Mais-valia é o valor produzido pelo trabalhador que excede o valor de seu salário e é apropriado pelo proprietário da empresa, da terra, da máquina ou da plataforma. Formulada por Karl Marx, a ideia revela que o lucro capitalista não nasce simplesmente da inteligência empresarial, do risco assumido ou da tecnologia empregada: ele depende de uma relação em que quem trabalha vende sua força de trabalho por um valor menor do que aquele que cria durante a jornada.

De onde vem o conceito

Marx desenvolveu o conceito de mais-valia em O Capital, ao investigar como a riqueza se acumula numa sociedade em que os meios de produção são propriedade privada. Sua questão era direta: se mercadorias são trocadas, em princípio, por valores equivalentes, de onde vem o lucro do capitalista?

A resposta está numa mercadoria muito particular: a força de trabalho. O trabalhador não vende diretamente seu trabalho já realizado; vende sua capacidade de trabalhar por um período determinado. O salário paga aquilo de que ele precisa, em determinadas condições históricas, para viver e continuar apto a trabalhar: alimentação, moradia, transporte, reprodução da vida. Mas, ao longo da jornada, essa força de trabalho cria um valor superior ao que custa.

Se uma pessoa recebe o equivalente a quatro horas de trabalho para sustentar sua vida, mas trabalha oito horas e gera valor durante todas elas, as quatro horas excedentes aparecem como trabalho não pago. Esse excedente é a mais-valia. Ele não precisa assumir a forma de uma fraude individual ou de um roubo escondido no caixa. Trata-se da regra normal da relação salarial sob o capitalismo: um contrato aparentemente livre entre quem precisa vender sua capacidade de trabalhar e quem possui os meios para fazê-la render.

Como a mais-valia opera

Marx distingue duas formas principais. A mais-valia absoluta é ampliada quando se estende ou se intensifica a jornada: mais horas, menos pausas, metas que comprimem o ritmo, horas extras e disponibilidade permanente. A mais-valia relativa cresce quando novas técnicas, máquinas, formas de gestão ou reorganizações reduzem o tempo necessário para produzir o equivalente ao salário. Assim, numa mesma jornada, aumenta a parte do tempo que produz valor para o patrão.

Uma fábrica automatizada, um sistema que mede cada segundo no call center ou um aplicativo que distribui corridas e pune recusas podem elevar a produtividade. Isso não elimina a exploração; pode reorganizá-la e ampliá-la. A tecnologia, nesse caso, não é neutra. Sob comando do capital, ela serve para reduzir custos, disciplinar trabalhadores, acelerar tarefas e aumentar a parcela apropriada por quem controla a produção.

O lucro final de uma empresa envolve preços, juros, renda da terra, impostos e disputas comerciais. Mas, para Marx, a origem do novo valor não está na máquina por si mesma nem no dinheiro parado: está no trabalho vivo. Máquinas e insumos transferem para o produto o valor que já possuem; somente o trabalho humano cria valor novo. É por isso que a busca incessante por produtividade convive com pressão sobre salários e direitos.

Mais-valia no Brasil do trabalho precarizado

No Brasil, a mais-valia aparece tanto no chão de fábrica quanto nos setores vendidos como modernos e flexíveis. O entregador de aplicativo arca com bicicleta ou moto, combustível, manutenção, internet e risco de acidente. A plataforma define preços, distribui demandas, cria incentivos e pode bloquear sua conta. Embora seja chamado de parceiro ou empreendedor, ele produz um serviço e uma circulação de mercadorias dos quais a empresa extrai receita, enquanto transfere custos e incertezas para quem pedala ou dirige.

No call center, a exploração se manifesta na cadência imposta por scripts, cronômetros, monitoramento de tela e metas. Cada atendimento é medido; cada pausa pode ser vigiada. O trabalhador não controla o processo nem os critérios que avaliam seu desempenho. Já o professor, sobretudo nas redes privadas e nas plataformas educacionais, enfrenta a multiplicação de tarefas: aulas, correções, relatórios, mensagens fora do horário, alimentação de sistemas e produção de conteúdos. Parte crescente desse trabalho pode não aparecer devidamente na remuneração.

A ideologia do empreendedorismo ajuda a encobrir esse mecanismo. Quando o problema é apresentado como falta de esforço individual, má gestão do próprio tempo ou incapacidade de “se reinventar”, desaparece a pergunta sobre quem controla os meios de trabalho e quem se apropria do resultado. A promessa de autonomia pode coexistir com dependência econômica extrema e controle algorítmico.

Mais-valia, alienação e luta de classes

A mais-valia está ligada à alienação porque o trabalhador se vê separado do produto, do processo e das decisões sobre seu próprio trabalho. Ele produz riqueza, mas essa riqueza se apresenta diante dele como poder alheio: na forma da empresa, da máquina, da meta, do aplicativo e do capital acumulado. Quanto mais trabalha, mais pode fortalecer uma estrutura que o subordina.

Reconhecer a mais-valia não significa reduzir toda injustiça a uma conta simples de horas. Salários, gênero, raça, desemprego, informalidade e hierarquias globais organizam de maneiras distintas quem suporta os custos da acumulação. Mas o conceito preserva um ponto decisivo: a desigualdade capitalista não é um acidente corrigível apenas por boa vontade empresarial. Ela é produzida pela apropriação privada de uma riqueza socialmente criada, e por isso coloca em disputa o controle sobre o trabalho, a tecnologia e os meios de produção.