Defina hegemonia não como a simples superioridade de um grupo sobre outro, nem como uma palavra elegante para dizer “domínio”. Hegemonia é a capacidade de uma classe de fazer seus interesses particulares aparecerem como interesse de todos, organizando não apenas a força do Estado, mas o consenso de quem é governado. Ela funciona quando o trabalhador precarizado aceita a linguagem de seu explorador; quando a desigualdade parece resultado natural de talentos distintos; quando a violência policial é chamada de ordem; quando a destruição de direitos recebe o nome de modernização. O poder mais estável não é aquele que precisa bater o tempo inteiro. É aquele que consegue fazer muita gente defender, por conta própria, a ordem que a submete.
Essa é a contribuição decisiva de Antonio Gramsci: a dominação capitalista não se sustenta exclusivamente pela coerção, embora a coerção esteja sempre disponível. Ela se sustenta também em escolas, igrejas, jornais, empresas, plataformas digitais, programas de televisão, discursos familiares e hábitos aparentemente privados. A classe dominante não governa apenas de cima para baixo; ela produz uma visão de mundo que atravessa o cotidiano e dá sentido à experiência social. Hegemonia é justamente esse terreno em que a exploração deixa de se apresentar como exploração e passa a vestir a roupa da oportunidade, do mérito, da segurança ou da liberdade.
Defina hegemonia no trabalho que se vende como autonomia
O entregador de aplicativo é uma figura brasileira especialmente reveladora dessa operação. Ele pedala ou pilota por horas, arca com combustível, manutenção, risco de acidente, celular e conexão; depende de um algoritmo que altera remuneração, distribuição de corridas e acesso ao próprio trabalho; pode ser desligado sem uma relação transparente de defesa. Ainda assim, a propaganda das plataformas insiste em chamá-lo de parceiro, empreendedor, dono do próprio tempo. Não se trata apenas de publicidade enganosa. Trata-se de uma linguagem política: ela impede que uma relação de subordinação seja reconhecida como tal.
O entregador efetivamente pode escolher quando se conecta, recusar uma corrida ou tentar aumentar o ganho trabalhando mais. Mas essa liberdade formal convive com a necessidade material de aceitar jornadas extenuantes para pagar as contas. A plataforma não precisa ordenar cada movimento como o capataz de uma fábrica do século XIX. O sistema de notas, metas implícitas, bônus, bloqueios e tarifas variáveis transforma o próprio trabalhador em vigilante de si mesmo. Ele calcula sem cessar, corre contra o relógio, administra o medo de perder renda e aprende a interpretar a tela como destino. A técnica, aqui, não é neutra: ela organiza uma forma específica de exploração e de obediência.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é somente um conjunto de ferramentas, mas um modo de enquadrar o mundo como reserva disponível. Nas plataformas, o trabalhador aparece como disponibilidade logística: um corpo localizável, mensurável, substituível e permanentemente convocável. A cidade vira mapa de demanda; o tempo vira unidade de extração; a vida vira dado. Mas a hegemonia completa o serviço que o algoritmo inicia. Ela convence parte desses trabalhadores de que reivindicar direitos trabalhistas seria uma ameaça à sua autonomia, como se proteção social e liberdade fossem inimigas naturais.
O consenso não elimina a força, apenas a torna menos visível
Seria um erro imaginar que hegemonia significa persuasão suave ou acordo sem conflito. O consenso capitalista tem limites e é protegido por instituições capazes de impor decisões. Quando trabalhadores se organizam, fazem greve, bloqueiam vias ou exigem reconhecimento de vínculo, surgem a repressão, a judicialização, a difamação pública e o velho discurso de que estão prejudicando “a população”. O Estado, como analisa Alysson Mascaro a partir da crítica marxista, não paira acima das classes como árbitro neutro. Sua forma jurídica pode apresentar interesses estruturais do capital como regras universais, abstratas e iguais para todos.
A igualdade jurídica entre uma empresa bilionária e um entregador isolado é uma dessas ficções necessárias. Ambos podem, em tese, contratar, recorrer à Justiça, negociar e empreender. Na realidade, um controla a infraestrutura, os dados, a marca e os meios de acesso ao mercado; o outro precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. A hegemonia opera precisamente nessa distância entre a igualdade proclamada e a desigualdade vivida. Ela faz parecer que o problema do trabalhador é sua baixa qualificação, sua falta de disciplina ou sua incapacidade de “se adaptar”, nunca a estrutura que concentra poder econômico e distribui insegurança.
Bolsonarismo e a hegemonia do ressentimento
No Brasil recente, o bolsonarismo mostrou que a hegemonia não depende de oferecer melhora material à maioria. Ela pode se alimentar do desamparo social e redirecioná-lo contra inimigos convenientes. Em vez de identificar bancos, grandes empresas, rentistas e proprietários como beneficiários da desigualdade, a política de extrema direita oferece alvos mais fáceis: professores, artistas, movimentos sociais, mulheres, pessoas negras, indígenas, servidores públicos, pobres que recebem políticas sociais. A raiva produzida pela precarização é deslocada para uma guerra moral.
Esse deslocamento tem eficácia porque conversa com experiências reais, ainda que lhes dê uma explicação falsa. Quem enfrenta fila em hospital, transporte ruim, salário curto e humilhação no trabalho sabe que há algo profundamente errado. O bolsonarismo não inventa esse mal-estar; ele o captura. Em vez de revelar a lógica capitalista que produz escassez para muitos e riqueza para poucos, promete restaurar uma hierarquia imaginária: o homem “de bem”, o chefe autoritário, a família disciplinada, a nação ameaçada por supostos inimigos internos. O fascismo transforma frustração social em desejo de punição.
Le Bon observou como multidões podem ser conduzidas por imagens, simplificações e contágio emocional. A extrema direita digital atualiza esse mecanismo com redes sociais, vídeos curtos, correntes e comunidades fechadas. Não se trata de dizer que as pessoas são massas irracionais sem história; isso seria repetir o desprezo elitista que também alimenta a política reacionária. Trata-se de reconhecer que a circulação acelerada de afetos, medo e mentira organiza disposições coletivas. A sociedade do espetáculo, descrita por Debord, não é apenas excesso de imagens: é uma forma de relação social mediada por imagens, na qual a aparência pode substituir a investigação da realidade.
O trabalhador que recebe, no mesmo celular usado para aceitar entregas, uma enxurrada de vídeos sobre corrupção moral, ameaça comunista ou criminalidade não está fora da economia política. Ele está dentro de uma maquinaria que une exploração, entretenimento, informação e propaganda. A plataforma extrai valor de seu trabalho e de seus dados; a extrema direita extrai adesão de sua insegurança. Ambas prosperam quando a experiência individual fica isolada de uma compreensão coletiva das causas.
Contra a hegemonia, uma disputa pela realidade social
Reconhecer a hegemonia não significa tratá-la como um feitiço invencível. Se ela precisa ser produzida todos os dias, também pode ser contestada todos os dias. Greves de entregadores, organização sindical, associações de bairro, imprensa crítica, movimentos de moradia, coletivos culturais e lutas feministas e antirracistas não são temas paralelos à economia. São espaços em que a experiência fragmentada pode encontrar linguagem comum e perceber que o problema não é uma falha individual.
Marx mostrou que o capitalismo tende a apresentar relações entre pessoas como relações entre coisas: salário, preço, aplicativo, nota, contrato, pontuação. A crítica rompe essa aparência ao recolocar no centro quem trabalha, quem lucra e quem decide. Quando um entregador deixa de se enxergar como microempresário solitário e se reconhece como parte de uma classe submetida a condições semelhantes, a hegemonia sofre uma fissura. Quando a palavra liberdade deixa de significar abandono estatal e passa a significar tempo, salário, direitos e poder sobre as condições de trabalho, outra visão de mundo começa a disputar espaço.
Definir hegemonia, afinal, é nomear o mecanismo pelo qual o capitalismo administra a consciência dos explorados. Não para celebrar sua inteligência, mas para desarmar sua aparência natural. A ordem que chama exploração de liberdade depende de ser acreditada. E toda crença socialmente organizada pode ser enfrentada por uma prática coletiva capaz de dizer o que ela tenta esconder.
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