Subjetividade: o que é? A pergunta costuma receber uma resposta pobre: seria o conjunto particular de pensamentos, emoções, desejos e experiências de cada pessoa. A definição não está errada, mas se torna ideológica quando faz parecer que esse universo interior nasceu pronto, brotou de uma natureza individual ou decorre apenas de escolhas pessoais. A subjetividade é, de fato, a forma singular pela qual cada sujeito vive o mundo. Mas esse mundo já chegou até ele organizado por relações de classe, instituições, linguagem, família, escola, trabalho, Estado, religião, mídia e tecnologia. Não existe sentimento humano fora da história. O medo de falhar, a culpa por descansar, o desejo de empreender, a vergonha de ser pobre e a esperança de “vencer” não são somente acontecimentos privados: são experiências sociais encarnadas em indivíduos concretos.

Tratar a subjetividade como problema político não significa negar diferenças pessoais, reduzir pessoas a marionetes ou afirmar que todos sentem igual. Significa perguntar por que certas formas de sentir se generalizam numa época. Por que tantos trabalhadores interpretam o desemprego como defeito moral próprio? Por que a exaustão é chamada de ambição? Por que a exposição permanente nas redes parece condição para existir? Quando uma sociedade produz milhões de indivíduos que se culpam por problemas estruturais, ela encontrou uma maneira eficiente de transformar dominação em consciência íntima.

Subjetividade: o que é além da vida interior

A subjetividade não é uma caixa fechada dentro da cabeça. Ela é produzida nas relações que tornam alguém reconhecível como aluno, mãe, consumidor, cidadão, desempregado, chefe, trabalhador informal ou “empreendedor de si”. A criança aprende cedo que há tempos para falar e calar, corpos considerados adequados, profissões dignas, sotaques premiados e humilhações normalizadas. O professor, submetido a metas, avaliações burocráticas e salários insuficientes, não leva para a sala de aula apenas conteúdos: leva também a ansiedade social de um trabalho desvalorizado. O estudante, por sua vez, aprende frequentemente que educação é investimento individual para competir, não um direito ou instrumento de compreensão coletiva.

Marx oferece aqui um ponto decisivo. Os seres humanos fazem sua história, mas não em condições escolhidas livremente. A produção material da vida organiza possibilidades, necessidades e horizontes de imaginação. Isso não quer dizer que a renda determine mecanicamente cada ideia, nem que alguém sem recursos esteja condenado a pensar de uma única maneira. Quer dizer que a vida social estabelece os limites e as pressões dentro dos quais a individualidade se forma. Quem precisa aceitar qualquer corrida, turno ou bico para pagar aluguel não experimenta o tempo como quem pode recusá-lo. A liberdade abstrata de escolha encobre a desigualdade concreta entre quem vende sua força de trabalho e quem possui os meios de organizar o trabalho alheio.

O trabalhador que vira empresa de si mesmo

No capitalismo contemporâneo, a produção da subjetividade avançou para o centro da gestão. Não basta comandar corpos por meio do relógio de ponto; é preciso mobilizar iniciativa, afetos, criatividade, disponibilidade e capacidade de suportar riscos. O entregador de aplicativo é apresentado como parceiro autônomo, embora não determine de modo efetivo o preço de sua entrega, as regras de distribuição das chamadas, os bloqueios nem as alterações unilaterais do sistema. A plataforma transfere custos da atividade para ele — bicicleta, moto, combustível, manutenção, acidente, tempo de espera — e ainda lhe oferece uma identidade sedutora: a de alguém livre, flexível, empreendedor.

Essa operação não é apenas econômica. Ela fabrica um sujeito que deve interpretar a própria proteção trabalhista como obstáculo, a jornada sem limite como oportunidade e a queda de renda como insuficiência de esforço. Quando o algoritmo reduz corridas ou penaliza um trabalhador, a violência aparece sob a aparência impessoal de uma decisão técnica. A tela não grita como um supervisor de fábrica, mas ordena, classifica, recompensa, pune e mede. A técnica, como advertia Heidegger em sua reflexão sobre o enquadramento técnico do mundo, não é neutra simplesmente porque parece eficiente: ela pode converter seres e relações em recursos calculáveis. Nas plataformas, o trabalhador se vê como um conjunto de indicadores a melhorar.

O mesmo mecanismo atravessa o call center. Metas de atendimento, scripts, monitoramentos e avaliações de satisfação organizam cada fala. A pessoa precisa aparentar cordialidade enquanto administra agressões, cobranças e salários baixos. Sua voz, sua paciência e seu humor tornam-se partes vendáveis da força de trabalho. O capital não explora somente o braço que executa uma tarefa; explora a atenção, a linguagem e o afeto. A subjetividade é requisitada como matéria-prima e devolvida ao trabalhador como desgaste, medo de não atingir números e sensação de que nunca fez o bastante.

Meritocracia e culpa como governo dos indivíduos

A meritocracia é uma das ideologias mais eficazes nesse processo porque converte a desigualdade em biografia. Ela não afirma frontalmente que ricos merecem tudo por serem ricos. Afirma algo mais persuasivo: que cada posição social seria a consequência proporcional de talento, disciplina e esforço. Desaparecem, assim, a herança, o racismo estrutural, o acesso desigual à escola, a concentração da propriedade, a divisão sexual do trabalho e a própria necessidade capitalista de manter uma massa de trabalhadores em condições precárias.

O resultado subjetivo é a culpa. Se a pessoa não consegue emprego, não acumulou patrimônio ou não alcançou a imagem de felicidade exibida nas redes, deve revisar sua mentalidade, acordar antes, fazer cursos, produzir conteúdo, sorrir mais. A crítica das condições materiais é rebaixada a desculpa; o sofrimento é tratado como falha de gestão emocional. Essa é uma forma contemporânea de alienação: o indivíduo já não reconhece nas estruturas sociais a origem de parte decisiva de sua angústia e passa a enfrentar sozinho aquilo que exigiria organização coletiva.

Debord chamou de sociedade do espetáculo uma ordem em que a relação social entre pessoas é mediada por imagens. As redes digitais intensificaram essa mediação ao transformar a apresentação de si em trabalho contínuo. A subjetividade passa a ser editada para ser vista, validada e eventualmente monetizada. Não se trata de condenar moralmente quem usa redes: elas são espaços reais de sociabilidade, informação e disputa. O problema está em sua forma empresarial, baseada na captura de atenção e na conversão de cada gesto em dado. O sujeito é estimulado a falar de si sem cessar enquanto empresas extraem valor de seus rastros, segmentam publicidade e moldam comportamentos.

A luta pela subjetividade não é terapia individual

O bolsonarismo compreendeu, à sua maneira reacionária, que a política também disputa afetos. Ele ofereceu pertencimento pela hostilidade, uma explicação simples para frustrações reais e alvos contra os quais dirigir a raiva: professores, artistas, mulheres, pessoas negras, movimentos sociais, pobres que acessam direitos, qualquer um identificado com a esquerda. Sua força não esteve apenas em programas econômicos, mas na capacidade de dar forma coletiva ao ressentimento produzido por décadas de desigualdade, precarização e abandono. Em vez de apontar a classe dominante e as estruturas que concentram riqueza, deslocou a revolta para inimigos fabricados.

Por isso, uma crítica materialista da subjetividade não pode se contentar em recomendar autocuidado ou consumo consciente. Descansar, buscar apoio e proteger a saúde mental são necessidades legítimas, mas não substituem a transformação das condições que adoecem. A saída para a solidão social não está em tornar cada pessoa mais resiliente à exploração. Está em reconstruir vínculos de solidariedade, sindicatos, associações, espaços públicos, educação crítica e formas de luta capazes de nomear o que parece apenas privado.

A subjetividade é um campo de conflito porque o capitalismo precisa produzir sujeitos adaptados à sua reprodução: competitivos, culpados, disponíveis, endividados e convencidos de que não há alternativa. Mas aquilo que foi historicamente produzido pode ser historicamente transformado. Quando o entregador percebe que seu problema não é individual; quando colegas de uma escola recusam competir entre si; quando trabalhadores de telemarketing reconhecem no sofrimento comum uma condição compartilhada, a alienação não desaparece magicamente. Ela, porém, deixa de falar sozinha dentro de cada pessoa. A experiência privada encontra uma linguagem coletiva — e é nesse deslocamento que a subjetividade pode deixar de ser prisão para se tornar possibilidade de emancipação.