Definir subjetividade não é dar um nome elegante à interioridade de cada indivíduo, como se houvesse dentro de nós uma essência privada, pronta e independente do mundo. Subjetividade é o modo pelo qual sentimos, desejamos, interpretamos a realidade e nos reconhecemos — ou deixamos de nos reconhecer — nela. Mas esses modos não nascem no vazio. São formados por relações de classe, instituições, linguagem, família, escola, trabalho, mídia e tecnologia. A pergunta sobre a subjetividade é, por isso, inseparável da pergunta sobre o poder: quem organiza as condições materiais em que as pessoas aprendem a desejar, temer, competir e obedecer?
O capitalismo contemporâneo gosta de apresentar a subjetividade como uma propriedade individual. Cada trabalhador seria uma marca pessoal; cada fracasso, um problema de mentalidade; cada sofrimento, uma deficiência de adaptação. A linguagem empresarial da “atitude”, da “resiliência” e do “protagonismo” opera precisamente essa operação ideológica: converte uma ordem social desigual em drama psicológico privado. O entregador que pedala doze horas não estaria submetido a uma relação brutal de exploração, mas construindo sua autonomia. A professora que acumula turmas, relatórios e tarefas administrativas deveria gerir melhor sua energia. A atendente de call center, cronometrada até na pausa para ir ao banheiro, precisaria desenvolver inteligência emocional.
Definir subjetividade, em uma perspectiva crítica, começa por recusar essa mentira. Não somos apenas vítimas passivas de estruturas, nem sujeitos soberanos que se inventam por força de vontade. Somos produzidos em relações históricas que nos atravessam, mas também podemos compreender essas relações e agir coletivamente contra elas. A subjetividade é campo de dominação, conflito e possibilidade política.
Definir subjetividade exige sair do mito do indivíduo isolado
Marx permite localizar o problema na vida material. Os seres humanos produzem sua existência por meio do trabalho e das relações sociais que o organizam. Quando o trabalho é controlado por outro, quando seu produto, seu ritmo e seu sentido pertencem ao capital, a própria experiência de si se torna alienada. O trabalhador não apenas vende horas: vende capacidade, atenção, corpo, voz, disponibilidade e, cada vez mais, afetos. A separação entre quem trabalha e aquilo que produz retorna como separação interior. A pessoa passa a viver sua própria atividade como algo estranho, imposto, medido por metas e avaliado por uma empresa.
Isso não significa que a subjetividade se reduza mecanicamente ao emprego. Significa que o trabalho, numa sociedade em que a sobrevivência depende do salário ou de rendas precárias, organiza profundamente o tempo, a autoestima e as expectativas. Quem está desempregado é convocado a provar que continua merecendo trabalho. Quem trabalha demais é convocado a agradecer pela oportunidade. Quem não alcança o padrão de consumo exibido nas telas aprende a interpretar a desigualdade como insuficiência pessoal. A subjetividade capitalista é treinada para transformar coerção em escolha e privilégio em mérito.
A alienação não é apenas não possuir o que se produz; é deixar de reconhecer como socialmente produzido aquilo que aparece, na consciência, como destino individual.
É nesse ponto que a meritocracia cumpre uma função decisiva. Ela oferece uma narrativa moral para um sistema que distribui oportunidades de forma radicalmente desigual. Não basta explorar: é preciso convencer o explorado de que sua posição revela seu valor. O jovem periférico que enfrenta transporte precário, escola sucateada e mercado de trabalho segregado recebe o mesmo sermão sobre esforço dirigido aos herdeiros que dispõem de tempo, redes de contato e patrimônio. A diferença concreta é apagada para que a competição pareça justa. O resultado é uma subjetividade culpada, permanentemente em dívida consigo mesma.
A tecnologia administra a subjetividade como dado e desempenho
Nas plataformas digitais, esse processo ganha uma intensidade particular. O aplicativo não se limita a intermediar uma corrida ou entrega: ele distribui tarefas, estabelece tarifas opacas, classifica desempenhos, induz disponibilidade e pode punir sem uma negociação efetiva. O entregador é chamado de parceiro, mas não decide o preço do seu trabalho nem conhece os critérios que definem sua remuneração. A palavra empreendedora cobre uma relação de subordinação sem os direitos que historicamente poderiam limitá-la.
A gestão algorítmica produz uma forma específica de subjetividade: ansiosa, responsiva e permanentemente calculadora. Aceitar ou recusar uma chamada, correr para uma área de tarifa dinâmica, avaliar se vale a pena continuar na rua sob chuva: decisões aparentemente livres são tomadas sob a pressão de uma renda incerta. A liberdade prometida pelo aplicativo é, muitas vezes, a liberdade de arcar sozinho com os riscos. Combustível, manutenção, acidentes, doença e tempo morto tornam-se responsabilidade individual, enquanto a plataforma extrai valor da circulação organizada por milhares de trabalhadores.
Heidegger ajuda a perceber que a técnica não é somente um conjunto neutro de ferramentas. Ela pode instaurar uma maneira de revelar o mundo, fazendo pessoas, territórios e tempos aparecerem prioritariamente como recursos disponíveis. Sob o comando das plataformas, o trabalhador surge como capacidade ativável; o passageiro, como demanda; a cidade, como mapa de fluxos rentáveis; a atenção, como estoque a ser capturado. O problema não é o celular em si, nem uma nostalgia impossível de um passado sem máquinas. É a técnica subordinada ao imperativo de acumulação, que transforma relações humanas em métricas e dados em poder privado.
Também fora do trabalho, a indústria cultural e as redes sociais modulam a experiência de si. Debord descreveu uma sociedade em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Hoje, essa mediação é acelerada por sistemas que recompensam visibilidade, reação e retenção. A vida aparece como vitrine comparativa. Felicidade, corpo, opinião política, luto e indignação são empacotados em formatos circuláveis. Não se trata de dizer que toda expressão online é falsa; trata-se de reconhecer que plataformas lucrativas organizam as condições dessa expressão e privilegiam aquilo que mantém usuários conectados, polarizados e disponíveis para a publicidade.
A subjetividade também é terreno de fascismo e resistência
O bolsonarismo não pode ser explicado apenas por desinformação ou ignorância individual. Ele mobilizou medos reais, ressentimentos acumulados e a sensação de abandono produzida por décadas de neoliberalismo, convertendo-os em ódio contra inimigos selecionados: pobres, negros, mulheres, indígenas, pessoas LGBTQIA+, professores, movimentos sociais e a própria ideia de direitos universais. A multidão, como observava Le Bon, pode ser tomada por afetos que não equivalem à soma racional de seus membros. Mas essa percepção não autoriza desprezo elitista pelo povo. Exige perguntar quais aparelhos políticos, midiáticos e econômicos fabricam tais afetos e lhes oferecem um alvo.
O fascismo trabalha sobre uma subjetividade ferida pela competição e pela insegurança. Em vez de atacar as estruturas que produzem precariedade, oferece pertencimento pela exclusão e uma fantasia de ordem pela violência. O chefe autoritário aparece como compensação imaginária para quem perdeu controle sobre a própria vida. A crueldade contra os de baixo torna-se espetáculo de força; a mentira, sinal de lealdade ao grupo. Combater esse processo requer mais que corrigir fatos: requer reconstruir vínculos coletivos, direitos e experiências de solidariedade capazes de disputar o desejo de proteção capturado pela extrema direita.
Por isso, definir subjetividade não é um exercício abstrato de dicionário. É reconhecer que a consciência é socialmente formada e que a transformação social precisa alcançar a maneira como as pessoas vivem suas necessidades, seus medos e suas esperanças. Sindicatos, associações de bairro, movimentos populares, escola pública, cultura crítica e organização política não são acessórios de uma luta econômica: são espaços em que outra subjetividade pode ser elaborada. Neles, o sofrimento deixa de ser vergonha privada e pode ser compreendido como experiência comum.
Uma política anticapitalista consequente não promete libertar um “eu verdadeiro” escondido sob as pressões sociais. Ela luta para criar condições materiais nas quais a vida não seja organizada pela chantagem do salário, pelo endividamento, pela humilhação da concorrência e pela vigilância das plataformas. A subjetividade será menos alienada não quando todos aprenderem a pensar positivo, mas quando puderem participar de modo real das decisões sobre o trabalho, a técnica, a riqueza e o tempo que produzem coletivamente.
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