Em maio de 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul tornaram visível uma violência que, em tempos ordinários, costuma ficar dispersa na rotina. Havia pessoas precisando de teto, água, comida, remédios, transporte e informação; havia prédios fechados, imóveis vazios, mercadorias estocadas, cozinhas industriais, veículos e uma imensa capacidade social de produzir o necessário. Ainda assim, milhares dependeram de abrigos improvisados, do esforço de voluntários e da mediação tardia do poder público. A catástrofe climática não criou sozinha essa insuficiência. Ela rasgou o véu de uma organização social em que aquilo que serve à vida só chega a quem dele necessita depois de atravessar propriedade, preço, contrato, logística privada e cálculo de rentabilidade.

É nesse ponto que o valor de uso deixa de ser uma definição de glossário e se torna uma lente incômoda. O que importa não é apenas reconhecer que uma casa abriga ou que a água mata a sede. É perguntar por que essas utilidades, produzidas por trabalho humano e indispensáveis à reprodução da vida, podem coexistir com gente sem casa e sem água. A resposta não está numa falha moral isolada, na ausência de generosidade empresarial ou na incompetência acidental de um governante. Está na forma capitalista de organizar a produção: a necessidade conta, mas conta subordinada à possibilidade de vender, cobrar, extrair renda ou proteger patrimônio.

A enchente mostrou que propriedade não é sinônimo de necessidade

Na emergência, a distância entre uso e troca aparece sem o verniz habitual. Uma moradia vazia tem uma utilidade concreta evidente para quem perdeu a própria casa. Mas, sob o regime da propriedade privada, ela aparece primeiro como ativo: fonte de aluguel, reserva patrimonial, garantia financeira, objeto de especulação. Seu uso social fica bloqueado pelo direito de excluir. A ordem jurídica trata o imóvel antes como coisa de alguém do que como condição material da sobrevivência de muitos. Como insiste Alysson Mascaro ao analisar a forma jurídica, o direito não paira acima das relações econômicas para corrigir espontaneamente suas injustiças; ele participa da reprodução de uma sociedade fundada em sujeitos proprietários formalmente iguais e materialmente desiguais.

Isso não significa que toda resposta pública seja inútil ou que a solidariedade popular seja irrelevante. Ao contrário: resgates, cozinhas coletivas, centros de triagem e redes de bairro demonstraram uma capacidade de cooperação que a concorrência cotidiana tenta sufocar. Mas a própria necessidade de improvisar essa rede expõe o problema. A comida doada tinha valor de uso imediato porque alimentava. O caminhão cedido tinha valor de uso porque transportava. O abrigo organizado por movimentos populares tinha valor de uso porque protegia. A sociedade conhece perfeitamente suas necessidades e possui meios técnicos para atendê-las. O que não possui, sob o capitalismo, é controle democrático estável sobre esses meios.

Depois que as águas baixam, a normalidade retorna como uma operação de apagamento. A reconstrução vira oportunidade para empreiteiras, seguradoras, bancos, incorporadoras e plataformas de crédito. O discurso da resiliência, tão celebrado por gestores e marcas, transfere para indivíduos e comunidades o dever de sobreviver ao que a lógica do lucro ajudou a produzir. Em vez de enfrentar a ocupação predatória do território, a infraestrutura subordinada a interesses privados e a desigualdade que concentra as áreas mais seguras, pede-se que cada família se adapte, se endivide e recomece. A necessidade humana é reconhecida apenas quando pode reaparecer como demanda de mercado.

Quem entrega a sobrevivência dos outros vive sob a mesma contradição

O entregador de aplicativo conhece essa inversão de forma particularmente brutal. Ele transporta refeições, remédios e compras que têm uso imediato para quem está em casa. Em dias de chuva extrema, alagamento ou calor intenso, seu trabalho pode ser apresentado pela publicidade das plataformas como serviço essencial. A palavra soa nobre, mas encobre a estrutura real: a empresa se beneficia de uma necessidade coletiva sem assumir as obrigações correspondentes. Se a atividade é essencial, por que o trabalhador arca com bicicleta, moto, combustível, manutenção, seguro e risco? Por que a renda depende de aceitar chamadas, cumprir metas opacas e permanecer disponível por longas horas?

A plataforma não vende só entrega. Ela vende conveniência a consumidores e extrai valor do tempo, do corpo e da vulnerabilidade de quem pedala ou pilota. O alimento continua sendo alimento; o remédio continua sendo remédio. Entretanto, a utilidade desses bens é capturada por uma cadeia que transforma a urgência alheia em comissão, tarifa dinâmica e dados sobre hábitos de consumo. A tecnologia, aqui, não é uma força neutra que caiu do céu. Ela organiza o trabalho segundo critérios empresariais: reduzir custos, fragmentar vínculos, individualizar riscos e esconder o comando atrás de um algoritmo.

Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como reserva disponível, algo permanentemente mobilizável. Nas plataformas, o trabalhador aparece exatamente assim: uma unidade acionável no mapa, medida por tempo de resposta, avaliação e localização. A cidade inteira é convertida em estoque de rotas, restaurantes, consumidores e corpos disponíveis. O valor de uso da comida, do deslocamento e do cuidado é real, mas é reorganizado para servir à valorização do capital. Não se trata de nostalgia de um mercado anterior aos aplicativos; o restaurante tradicional também explorava trabalho e perseguia lucro. A novidade está na gestão digital que apresenta exploração como autonomia e desproteção como empreendedorismo.

O preço ensina a confundir necessidade com merecimento

A ideologia neoliberal oferece uma justificativa aparentemente simples para essa ordem: aquilo que alguém consegue comprar seria a medida do que merece receber. Quem não acessa moradia digna deve trabalhar mais; quem não consegue pagar plano de saúde deve empreender; quem passa fome teria falhado numa competição individual. A meritocracia converte desigualdade histórica em defeito pessoal. Ela faz esquecer que ninguém produz sozinho a comida que consome, a energia que usa, a estrada por onde circula, o conhecimento de que depende ou a infraestrutura digital que permite trabalhar.

Marx não separou valor de uso e valor de troca para montar um exercício abstrato de economia. A distinção permite perceber que, no capitalismo, a riqueza concreta da sociedade pode crescer ao mesmo tempo que a vida da maioria se deteriora. Há mais capacidade produtiva, mais automação, mais dados, mais circulação de mercadorias; mas há também jornadas extensas, aluguel que consome salários, filas em hospitais e trabalhadores obrigados a disputar corridas ou bicos. A contradição não é que o capitalismo produza pouco. É que produz sob uma finalidade que não é a satisfação planejada das necessidades sociais.

Debord ajuda a entender a camada espetacular dessa inversão. A publicidade oferece a mercadoria como promessa de felicidade, eficiência e pertencimento. O aplicativo exibe o prato chegando à porta como imagem de conforto; oculta a cozinha precarizada, o entregador exposto e a taxa que aperta pequenos estabelecimentos. O imóvel de luxo aparece como símbolo de sucesso; desaparece a cidade partida entre unidades tratadas como investimento e famílias submetidas ao aluguel. O espetáculo não mente apenas ao exagerar benefícios. Ele organiza o visível para que a relação social que produz a mercadoria permaneça invisível.

Enxergar o uso é alterar a pergunta

Depois de enxergar essa lógica, a pergunta cotidiana muda. Diante de um condomínio vazio, não basta indagar qual é seu preço de mercado: é preciso perguntar a quem ele serve e por que pode permanecer ocioso quando falta moradia. Diante de um aplicativo barato para o consumidor, não basta celebrar a rapidez: é preciso perguntar quem paga pelo desconto com seu corpo e seu tempo. Diante de uma obra pública, uma escola, um hospital ou uma tecnologia, o critério deixa de ser apenas eficiência financeira e passa a ser sua capacidade de ampliar a vida comum.

Isso não é um apelo à escolha individual pura, como se consumir de maneira mais consciente pudesse desmontar uma estrutura de propriedade e exploração. É uma mudança de posição política. Reconhecer o primado do valor de uso leva a defender moradia como direito efetivo, transporte e saúde públicos, proteção trabalhista para quem opera plataformas, planejamento urbano e climático, controle social sobre serviços essenciais e formas de produção orientadas por necessidades coletivas. A questão não é humanizar um pouco o mercado para que ele tolere os pobres em momentos de desastre. É retirar da mercadoria o poder de decidir quem pode viver com dignidade.