O conceito de panóptico não designa apenas uma prisão circular, nem serve como sinônimo preguiçoso para qualquer câmera instalada numa rua. Ele nomeia uma forma de poder cuja eficácia está em tornar a vigilância possível, constante e incerta: o indivíduo sabe que pode ser observado, mas não sabe quando está sob observação. Por isso, passa a se conduzir como se o olhar estivesse sempre sobre ele. No capitalismo brasileiro das plataformas, essa arquitetura deixou de depender de muros, torres e carcereiros visíveis. Ela opera em aplicativos de entrega, centrais de telemarketing, escolas submetidas a metas, escritórios monitorados por softwares e redes sociais que registram cada gesto convertido em dado.

A força do panóptico está precisamente em economizar coerção direta. Não é necessário que um gerente grite o tempo todo se a tela mede pausas, cronometra atendimentos, calcula rotas e compara trabalhadores numa tabela de desempenho. Não é necessário que o entregador seja formalmente empregado se o aplicativo pode puni-lo com menos chamadas, rebaixamento de nota ou bloqueio sem explicação. A vigilância não aparece como violência política; apresenta-se como ferramenta técnica, critério de eficiência, segurança do usuário ou consequência neutra de um algoritmo. É nessa neutralidade encenada que se esconde uma relação de classe.

O conceito de panóptico não é uma metáfora para qualquer vigilância

O projeto original é associado a Jeremy Bentham, que imaginou uma prisão em que uma torre central pudesse observar os detentos sem que estes soubessem se estavam sendo vistos. Michel Foucault transformou esse desenho em instrumento de análise histórica: o panoptismo não se limita ao cárcere, pois expressa uma técnica disciplinar capaz de organizar escolas, quartéis, hospitais e fábricas. Seu objetivo não é apenas castigar uma infração já cometida. É produzir corpos úteis, previsíveis, classificáveis e corrigíveis. A disciplina mede, compara, hierarquiza e normaliza.

Essa precisão importa porque o uso indiscriminado do termo o esvazia. Nem toda observação é panóptica, e nem toda tecnologia de monitoramento reproduz exatamente a prisão de Bentham. O núcleo do conceito é a internalização da possibilidade de ser vigiado, combinada à distribuição desigual do poder de ver e de decidir. Quem ocupa a torre — ou controla os dados — não é submetido ao mesmo escrutínio de quem está exposto. No ambiente corporativo, o trabalhador conhece suas métricas, mas raramente conhece os critérios completos que definem suas metas, sua avaliação ou sua dispensa. A empresa vê o desempenho individual; o empregado não vê a lógica proprietária que transforma sua atividade em valor.

Por isso, uma crítica marxista não pode parar na geometria do olhar. O panóptico ganha determinação concreta quando perguntamos: vigilância para quê, controlada por quem e inserida em qual relação social? Sob o capitalismo, o monitoramento serve à extração de mais valor do trabalho e à preservação do comando privado sobre a produção. O relógio da fábrica já cumpria essa função; o aplicativo apenas tornou o relógio portátil, íntimo e aparentemente voluntário. A novidade não é que o capital queira medir o tempo. É que hoje ele pode capturar deslocamentos, cliques, pausas, avaliações e reações, convertendo a vida ordinária em matéria-prima de gestão.

Da fábrica disciplinar ao algoritmo que dá notas

O entregador de aplicativo é uma figura decisiva para compreender essa mutação. Ele não recebe ordens na forma clássica de um supervisor ao lado da moto. Recebe estímulos, alertas, bônus condicionados, mapas, taxas variáveis e avaliações. Pode recusar uma corrida, mas essa liberdade formal convive com mecanismos que tornam a recusa economicamente custosa. Se não aceita pedidos, se demora, se sua nota cai ou se atua fora da área mais rentável, a plataforma pode reduzir seu acesso ao trabalho. O controle é real, embora a empresa insista em chamá-lo de parceria entre empreendedores.

A retórica do empreendedorismo funciona como cobertura ideológica dessa subordinação. Ao trabalhador são atribuídos os riscos do combustível, da manutenção, do acidente, da chuva, da doença e da ausência de renda; à plataforma ficam os dados, a marca, a comissão e a capacidade de definir unilateralmente as regras do jogo. A avaliação do cliente, apresentada como participação democrática, integra esse mecanismo. Um consumidor irritado pode afetar a renda de alguém que não conhece, enquanto a empresa transforma a satisfação instantânea em instrumento de disciplina laboral. O panóptico digital não vigia apenas de cima para baixo: ele mobiliza usuários para fiscalizar trabalhadores em nome da conveniência.

No call center, o princípio é ainda mais explícito. Tempo de ligação, pausas, scripts, tom de voz e produtividade podem ser acompanhados em detalhe. A pessoa que atende sabe que sua conversa pode ser gravada e auditada; então modula a voz, administra o cansaço e cumpre fórmulas mesmo diante de agressões. A promessa empresarial é a de padronização da qualidade. Seu efeito material é a intensificação do trabalho e a redução da autonomia. O corpo permanece sentado diante da tela, mas a subjetividade inteira é convocada a performar cordialidade sob pressão.

Quando a vigilância vira espetáculo e autoexploração

Guy Debord mostrou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Nas plataformas, essa mediação acrescenta uma camada ao panoptismo: as pessoas não só são vistas; elas aprendem a se exibir. A busca por curtidas, reputação, alcance e aprovação faz com que indivíduos ofereçam voluntariamente fragmentos de sua intimidade a empresas que os organizam como dados e os vendem como capacidade de previsão. A visibilidade parece reconhecimento, mas frequentemente é trabalho não pago de alimentação do sistema publicitário e de treinamento de modelos de classificação.

Não se trata de culpar quem usa redes sociais ou precisa aceitar uma corrida para pagar as contas. A individualização da culpa é uma das astúcias do neoliberalismo. O problema está numa estrutura em que participar se tornou condição prática de sobrevivência, sociabilidade e acesso a serviços. A pessoa pode desligar o aplicativo por algumas horas; dificilmente pode desligar as condições materiais que a empurram para ele. A liberdade de clicar em “aceito” não equivale à liberdade de recusar a precariedade.

Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível para cálculo e exploração. Sem aderir a qualquer nostalgia de um passado sem máquinas, é possível reconhecer o alcance político dessa intuição. O algoritmo não é um sujeito maligno autônomo, tampouco uma ferramenta inocente. Ele materializa decisões empresariais, prioridades de lucro e critérios de classificação. Quando trabalhadores são reduzidos a indicadores de performance, quando bairros são lidos como zonas de risco e quando consumidores são antecipados por perfis comportamentais, a técnica enquadra pessoas como recursos administráveis.

Quem vigia a torre proprietária

A diferença entre a vigilância estatal clássica e a vigilância de plataformas não deve ocultar suas conexões. Empresas acumulam informações sobre circulação, hábitos, consumo, comunicação e trabalho em escala que interessa ao mercado e pode interessar ao Estado. No Brasil, a expansão de dispositivos de segurança, cadastros, reconhecimento automatizado e bases de dados ocorre num país marcado por desigualdade racial e territorial. A promessa de eficiência não neutraliza o fato de que populações pobres e periféricas tendem a sofrer mais intensamente a suspeita, a abordagem e a punição.

O bolsonarismo soube explorar o imaginário punitivo ao vender violência policial, armamento e autoritarismo como respostas simples à insegurança produzida por uma sociedade desigual. Mas a vigilância não se torna aceitável apenas porque vem acompanhada de um discurso explicitamente fascista. Também se normaliza pela linguagem administrativa, pelo aplicativo “inteligente”, pela meta de produtividade e pela conveniência do serviço rápido. A crítica precisa recusar tanto a brutalidade declarada quanto a dominação que se apresenta como inovação inevitável.

O conceito de panóptico permanece vivo porque revela que o poder mais eficiente não precisa se anunciar a cada instante. Ele induz condutas, transforma medo de punição em autocontrole e converte a opacidade de quem manda em transparência compulsória de quem trabalha. Contra essa arquitetura, não basta reivindicar privacidade individual como se o dado fosse somente um bem pessoal. É preciso disputar o controle coletivo sobre as tecnologias, defender direitos trabalhistas e impedir que a gestão algorítmica substitua a responsabilidade patronal por códigos secretos. A torre contemporânea não é inevitável: ela tem proprietários, contratos, interesses e classe social.