A definição de capitalismo que circula em manuais escolares costuma ser inofensiva: propriedade privada, livre iniciativa, busca do lucro, mercados. Nada disso é falso; é apenas insuficiente de um modo politicamente conveniente. Essa descrição apresenta o sistema como uma paisagem institucional, um conjunto de regras sob as quais indivíduos fazem escolhas. Ela retira do centro aquilo que Marx identificou como seu nervo: uma relação social em que uma classe detém os meios de produzir a vida coletiva e outra, despossuída desses meios, precisa vender sua capacidade de trabalhar para continuar viva. Capitalismo não é, antes de tudo, a existência de comércio ou dinheiro. É a organização da dependência sob a aparência da liberdade.
O entregador que atravessa a cidade com uma mochila nas costas expõe essa definição melhor do que qualquer infográfico. Ele não é proprietário do restaurante, da plataforma que organiza as corridas, do sistema de pagamento, dos dados que calculam sua performance nem das ruas que percorre. Possui a bicicleta ou a moto, frequentemente comprada a prestações, e possui seu próprio corpo, disponível para transformar horas, músculos e risco em renda. A plataforma lhe chama de parceiro, mas ela fixa unilateralmente o preço efetivo de seu trabalho, distribui pedidos, altera regras, pune recusas e pode bloquear sua conta. A palavra empreendedor não elimina a subordinação; ela a torna menos visível e transfere seus custos para quem trabalha.
A definição de capitalismo começa onde termina a liberdade abstrata
O trabalhador formal assina um contrato; o entregador aceita termos de uso num aplicativo. Em ambos os casos, a assimetria não desaparece porque a adesão foi voluntária no papel. Quem precisa pagar aluguel, comprar comida e manter a família não negocia em condições iguais com a empresa que controla o acesso à renda. A liberdade capitalista é real numa acepção estreita: ninguém precisa acorrentar o trabalhador ao posto. Mas ela é também uma liberdade negativa e brutal, a liberdade de escolher qual patrão, qual plataforma ou qual jornada excessiva aceitar para não cair na privação.
É por isso que reduzir capitalismo a “economia de mercado” produz um apagamento decisivo. Mercados existiram em sociedades que não eram capitalistas e podem existir sob formas sociais diferentes. O que caracteriza o capitalismo é a conversão generalizada da força de trabalho em mercadoria e a obrigação de produzir não prioritariamente o que a coletividade necessita, mas o que pode realizar lucro. Uma escola pode precisar de mais professores, um bairro pode precisar de saneamento, um hospital pode precisar de pessoal; isso não basta para que os recursos apareçam. Já a entrega de qualquer mercadoria trivial recebe investimento quando consegue extrair valor do trabalho e ampliar a acumulação.
Marx chamou de mais-valia a parcela do valor produzida pelo trabalhador que não retorna a ele como salário. Não se trata de uma acusação moral contra empresários individualmente gananciosos, embora a ganância encontre ali terreno fértil. Trata-se do mecanismo objetivo pelo qual o capital se reproduz. Uma empresa compra força de trabalho por um período e organiza esse trabalho para que ele produza mais valor do que custa. A diferença sustenta lucro, juros, renda, expansão empresarial e remuneração dos proprietários. Quando a empresa busca elevar a produtividade, cortar pausas, intensificar metas ou substituir postos por sistemas automáticos, não está traindo uma versão humana do capitalismo: está obedecendo à sua lógica elementar de acumular.
A plataforma não aboliu a exploração, ela a colocou no celular
O discurso da inovação pretende nos fazer crer que esse problema pertence a fábricas esfumaçadas de outro século. Contudo, o call center brasileiro, com sua cadência de ligações, suas telas cronometradas e sua supervisão eletrônica, demonstra como a técnica atualiza a disciplina do chão de fábrica. O professor submetido a metas comerciais numa instituição de ensino privada, obrigado a reter alunos e preencher indicadores enquanto prepara aulas fora do horário pago, reconhece a mesma estrutura. O aplicativo não é uma ruptura com o capitalismo; é uma ferramenta sofisticada de sua administração. Ele fragmenta a jornada, individualiza o trabalhador, calcula seu comportamento e chama essa vigilância de eficiência.
Heidegger alertava que a técnica moderna não é apenas um conjunto neutro de instrumentos: ela dispõe o mundo como reserva disponível para ser calculada e explorada. Sob o capitalismo de plataforma, essa disposição alcança o trabalhador com nitidez extrema. O entregador vira ponto móvel num mapa, taxa de aceitação, tempo estimado, nota do cliente, unidade de oferta que pode ser acionada em picos de demanda e descartada em períodos de baixa. Seus dados ajudam a aperfeiçoar o sistema que o subordina, sem que ele controle esse sistema ou participe de seus ganhos. A tecnologia, nesse caso, não determina sozinha a exploração; ela é orientada por relações de propriedade que definem quem programa, quem lucra e quem suporta o risco.
Quando o trabalhador aparece como empreendedor de si, a empresa pode extrair trabalho sem assumir integralmente as responsabilidades que antes reconhecia como custo.
Essa operação ideológica é central. A meritocracia interpreta diferenças de renda como resultado de esforço, talento e escolhas pessoais, evitando perguntar quem começa a corrida com patrimônio, redes de proteção, educação e tempo livre. Ao entregador que roda doze horas para obter uma renda instável, oferece-se a fantasia de que trabalha para si mesmo. Se não prospera, a explicação recai sobre sua disposição individual; nunca sobre a tarifa reduzida, o combustível caro, o bloqueio opaco ou a concentração do poder econômico. A ideologia não precisa convencer todos de que vivem bem. Basta convencê-los de que seu sofrimento é um problema privado e de que a estrutura que o produz é inevitável.
Lucro, Estado e a falsa naturalidade da desigualdade
A definição crítica de capitalismo precisa incluir o Estado, não como um agente externo que ocasionalmente intervém numa economia pura, mas como parte da forma social que garante contratos, propriedade, moeda e as condições gerais da exploração. Como insiste Alysson Mascaro ao tratar da forma política moderna, o Estado não paira acima das classes como árbitro neutro. Sua autonomia relativa permite administrar conflitos e preservar a reprodução da sociabilidade capitalista. No Brasil, isso se evidencia quando a proteção trabalhista é apresentada como obstáculo à modernização, enquanto benefícios fiscais, proteção patrimonial e socorros seletivos ao grande capital são tratados como medidas técnicas, quase naturais.
O bolsonarismo deu uma expressão agressiva a esse arranjo. Sua retórica contra direitos sociais e organizações coletivas glorificou o indivíduo armado de fé, família e iniciativa, como se a precariedade fosse sinal de coragem empreendedora. Ao mesmo tempo, transformou a crítica à desigualdade em suposta inveja e a defesa de direitos em ameaça à liberdade. Há aqui uma afinidade entre neoliberalismo e neofascismo: o primeiro destrói garantias materiais e atomiza os trabalhadores; o segundo oferece, em troca, pertencimento autoritário, inimigos fáceis e uma explicação moral para a insegurança produzida pelo próprio sistema.
Debord ajuda a perceber por que essa realidade pode ser tão eficazmente ocultada. Na sociedade do espetáculo, a vida social é mediada por imagens que não apenas representam o mundo, mas organizam a maneira de vivê-lo. Publicidade de aplicativos mostra autonomia, velocidade e jovens sorridentes; vídeos de influenciadores exibem trajetórias excepcionais de enriquecimento; a tela transforma a corrida mal paga numa oportunidade colorida. A imagem do empreendedor substitui a experiência concreta de quem espera pedido na chuva, arca com acidente, enfrenta violência urbana e termina o dia sem saber quanto receberá na semana seguinte. O espetáculo não é uma mentira isolada: é a forma pela qual a relação de exploração se torna aceitável e desejável.
Definir capitalismo, então, é recusar a neutralidade de uma palavra que parece designar somente um modelo econômico. É nomear uma sociedade em que a produção da riqueza depende do trabalho coletivo, mas sua apropriação permanece privada; em que a técnica poderia reduzir a fadiga, mas é usada para ampliar controle e desemprego; em que a abundância convive com necessidades elementares não atendidas porque necessidade humana e rentabilidade não são a mesma coisa. O asfalto brasileiro, os centros de distribuição, as salas de aula precarizadas e os call centers já contêm essa definição. Vê-la é o primeiro passo para deixar de tratar a exploração como destino e passar a entendê-la como uma forma histórica, feita por relações humanas e, por isso mesmo, transformável.
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