediação digital torna a pessoa funcionalmente visível e socialmente abstrata. Não é que indivíduos sejam incapazes de solidariedade; é que a forma da plataforma organiza o consumo para que o serviço pareça brotar da própria interface. A gorjeta, quando existe, pode aliviar uma situação específica, mas não altera a estrutura que converte salário em favor voluntário.

Há aí uma dimensão sociológica que não pode ser reduzida ao comportamento de indivíduos. A forma social capitalista produz sujeitos que precisam competir, calcular seu próprio desempenho e vender continuamente a própria disponibilidade. O professor submetido a metas, o atendente de call center monitorado por segundos, a trabalhadora de plataforma de limpeza avaliada por estrelas e o entregador guiado por notificações vivem arranjos distintos de uma mesma racionalidade. Todos são chamados a interpretar o controle como indicador de eficiência e a exploração como oportunidade de aperfeiçoamento.

Desfetichizar é recolocar o conflito no centro

Desfetichizar não significa abandonar celulares, demonizar entregas ou imaginar um retorno a um passado pré-técnico. Significa recusar a ideia de que a tecnologia determina por si mesma a forma do trabalho. Um aplicativo poderia organizar deslocamentos sem produzir jornadas ilimitadas, remuneração incerta e bloqueios sem defesa. Para isso, porém, seria necessário tocar na propriedade, no poder de decisão e nas regras jurídicas que hoje protegem a acumulação. Como destaca Alysson Mascaro ao tratar do Estado e do direito, as formas jurídicas não pairam acima das relações sociais: elas participam de sua reprodução. A classificação do trabalhador como autônomo tem efeitos econômicos e políticos precisos.

Quando entregadores fazem paralisações, reivindicam transparência nos bloqueios, taxas mínimas e proteção diante de acidentes, eles rompem a imagem de empreendedores isolados. Tornam visível aquilo que o fetichismo tenta esconder: há uma classe trabalhadora, ainda que dispersa por ruas, celulares e contratos precários; há empresas que comandam o processo; e há conflito entre a necessidade de lucro e a necessidade de viver. A sociologia crítica não deve admirar a plataforma como novidade inevitável. Deve perguntar quem paga por sua eficiência, quem decide suas regras e que formas de organização coletiva podem arrancar o trabalho da condição de mercadoria descartável.