Alienação: o que significa para alguém que passa dez ou doze horas sobre uma motocicleta, guiado por notificações, correndo contra um relógio que não controla e recebendo por cada entrega uma fração decidida por um sistema opaco? A resposta não cabe na definição escolar segundo a qual alienar-se é simplesmente afastar-se de si ou ignorar a realidade. Essa formulação é insuficiente porque transforma um problema histórico e material numa falha psicológica do indivíduo. Para Marx, a alienação não começa na cabeça do trabalhador; ela é produzida nas relações sociais que o obrigam a vender sua força de trabalho para sobreviver, enquanto outro controla as condições, os objetivos e os resultados dessa atividade.

O termo se tornou corrente como sinônimo de desatenção política, conformismo ou excesso de tela. Há algo verdadeiro nessas imagens, mas elas erram o centro se deixam de perguntar quem organiza as telas, a informação e o trabalho que ocupa o tempo das pessoas. Um trabalhador pode saber perfeitamente que é explorado, pode acompanhar notícias, participar de uma paralisação e ainda assim viver uma condição alienada. Consciência importa, mas não elimina por vontade a dependência do salário, da corrida ou da avaliação algorítmica. A alienação é a experiência de produzir um mundo que se volta contra quem o produziu.

Alienação, o que significa quando o algoritmo dá as ordens

O entregador de plataforma é apresentado como trabalhador autônomo: escolhe quando ligar o aplicativo, aceita ou recusa pedidos, administra o próprio tempo. A propaganda chama isso de liberdade; o vocabulário neoliberal chama de empreendedorismo. Mas a aparência contratual encobre uma subordinação concreta. A plataforma define tarifas, distribui demandas, cria metas indiretas, pune recusas por meio de menos chamadas e pode bloquear uma conta sem que o trabalhador conheça os critérios ou tenha uma defesa efetiva. Ele arca com moto, combustível, manutenção, celular, seguro e risco de acidente, enquanto a empresa retém o poder de organizar a circulação e extrair valor dela.

A alienação aparece aí em mais de uma camada. O resultado do trabalho não pertence ao entregador: a riqueza produzida pela rede de entregas, os dados sobre trajetos e consumidores, a consolidação da marca e o crescimento da empresa são apropriados por seus proprietários e investidores. A própria atividade lhe surge como força estranha: não é uma ação orientada por uma finalidade escolhida, mas uma sequência de comandos emitidos pela tela. Até o tempo, que poderia ser vivido como tempo livre, torna-se disponibilidade ansiosa para a próxima corrida. O trabalhador não domina a ferramenta; é administrado por ela.

Não se trata de dizer que todo entregador desconhece essa situação. Muitos a descrevem com precisão e organizam protestos justamente contra taxas baixas, bloqueios e ausência de proteção. O ponto é mais duro: reconhecer a exploração não basta para escapar dela quando aluguel, alimentação e contas dependem de continuar conectado. A ideologia empresarial atua então não apagando completamente a realidade, mas oferecendo uma linguagem para suportá-la. Chama a necessidade de escolha, chama a precariedade de flexibilidade e chama a transferência de custos de oportunidade.

Do produto separado ao sujeito convertido em produto

Na análise marxista, o trabalhador se aliena do produto que cria, do processo de trabalho, de sua vida genérica — sua capacidade humana de criar e cooperar conscientemente — e dos outros trabalhadores. Essas dimensões não pertencem ao século XIX como peças de museu. No capitalismo de plataformas, elas ganham instrumentos novos. O entregador produz uma logística eficiente, mas não participa das decisões sobre ela. Coopera objetivamente com milhares de pessoas, mas é posto em concorrência com elas por notas, taxas e acesso a pedidos. Sua experiência é fragmentada em desempenhos individuais, como se cada um estivesse numa corrida privada contra a própria insuficiência.

Mais ainda: a plataforma não explora apenas a entrega. Ela transforma a conduta em matéria-prima. Cada clique, rota, demora, recusa e avaliação alimenta sistemas de cálculo que a empresa possui e aperfeiçoa. O trabalhador gera dados sobre o próprio trabalho e depois recebe esses dados de volta como poder de comando, sob a forma de preço dinâmico, ranqueamento ou bloqueio. A técnica, aqui, não é um instrumento neutro que caiu do céu. Como sugeria Heidegger ao tratar do enquadramento técnico, ela pode organizar o real como reserva disponível. Sob o capitalismo, pessoas, ruas, tempos e desejos são dispostos para extração e cálculo.

É por isso que a expressão alienação digital, quando usada sem crítica ao trabalho, pode se tornar confortável demais. Parece que o problema está no uso excessivo do telefone, e bastaria uma desintoxicação individual para recuperar uma vida autêntica. Para quem depende do aplicativo, desligar o aparelho não é uma escolha terapêutica: pode significar não faturar. A tela é simultaneamente instrumento de sobrevivência e mecanismo de vigilância. A crítica consequente não moraliza a tecnologia nem culpa o usuário; pergunta por que infraestrutura, dados e decisões empresariais estão concentrados em poucas corporações, enquanto os riscos descem para quem pedala, dirige ou atende.

A ideologia que faz a exploração parecer escolha pessoal

Alienação também ajuda a compreender por que a meritocracia encontra tanta força mesmo em situações de evidente desigualdade. O trabalhador ouve que seu rendimento depende exclusivamente de esforço, disciplina e estratégia. Se recebe pouco, a explicação oferecida é que aceitou poucas corridas, trabalhou no horário errado ou não soube empreender. Desaparece o fato de que a remuneração é determinada por uma empresa com poder unilateral, num mercado de trabalho marcado pelo desemprego e pela fragilidade da proteção social. A derrota estrutural é recontada como defeito privado.

Essa inversão é uma forma de ideologia, não no sentido banal de opinião enganosa que alguém poderia corrigir com uma aula. Ideologia é a forma pela qual relações históricas de dominação aparecem como naturais, inevitáveis ou justas. Quando a empresa se define como mera intermediária tecnológica, ela tenta apagar a relação de trabalho que organiza. Quando o Estado aceita esse vocabulário e demora a garantir direitos, ajuda a transformar a exceção precária em modelo. Alysson Mascaro insiste que o direito e o Estado não pairam acima da sociedade como árbitros neutros: eles operam dentro das formas sociais do capitalismo. Isso não torna toda disputa jurídica inútil; torna necessário enxergar seus limites e suas condições de classe.

A alienação, portanto, não descreve uma massa incapaz de pensar, à espera de uma elite esclarecida. Essa caricatura é autoritária e, no Brasil, serve frequentemente ao desprezo de classe. Ela descreve trabalhadores submetidos a instituições que separam decisão e execução, propriedade e necessidade, produção coletiva e apropriação privada. O professor pressionado por metas e plataformas educacionais, a atendente de call center vigiada por segundos, o auxiliar que responde a um software de produtividade: todos conhecem, em graus distintos, a sensação de cumprir uma tarefa cujo ritmo, linguagem e finalidade foram definidos em outro lugar.

Contra a adaptação, recuperar o controle coletivo

Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, o vivido se afasta em representação. A publicidade das plataformas realiza bem esse movimento: imagens de mobilidade, autonomia e conexão substituem a experiência concreta de cansaço, acidente, dívida e insegurança. Não basta denunciar a mentira da campanha publicitária, contudo. Ela é eficaz porque se apoia numa necessidade real de renda e numa sociedade que destruiu vínculos estáveis de trabalho sem oferecer proteção universal. O espetáculo não convence apenas por manipulação; ele administra desejos que o próprio capitalismo tornou urgentes.

Desalienar não é recomendar que o indivíduo encontre seu verdadeiro eu fora do mercado. É disputar poder sobre as condições materiais da existência: remuneração e jornada, transparência e contestação das decisões algorítmicas, proteção contra bloqueios arbitrários, organização coletiva, direitos trabalhistas e controle democrático sobre tecnologias que hoje servem à acumulação privada. A greve de entregadores, a associação de trabalhadores e a luta por regulação não são detalhes externos a esse debate; são momentos em que a atividade isolada começa a reconhecer sua força coletiva.

O sentido crítico de alienação está justamente aí. Ela nomeia a ferida entre a enorme capacidade humana de produzir em comum e uma ordem que converte essa capacidade em lucro, comando e concorrência. Enquanto a vida de quem trabalha for organizada por plataformas e empresas que tratam pessoas como custos descartáveis e dados aproveitáveis, a promessa de autonomia continuará sendo uma palavra luminosa sobre uma realidade de submissão. Romper essa distância exige menos conselhos de adaptação e mais conflito organizado contra o poder que a produz.