A busca por hegemonica costuma conduzir a definições escolares: aquilo que predomina, exerce influência ou ocupa uma posição superior. A palavra, porém, fica politicamente inofensiva quando separada das relações que a produzem. Hegemonia não é simplesmente ter mais audiência, mais dinheiro ou mais votos. É fazer com que uma ordem social particular — a ordem de quem possui empresas, terras, bancos, plataformas e meios de comunicação — se apresente como a ordem natural do mundo. No capitalismo brasileiro, ela opera quando milhões de trabalhadores aceitam como liberdade a obrigação de disputar corridas, notas e metas para sobreviver.

O entregador de aplicativo oferece um caso concreto e brutal. Ele não é formalmente empregado, dizem as empresas; é um “parceiro”. Não tem salário, mas “ganhos”. Não recebe ordens, mas é guiado por um algoritmo. Não sofre punição, mas pode ser bloqueado sem explicação. Não enfrenta uma jornada imposta, mas precisa permanecer conectado por horas para fazer render uma remuneração instável. Toda essa troca de palavras é decisiva. Ela não descreve apenas uma nova modalidade de trabalho: constrói uma consciência adequada à exploração. Onde há subordinação econômica, a plataforma vende autonomia; onde há transferência de custos e riscos, vende empreendedorismo.

Hegemonica para quem controla os termos do trabalho

Uma classe se torna hegemônica quando sua visão de mundo atravessa instituições, linguagem, hábitos e expectativas, deixando de parecer uma visão de classe. O empresário de aplicativo fala em inovação; o governo fala em modernização; parte da imprensa fala em flexibilidade; o trabalhador, acuado, pode acabar falando em oportunidade. A exploração não desaparece porque ganha um vocabulário mais leve. Ao contrário: ela se torna mais difícil de reconhecer e combater quando é recoberta por palavras que transformam necessidade em desejo.

Marx mostrou que a relação salarial já contém uma aparência enganosa. No mercado, trabalhador e patrão parecem indivíduos livres que celebram um contrato. Mas um possui os meios de produzir e o outro possui apenas sua força de trabalho, que precisa vender para viver. A plataforma radicaliza essa aparência. Ela dispensa até mesmo a figura visível do chefe e converte a empresa numa tela que distribui comandos. O capital aparece como tecnologia neutra; a decisão empresarial aparece como cálculo automático; a vigilância aparece como otimização do serviço.

O algoritmo não aboliu o mando. Ele o tornou opaco. Quando uma corrida mal paga é oferecida, quando o tempo de entrega aperta, quando uma recusa compromete a distribuição futura de pedidos, há uma disciplina em funcionamento. Mas ela vem sem gerente identificável e sem espaço ordinário para negociação. O trabalhador recebe a cobrança no celular e responde isoladamente, dirigindo ou pedalando entre carros, chuva e pressa. A fragmentação material ajuda a produzir a fragmentação política: cada um é levado a imaginar que seu problema é uma estratégia pessoal mal executada, e não uma relação coletiva de exploração.

A liberdade de escolher entre aceitar ou passar fome

A ideologia neoliberal chama isso de escolha. O entregador poderia desligar o aplicativo; o motorista poderia não rodar; o professor poderia acumular menos turmas; a atendente de call center poderia buscar outra ocupação. A frase só funciona porque apaga as condições concretas. Quem precisa pagar aluguel, comprar comida, sustentar filhos ou quitar dívidas não escolhe em terreno livre. Escolhe dentro de uma necessidade organizada por salários insuficientes, desemprego, desmonte de proteções públicas e concentração de riqueza.

A meritocracia entra como complemento moral dessa operação. Se alguém prospera, a narrativa atribui o resultado a esforço, disciplina e inteligência financeira. Se alguém permanece exausto e endividado, atribui sua situação à falta dessas mesmas qualidades. O que some de cena é a estrutura: o preço que a plataforma define unilateralmente, a parcela que retém de cada operação, a desigualdade entre quem tem capital e quem precisa trabalhar todos os dias, a ausência de direitos que protege o lucro empresarial. A meritocracia não mede mérito; ela individualiza os efeitos de uma desigualdade produzida socialmente.

Esse mecanismo é especialmente eficiente em um país marcado pela herança escravista, pelo trabalho informal e pela desigualdade extrema. A promessa de ascensão individual encontra terreno fértil onde a sobrevivência sempre foi apresentada como responsabilidade privada. O trabalhador brasileiro aprende cedo que deve “se virar”. O capital se aproveita dessa aprendizagem forçada e a transforma em modelo de negócio. A precariedade deixa de ser escândalo político para virar traço de personalidade admirável: resiliência, garra, corre, disposição para fazer renda extra.

O espetáculo da autonomia e a realidade da dependência

Debord descreveu uma sociedade em que a relação direta entre as pessoas é mediada por imagens. Nas plataformas, a imagem da autonomia tem uma força material extraordinária. Propagandas mostram trabalhadores sorridentes, donos do próprio horário, circulando pela cidade como se cada entrega fosse uma afirmação de independência. Nas redes sociais, empresários celebram histórias isoladas de sucesso como prova de que o sistema funciona. A experiência cotidiana de cansaço, acidentes, bloqueios e remuneração incerta é deslocada para fora do enquadramento.

Não se trata de dizer que os trabalhadores são enganados por uma mentira simples ou que desconhecem inteiramente a dureza de sua situação. Muitos sabem, com precisão, quanto trabalham e quanto recebem. A hegemonia é mais complexa: ela oferece formas de interpretar essa experiência que impedem sua transformação em conflito coletivo. O sujeito pode saber que uma corrida paga pouco e ainda acreditar que precisa aceitá-la para melhorar sua taxa de aceitação. Pode saber que a empresa lucra enquanto transfere custos e ainda concluir que seu problema é não ter trabalhado o bastante. A ideologia não elimina a realidade; ela organiza um modo impotente de vivê-la.

É por isso que o discurso da “inovação” merece desconfiança. Não há nada inevitavelmente progressista numa tecnologia que intensifica controle, transfere risco e enfraquece vínculos trabalhistas. A técnica, como lembrava Heidegger, não é apenas um conjunto de ferramentas neutras disponíveis para qualquer finalidade. Ela organiza um modo de revelar e tratar o mundo. Sob o comando do capital, trabalhadores podem ser reduzidos a unidades calculáveis de tempo, deslocamento, avaliação e disponibilidade. A cidade inteira se torna infraestrutura de extração: ruas, restaurantes, motocicletas, celulares e corpos conectados a um sistema que mede tudo, exceto a vida que consome.

Contra a palavra que naturaliza a dominação

Chamar essa ordem de hegemônica não deve significar admirá-la como se sua permanência fosse prova de superioridade. Significa identificar o trabalho cultural e político que a sustenta. A hegemonia capitalista depende de tribunais que frequentemente privilegiam a forma contratual sobre a subordinação concreta, de governos que tratam direitos como entraves, de escolas que ensinam competição como virtude, de veículos de comunicação que confundem proteção social com privilégio e de plataformas que moldam comportamentos a partir de métricas invisíveis.

Também depende de derrotas e dispersões no campo do trabalho. Quando cada entregador é um microempreendedor, cada professor um prestador de serviço e cada jovem um projeto individual de marca pessoal, a organização coletiva parece antiquada. Essa é uma das vitórias mais importantes do capital: não apenas explorar, mas tornar a ideia de resistência comum aparentemente impossível ou indesejável. A greve, o sindicato, a regulação pública e a solidariedade passam a ser descritos como obstáculos à liberdade, quando são precisamente instrumentos para retirar o trabalhador do isolamento imposto pelo mercado.

A crítica à hegemonia não se resolve com uma definição de dicionário. Ela exige perguntar quem fala, quem nomeia, quem lucra e quem suporta o custo daquilo que é apresentado como normal. No Brasil das plataformas, a resposta está nas mãos que seguram o guidão, carregam a mochila e aguardam a próxima notificação. Enquanto o trabalhador for chamado de parceiro para não ser reconhecido como empregado, a linguagem continuará funcionando como parte da máquina de exploração. Desmontar essa linguagem é uma tarefa política: devolver à precarização o seu nome e à liberdade a condição sem a qual ela não passa de propaganda — direitos, tempo, renda e poder coletivo.