Empreendedorismo de si é a forma de subjetividade em que a pessoa é levada a se entender como uma empresa permanentemente em gestão: deve valorizar suas competências, ampliar sua rede, cuidar da própria “marca”, assumir riscos e converter cada aspecto da vida em investimento. Sob essa lógica, o desemprego vira falta de iniciativa, o adoecimento vira incapacidade de adaptação e a pobreza aparece como erro de administração pessoal. O que antes podia ser reconhecido como conflito entre classes — salários baixos, jornadas longas, falta de direitos e poder patronal — é recodificado como responsabilidade individual.

De onde vem o conceito

A expressão está associada às análises de Michel Foucault sobre o neoliberalismo, especialmente em seu curso Nascimento da biopolítica. Ao estudar economistas neoliberais, Foucault identificou uma mudança importante: o trabalhador já não é pensado apenas como alguém que vende sua força de trabalho em troca de salário. Ele passa a ser definido como portador de um “capital humano”, isto é, um conjunto de capacidades, conhecimentos, hábitos, contatos e disposições que precisaria administrar e rentabilizar.

Isso não significa que Foucault tenha criado uma cartilha do empreendedorismo. Sua análise mostra como uma racionalidade de governo se estende para além das empresas e do Estado: ela organiza condutas, desejos e julgamentos. A pessoa aprende a se medir como portfólio. Um curso, uma conversa, um perfil em rede social, a aparência, o sono e até o lazer podem ser avaliados pelo retorno que oferecem à carreira. A vida deixa de ser apenas vivida e passa a ser gerida como ativo econômico.

O neoliberalismo não elimina o trabalhador assalariado nem torna todos proprietários. Ao contrário: preserva e aprofunda desigualdades enquanto faz parecer que cada um concorre em condições semelhantes. Chamar o trabalhador precarizado de empreendedor é decisivo para essa operação ideológica, porque oferece a aparência de autonomia onde frequentemente há dependência sem proteção.

Como essa lógica opera

O empreendedorismo de si desloca o risco do capital para o indivíduo. Uma empresa que contrata formalmente assume, ainda que de modo limitado, obrigações como salário, férias, equipamentos, contribuição previdenciária e parte dos custos de períodos sem demanda. Quando a mesma atividade é reorganizada por plataformas, terceirizações ou contratos instáveis, esses custos podem ser empurrados para quem trabalha.

O entregador de aplicativo compra ou aluga a própria bicicleta ou moto, paga combustível, manutenção, internet e alimentação durante a jornada. Se adoece, se sofre um acidente ou se a demanda cai, seu rendimento despenca. Ainda assim, a linguagem empresarial o chama de “parceiro”, “microempreendedor” ou dono do próprio horário. A plataforma controla preços, distribuição de pedidos, avaliações e bloqueios por meio de algoritmos, mas a subordinação aparece disfarçada como liberdade de escolha.

O mesmo mecanismo alcança quem trabalha em call centers, escolas, escritórios e hospitais. Metas impossíveis são apresentadas como desafio de superação; a cobrança permanente recebe o nome de cultura de alta performance; a exaustão é tratada como falha de organização pessoal. O professor, por exemplo, é pressionado a produzir aulas, relatórios, conteúdos digitais, formação continuada e disponibilidade fora do expediente. Quando não dá conta, a resposta oferecida costuma ser um curso de produtividade, não a redução da sobrecarga ou a contratação de mais profissionais.

O empreendedor de si não se torna livre do comando econômico: ele passa a carregar esse comando dentro de si, como autocobrança, medo de parar e obrigação de se valorizar continuamente.

Empreendedorismo de si no Brasil

No Brasil, essa ideologia encontra terreno fértil em um mercado de trabalho marcado por desemprego, informalidade, desigualdade racial e concentração de renda. A abertura de um pequeno negócio ou o trabalho por conta própria podem ser saídas reais diante da falta de emprego. O problema começa quando uma necessidade de sobrevivência é celebrada como escolha empreendedora e usada para justificar a retirada de direitos.

O discurso do “seja seu próprio chefe” esconde que milhões de pessoas trabalham para grandes empresas sem contrato estável, sem poder definir preços e sem participação nas decisões que organizam seu trabalho. Também omite as condições materiais desiguais de partida: não é a mesma coisa arriscar capital acumulado, ter imóvel, contatos e reserva financeira, ou depender da entrega do dia para pagar aluguel e comida.

As plataformas digitais intensificam essa forma de gestão da vida. Avaliações, rankings, notificações e metas convertem o celular em instrumento de comando. A promessa de flexibilidade convive com jornadas prolongadas, pois ficar offline pode significar perder renda, prioridade algorítmica ou oportunidades futuras. A tecnologia não cria sozinha a exploração, mas pode torná-la mais opaca, individualizada e difícil de contestar coletivamente.

Crítica: da culpa individual à organização coletiva

A crítica ao empreendedorismo de si não é uma condenação moral de quem empreende, busca renda extra ou deseja autonomia. Trata-se de questionar a ideologia que transforma essas práticas em destino universal e faz do indivíduo o único responsável por problemas produzidos socialmente. Nem todo fracasso é falta de esforço; muitas vezes é o efeito previsível de mercados concentrados, crédito caro, proteção social insuficiente e relações de trabalho assimétricas.

Ao dissolver a condição comum dos trabalhadores, o empreendedorismo de si enfraquece a percepção de que salários, horários, segurança, descanso e direitos são questões coletivas. Contra a figura isolada do indivíduo-empresa, a organização sindical, a regulação das plataformas e a defesa de serviços públicos recolocam uma verdade incômoda: quem produz riqueza não precisa aceitar que a própria sobrevivência seja tratada como negócio de alto risco.