Hegemonicamente é uma palavra que costuma aparecer como se descrevesse uma paisagem neutra: algo ocorre de modo predominante, uma opinião é majoritária, uma prática se impõe. Os dicionários e portais escolares cumprem sua tarefa ao explicar esse uso. Mas a palavra merece uma pergunta que a definição gramatical não alcança: quem fez com que determinada ideia, hábito ou forma de vida se tornasse predominante? No capitalismo brasileiro, essa pergunta é decisiva porque a dominação raramente se apresenta apenas pela ordem explícita. Ela funciona também quando a exploração ganha os nomes de liberdade, oportunidade, inovação e mérito.

Não existe hegemonia sem conflito. Aquilo que aparece como natural, inevitável ou simplesmente moderno foi, antes, disputado e organizado por interesses materiais. A classe dominante não conserva sua posição somente porque possui empresas, terras, bancos, meios de comunicação e influência sobre o Estado. Ela precisa fazer com que sua visão particular do mundo circule como bom senso geral. Precisa convencer o trabalhador de que a insegurança é flexibilidade, o desempregado de que sua condição é falha pessoal e o consumidor de que toda necessidade pode ser respondida por uma mercadoria entregue em minutos.

A palavra “hegemonicamente”, assim, não deveria encerrar o raciocínio; deveria abri-lo. Dizer que uma ideia prevalece é apenas a superfície. A crítica começa ao investigar os aparelhos, as imagens, as leis, as rotinas e as relações de trabalho que a fizeram prevalecer. É nessa superfície polida que as plataformas digitais encontraram uma linguagem eficiente para vender uma velha realidade: trabalhadores submetidos ao comando do capital, mas privados de reconhecimento, direitos e até mesmo do nome de trabalhadores.

Hegemonicamente, o entregador virou empreendedor

O caso brasileiro dos aplicativos de entrega expõe essa operação com nitidez. O entregador que atravessa a cidade sob chuva, calor, trânsito e risco de acidente é apresentado pela empresa como parceiro. Não recebe salário no sentido convencional, não tem jornada formalmente imposta, não aparece como empregado na propaganda corporativa. Em seu lugar surge a figura do empreendedor de si: alguém que liga o aplicativo quando quer, escolhe quanto quer trabalhar e transforma esforço em ganho.

Essa descrição omite a estrutura que decide o essencial. A plataforma determina, por meio de regras que o trabalhador não controla, quais pedidos serão oferecidos, quanto eles pagarão, como será calculada a distância, quais comportamentos resultarão em punição e até que ponto a recusa de chamadas pode reduzir o acesso futuro ao trabalho. O entregador é dito autônomo justamente quando sua sobrevivência depende de aceitar comandos automatizados, opacos e mutáveis. Sua liberdade é a liberdade de permanecer disponível. Seu negócio próprio é uma bicicleta, uma moto ou um celular postos a serviço de uma empresa que retém o poder de organizar a circulação e apropriar-se do valor produzido.

Marx chamou de fetichismo a inversão pela qual relações sociais entre pessoas aparecem como relações naturais entre coisas. No aplicativo, essa inversão ganha uma interface amigável. O preço dinâmico, a pontuação, o mapa, a meta e o bônus parecem dados técnicos, quase meteorológicos: estão ali, como se não fossem decisões empresariais. Mas o algoritmo não cai do céu. Ele organiza trabalho, distribui renda e disciplina corpos. Quando reduz uma tarifa ou oferece uma recompensa condicionada a longas horas de atividade, não está apenas “otimizando” o sistema; está administrando a extração de mais-valia sob uma forma digital.

É por isso que a autonomia oferecida pelas plataformas não equivale à autonomia real. O trabalhador pode escolher entre correr atrás de uma meta insuficiente hoje ou correr atrás de outra amanhã. Pode escolher se expor mais cedo ou mais tarde ao risco. O que não pode escolher, individualmente, é o valor da corrida, a política de bloqueios, a taxa descontada pela empresa, a ausência de proteção em caso de acidente ou a necessidade econômica que o obriga a trabalhar. A liberdade neoliberal é frequentemente esse nome elegante para uma escolha feita sob coação material.

O bom senso que protege a exploração

Para que esse mecanismo se estabilize, não basta a tecnologia. É preciso uma ideologia que transforme a crítica em ressentimento e a defesa de direitos em atraso. Quando entregadores reivindicam remuneração melhor, transparência e proteção social, surge imediatamente o argumento de que qualquer regulação destruirá a inovação. A empresa aparece como força criadora ameaçada por burocratas; o trabalhador, como alguém que deveria agradecer pela oportunidade. A mesma sociedade que aceita sem espanto que bancos, grandes empresas e setores do agronegócio procurem o Estado para obter benefícios, crédito e proteção jurídica costuma tratar a demanda de um entregador por direitos como privilégio.

Essa assimetria é política. Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não podem ser lidos como instrumentos externos e inocentes diante do capitalismo. As formas jurídicas organizam e reproduzem relações sociais específicas. No debate sobre trabalho por aplicativo, a disputa não é meramente técnica, como se fosse preciso ajustar uma lei a uma inovação neutra. Trata-se de decidir se empresas poderão converter o vínculo de dependência em contrato comercial fictício, descarregando sobre o trabalhador o custo da reprodução da própria força de trabalho: combustível, manutenção, equipamento, seguro, adoecimento e tempo sem pedido.

O professor submetido a metas de aprovação e plataformas educacionais, a atendente de call center vigiada por indicadores de duração da chamada, o operador de logística medido por cada segundo de produtividade conhecem versões diferentes da mesma lógica. A gestão contemporânea não precisa gritar o tempo todo. Ela oferece painéis, rankings, selos de desempenho e promessas de premiação. O controle se internaliza porque cada pessoa aprende a se observar como uma pequena empresa. Se a renda cai, a pergunta imposta não é “quem lucra com este arranjo?”, mas “onde eu falhei?”. A meritocracia ocupa exatamente esse lugar: torna individual um resultado produzido por estruturas de classe.

Debord ajuda a perceber que o espetáculo não é um conjunto de anúncios isolados, mas uma relação social mediada por imagens. A publicidade de aplicativos mostra sorrisos, mobilidade, velocidade e conveniência. O consumidor vê um pedido chegando; não vê as horas de espera sem pagamento, a taxa alterada sem explicação, a fadiga acumulada, a cidade convertida em pista de produção. A imagem do entregador empreendedor é útil porque concilia o consumidor com a exploração que torna barato e rápido o seu consumo. Ela produz distância entre o conforto da tela e o corpo que carrega a mercadoria.

Nomear a hegemonia para quebrar sua aparência natural

Há uma diferença entre reconhecer que uma ideia é hegemônica e aceitá-la como destino. A primeira atitude permite medir o tamanho da força adversária; a segunda entrega a luta antes de ela começar. No Brasil, a narrativa do empreendedorismo de necessidade tornou-se poderosa porque conversa com uma população marcada por desemprego, informalidade e abandono estatal. Ela oferece dignidade simbólica a quem foi privado de segurança material. Mas dignidade não pode depender da mentira de que todos possuem as mesmas condições para competir.

Recusar essa mentira não significa desprezar quem trabalha por aplicativo ou imaginar que o trabalhador é incapaz de desejar autonomia. Significa levar esse desejo a sério demais para confundi-lo com a servidão disfarçada de escolha. Autonomia efetiva exigiria tempo, renda, proteção diante do acidente e do adoecimento, poder coletivo de interferir nas condições de trabalho e controle social sobre tecnologias que hoje obedecem à rentabilidade privada. Sem isso, a palavra permanece capturada: uma promessa de liberdade que chega ao trabalhador como notificação, meta e ameaça de bloqueio.

A hegemonia capitalista é forte quando consegue converter sua violência em rotina e sua rotina em linguagem. Desfazer essa linguagem é uma tarefa prática. Começa por chamar o entregador de trabalhador, o algoritmo de instrumento de gestão, a instabilidade de precarização e o lucro extraordinário de apropriação do trabalho alheio. Não é uma disputa de vocabulário por capricho. Quem controla os nomes estreita ou amplia o horizonte do possível. E o capitalismo depende, hegemonicamente, de que a exploração nunca seja dita pelo seu nome.