Quando entregadores de aplicativo pararam em diversas cidades brasileiras, no chamado Breque dos Apps de 2025, a cena contrariou a propaganda mais persistente das plataformas. Não estavam nas ruas empresários defendendo a liberdade de seus negócios particulares. Estavam trabalhadores reivindicando remuneração menos aviltante, critérios menos obscuros e condições mínimas para realizar uma atividade da qual dependem para viver. A greve revelou algo que a interface do celular se empenha em esconder: por trás do discurso da autonomia há uma relação de trabalho organizada por empresas que definem preços, distribuem oportunidades, aplicam punições e podem desligar alguém sem explicação satisfatória.

O caso importa porque o entregador se tornou uma figura exemplar do empreendedorismo de si no Brasil. Ele aparece diante do consumidor como alguém que escolheu “fazer uma renda”, administra seus horários e se movimenta pela cidade com sua própria moto ou bicicleta. Mas é ele quem compra ou aluga o veículo, abastece, arca com manutenção, celular, plano de dados, chuva, acidente, roubo e adoecimento. A empresa, por sua vez, apresenta-se como mera mediadora tecnológica, embora organize todo o circuito que transforma a urgência de quem pede comida em valor para acionistas e investidores.

A palavra empreendedor não é apenas uma descrição simpática para quem trabalha por conta própria. Ela desloca a percepção do conflito. Se o entregador é um empreendedor, sua renda baixa parece decorrer de decisões privadas: aceitou corridas demais baratas, não conheceu bem a região, não trabalhou nos melhores horários, não adquiriu uma moto mais eficiente, não cultivou uma avaliação melhor. A precariedade deixa de ser resultado de uma estrutura de poder para se tornar falha de planejamento individual. É esta operação ideológica que torna a exploração suportável e, em muitos casos, até admirável.

A liberdade que só vale enquanto o algoritmo permite

O trabalhador de aplicativo pode, em tese, ligar e desligar o aplicativo quando quiser. Essa liberdade formal, porém, é estreita quando o aluguel vence, o combustível subiu e as contas não esperam. Para obter renda suficiente, ele precisa permanecer disponível nos horários de maior demanda, aceitar trajetos que às vezes mal compensam o custo e aprender, por tentativa e erro, a obedecer a sinais que a plataforma não explica integralmente. Promoções, metas, áreas de maior movimentação, prioridade em chamadas e bloqueios compõem uma disciplina sem chefe visível. O gerente foi substituído pela tela; a vigilância, por notificações; a ordem direta, por incentivos calculados.

Heidegger alertava que a técnica não deve ser entendida apenas como um conjunto neutro de ferramentas. Ela organiza um modo de revelar e de tratar o mundo. No trabalho de plataforma, a cidade surge como mapa de demandas a serem capturadas, o tempo do entregador vira disponibilidade mensurável e seu corpo é reduzido a capacidade logística. A bicicleta, a moto e o telefone não são sinais de independência: são meios de produção privatizados no bolso de quem trabalha. A plataforma controla a coordenação e os dados; o trabalhador carrega o custo material dessa operação.

Marx descreveu a mais-valia como a apropriação privada do valor produzido pelo trabalho. A novidade das plataformas não elimina essa lógica; ela a torna mais opaca. Parte do salário já não aparece como salário, porque chega em repasses variáveis por entrega. Parte das condições de produção já não parece custo empresarial, porque é paga diretamente pelo trabalhador. E uma parcela decisiva do comando é escondida na programação do aplicativo. Chamar isso de inovação não muda a relação fundamental: há quem detenha os meios de organizar o trabalho e há quem, sem alternativa equivalente, venda sua energia, seu tempo e sua disponibilidade para sobreviver.

Da culpa privada à gestão capitalista do risco

O empreendedorismo de si não opera apenas no asfalto. Ele atravessa o call center em que a atendente é cronometrada, avaliada por índices e pressionada a “superar metas”; chega à professora que compra material, responde mensagens de responsáveis fora do expediente e transforma a exaustão em suposta vocação; aparece no trabalhador de escritório que precisa manter cursos, perfil profissional e rede de contatos como se sua empregabilidade fosse um patrimônio financeiro a valorizar sem descanso. Em todos esses casos, o capital desloca riscos para o indivíduo e depois chama essa transferência de protagonismo.

A consequência psíquica é brutal. O desemprego, o rebaixamento de renda ou a impossibilidade de descansar são vividos como insuficiência moral. Quem não prospera é levado a revisar sua disciplina, sua mentalidade e sua capacidade de se vender, em vez de perguntar por que uma economia inteira depende de empregos instáveis, jornadas extensas e salários comprimidos. A meritocracia oferece uma explicação pronta para uma desigualdade produzida socialmente: alguns teriam transformado a si mesmos em marcas valiosas; outros teriam falhado em investir no próprio capital humano. Assim, a classe deixa de aparecer como experiência comum e a competição entre trabalhadores ocupa seu lugar.

Debord mostrou que o espetáculo não é somente o acúmulo de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Nas redes, o empreendedor de si ganha sua vitrine ideal: vídeos de rotina produtiva, promessas de renda rápida, discursos de disciplina e histórias isoladas de ascensão transformam uma estrutura desigual em catálogo de possibilidades individuais. O entregador sorridente que diz amar “ser o próprio chefe” vale mais, para a propaganda, do que a conversa sobre tarifa, acidente, bloqueio ou endividamento. O espetáculo não precisa negar frontalmente o sofrimento; basta convertê-lo em combustível para narrativas de superação.

O bolsonarismo soube explorar esse terreno ao celebrar o trabalhador abandonado pelo Estado como herói autossuficiente, ao mesmo tempo que hostilizava organização coletiva, sindicatos e direitos trabalhistas. Sua retórica da liberdade confundia deliberadamente proteção social com privilégio e submissão ao mercado com independência. Não se trata de um desvio cultural sem base material. Quando a sobrevivência é apresentada como empreendimento privado, qualquer regra que limite o poder patronal pode ser vendida como ataque à iniciativa; qualquer greve, como egoísmo; qualquer direito, como obstáculo à prosperidade. É uma pedagogia política da solidão.

O Breque devolve nome coletivo ao que parecia fracasso pessoal

Por isso a paralisação dos entregadores teve um sentido maior do que a disputa imediata por valores e regras. Ao interromper o fluxo aparentemente automático das entregas, ela tornou visível que a conveniência urbana depende de trabalho humano, perigoso e mal remunerado. Ao formularem reivindicações comuns, os entregadores recusaram a linguagem que os separa em microempresas concorrentes. Quem se imaginava isolado diante da tela pôde reconhecer que a tarifa imposta a um, o bloqueio opaco aplicado a outro e a transferência de custos atingem uma coletividade.

Isso não autoriza romantizar a greve nem supor que toda consciência coletiva esteja pronta. A ideologia empreendedora persiste porque responde, de modo deformado, a uma necessidade real: diante da falta de emprego estável, muita gente precisa mesmo encontrar formas imediatas de ganhar dinheiro. A crítica anticapitalista não pode zombar de quem vende doces, faz frete, dirige ou entrega para pagar as contas. Seu alvo é o sistema que obriga milhões a converter a própria sobrevivência em negócio e depois lhes cobra entusiasmo pela ausência de garantias.

Depois de enxergar esse mecanismo, talvez o leitor deixe de perguntar se determinado trabalhador se esforçou o bastante para “dar certo”. A pergunta mais consequente é quem fixa as regras, quem possui os dados, quem transfere os riscos e quem fica com o valor produzido. A bicicleta alugada, o currículo permanentemente atualizado e o curso feito de madrugada não são provas de uma liberdade conquistada; muitas vezes são recibos de uma insegurança administrada pelo capital. Reconhecer isso não resolve por si só a precarização, mas rompe seu feitiço mais útil: a ideia de que cada explorado está sozinho e é culpado pelo lugar que ocupa.