Mais-valia absoluta é a forma de aumentar a exploração pela extensão da jornada de trabalho: o trabalhador passa mais horas produzindo valor para quem o emprega, sem que seu salário cresça na mesma proporção e sem depender, em princípio, de uma inovação técnica. Para Karl Marx, depois de produzir o equivalente ao valor de sua força de trabalho — isto é, aquilo que retorna a ele como salário e garante sua sobrevivência social —, o trabalhador continua trabalhando gratuitamente para o capital. Quanto mais esse tempo excedente é prolongado, maior é a mais-valia apropriada pelo proprietário da empresa, da terra, da plataforma ou do comércio.

De onde vem o conceito

Marx desenvolveu o conceito em O capital para explicar a origem do lucro capitalista. O lucro não nasce simplesmente da esperteza empresarial, da circulação de mercadorias ou de uma remuneração justa pelo “risco” do dono. Ele depende da compra de uma mercadoria particular: a força de trabalho. O salário paga ao trabalhador apenas o necessário para que ele viva e retorne ao trabalho; mas, durante a jornada, essa força de trabalho cria um valor superior ao que custa.

Se uma parte da jornada equivale, em termos sociais, à produção do valor do salário, Marx a chama de trabalho necessário. A parte restante é o mais-trabalho, que produz a mais-valia. Na mais-valia absoluta, o capital amplia essa segunda parte esticando a duração total do dia de trabalho. Não é preciso instalar uma máquina mais rápida nem reorganizar profundamente a fábrica: basta reter o trabalhador por mais tempo sob o comando do capital.

O conflito em torno da jornada, por isso, não é uma discussão lateral sobre qualidade de vida. É uma luta em torno da medida da exploração. A imposição de jornadas exaustivas marcou a industrialização capitalista e encontrou resistência em greves, associações operárias e campanhas pela limitação legal das horas de trabalho. A redução da jornada foi uma conquista arrancada, não uma dádiva da modernização.

Como a mais-valia absoluta opera

A forma mais visível é a hora extra: o empregado trabalha além do horário contratado, produz ou atende mais, enquanto a empresa amplia seu faturamento. Mas o mecanismo não se resume à hora extra declarada. Ele aparece quando a jornada formal termina e o trabalho continua por mensagens, relatórios feitos em casa, fechamento de caixa, preparação de aula, deslocamentos impostos, metas que exigem antecipar ou prolongar o expediente.

Nem toda hora adicional deixa de ser paga. Mesmo quando há adicional legal, porém, a relação continua marcada pela necessidade do trabalhador de vender mais tempo de vida para pagar aluguel, comida e dívidas, enquanto a empresa se beneficia da disponibilidade ampliada. A questão marxista não é moralizar toda jornada longa, mas identificar uma relação estrutural: quem não possui os meios de produção precisa submeter seu tempo ao comando de quem os possui.

A mais-valia absoluta também pode combinar prolongamento e intensificação. Uma atendente de call center que não consegue pausar, um operador pressionado por filas de tarefas ou um trabalhador que almoça diante da tela não têm apenas um dia longo: têm o tempo de trabalho comprimido e controlado. Marx distingue a mais-valia absoluta da mais-valia relativa, obtida sobretudo quando mudanças técnicas e organizacionais reduzem o tempo necessário para produzir o equivalente ao salário. Na realidade capitalista, as duas costumam atuar juntas.

No Brasil hoje: jornada sem relógio

No Brasil, a permanência de jornadas extensas convive com vínculos formais, informalidade e trabalho por plataformas. O entregador de aplicativo é apresentado como empreendedor livre para “ligar o app” quando quiser. Mas, para alcançar uma renda minimamente suficiente, pode precisar ficar conectado por longas horas, atravessando períodos de espera, deslocamentos e corridas mal pagas. A plataforma não precisa ordenar a jornada como um capataz de fábrica: tarifas, bônus, avaliações e bloqueios organizam a pressão para que o trabalhador permaneça disponível.

O professor também ilustra essa fronteira apagada. A aula tem horário, mas preparar conteúdo, corrigir atividades, responder estudantes e preencher sistemas frequentemente ultrapassa o tempo remunerado. No call center, metas, monitoramento e volume de atendimento tornam minutos de pausa objeto de vigilância. Em cada caso, o capital tenta transformar frações antes destinadas ao descanso, ao cuidado e à vida coletiva em tempo apropriável.

A escala 6x1 explicita o problema: não se trata apenas de trabalhar muitas horas em um dia, mas de reduzir sistematicamente o tempo social livre. O descanso não é um luxo individual; é condição para saúde, convívio, estudo, organização política e existência para além do emprego. Quando a jornada ocupa quase toda a semana, a reprodução da vida fica subordinada às exigências do lucro.

Contra a naturalização do excesso

A ideologia empresarial costuma chamar essa exploração de comprometimento, garra ou mentalidade empreendedora. Ao trabalhador que acumula turnos, bicos e conexão permanente, oferece-se o elogio da produtividade; raramente se pergunta quem se apropria do valor criado por esse sacrifício. A narrativa da meritocracia converte a falta de tempo em virtude e faz parecer escolha aquilo que muitas vezes é imposição econômica.

Combater a mais-valia absoluta envolve defender limites efetivos à jornada, registro e pagamento do tempo realmente trabalhado, direito à desconexão e formas coletivas de organização. Mas seu núcleo não desaparece apenas com uma gestão mais humana. Enquanto o trabalho assalariado produzir valor para proprietários e a sobrevivência depender da venda cotidiana da força de trabalho, haverá pressão para extrair mais horas, mais disponibilidade e mais vida.