Anomia, em seu significado mais corrente, designa uma situação de enfraquecimento ou ruptura das normas que orientam a vida coletiva. A definição é correta, mas insuficiente quando aplicada ao Brasil do trabalho por aplicativo, da terceirização e da sobrevivência administrada por metas. O problema não é que as regras tenham desaparecido. Para o entregador que pedala doze horas, para a atendente de call center cronometrada até na ida ao banheiro, para a professora convertida em fornecedora de indicadores, regras existem em excesso. O que desaparece é a promessa de que essas regras servirão a uma existência social estável, inteligível e digna.

Há uma anomia particular no capitalismo contemporâneo: a ordem que impõe disciplina aos de baixo se apresenta como liberdade, enquanto a proteção que poderia limitar a exploração é tratada como privilégio, atraso ou custo insustentável. Não se trata, então, de um vazio acidental de valores. Trata-se de uma organização social que desloca para o indivíduo a responsabilidade por riscos produzidos coletivamente. A pessoa é cobrada como empresa de si mesma, mas não dispõe do capital, do poder de decisão ou das garantias de uma empresa. Carrega a obrigação sem possuir o comando.

O significado de anomia muda quando a regra protege o lucro

Em Émile Durkheim, a anomia aparece ligada à desregulação social: desejos sem medida e referências coletivas fragilizadas poderiam produzir sofrimento, desorientação e ruptura dos vínculos. Esse diagnóstico permite reconhecer algo real: uma sociedade não se sustenta somente por contratos individuais; ela precisa de instituições e limites que façam a vida comum parecer possível. Mas a leitura crítica deve avançar uma pergunta decisiva: quais normas foram desorganizadas, e em benefício de quem?

No Brasil neoliberal, não houve simplesmente uma retirada geral das normas. Houve uma seleção de normas. A legislação trabalhista é flexibilizada, direitos são corroídos e a previdência é retratada como peso, mas a propriedade privada, a cobrança de dívidas, o direito das plataformas de bloquear unilateralmente um trabalhador e a proteção estatal aos grandes interesses econômicos conservam uma solidez impressionante. Quando um entregador é atropelado, a plataforma pode alegar que ele é autônomo; quando a empresa calcula tarifa, rota, avaliação e punição por meio de algoritmo, essa mesma autonomia se torna ficção conveniente.

A anomia, nesse caso, não é o oposto da ordem. É uma ordem desigual que produz desorientação para tornar mais fácil a obediência. O trabalhador não sabe quanto receberá na semana seguinte, que critério reduziu suas chamadas, por que sua conta foi suspensa ou qual alteração no aplicativo tornou seu esforço menos rentável. Contudo, ele sabe que precisa aceitar a próxima corrida. A opacidade não é uma falha técnica: é uma forma de governo.

O aplicativo fabrica desamparo e o vende como autonomia

A figura do “parceiro” de plataforma condensa a ideologia do nosso tempo. Ele não seria empregado; seria empreendedor. Não teria salário; teria ganhos. Não sofreria comando; receberia oportunidades. A linguagem empresarial não descreve a realidade, ela trabalha para escondê-la. Ao trocar palavras, altera-se a percepção da relação social: exploração passa a ser flexibilidade, ausência de direitos vira independência, e o risco empresarial é transferido para quem tem uma bicicleta, uma moto financiada ou um celular prestes a quebrar.

Marx mostrou que a liberdade jurídica do trabalhador assalariado tem um duplo sentido: ele é livre para vender sua força de trabalho e livre de meios próprios para viver sem vendê-la. A plataforma radicaliza esse mecanismo. O trabalhador parece ainda mais livre porque escolhe quando se conectar, mas essa escolha é comprimida pela necessidade de pagar aluguel, combustível, alimentação e dívidas. A autonomia formal convive com uma dependência material brutal. Se recusa uma entrega mal paga, pode perder prioridade; se adoece, perde renda; se protesta, pode ser bloqueado. A empresa preserva a prerrogativa de comandar sem assumir a responsabilidade de empregar.

É por isso que chamar essa situação de anomia exige cuidado. Não estamos diante de indivíduos incapazes de se adaptar a uma modernidade veloz. Estamos diante de uma forma de trabalho cuja estabilidade foi destruída e cuja destruição é depois apresentada como característica psicológica dos trabalhadores: eles seriam ansiosos, dispersos, incapazes de planejar, pouco resilientes. A ideologia transforma o efeito em causa. A insegurança é fabricada pela organização econômica e depois usada para acusar quem vive sob ela.

Quando o fracasso é individual, a classe desaparece

A anomia também cumpre uma função política porque separa experiências que têm a mesma origem. O motorista de aplicativo imagina que seu problema é a baixa demanda no próprio bairro; a operadora de telemarketing, que sua exaustão vem de não saber administrar o tempo; o professor, que não conseguiu inovar o suficiente diante de turmas superlotadas e tarefas burocráticas. Cada qual recebe uma explicação individual para um sofrimento que é estrutural. A classe trabalhadora aparece fragmentada em perfis, notas, metas e histórias pessoais de superação ou queda.

A meritocracia dá acabamento moral a essa fragmentação. Se todos são empreendedores de si, toda derrota parece evidência de defeito pessoal e toda vitória parece mérito isolado. O desemprego deixa de ser resultado da dinâmica capitalista; torna-se falta de qualificação. A pobreza deixa de ser relação de expropriação; torna-se escolha ruim. A doença mental deixa de ser também resposta a jornadas imprevisíveis e vigilância permanente; torna-se incapacidade de gerir emoções. Essa narrativa é particularmente útil às classes dominantes porque torna invisível a estrutura que concentra riqueza e socializa riscos.

Guy Debord identificou uma sociedade em que a relação direta entre pessoas é mediada por imagens. Hoje, essa mediação chega ao trabalhador como painel de desempenho, mapa de calor, estrela de avaliação, ranking e notificação. Não é apenas o consumidor que vê uma versão espetacularizada do mundo; o trabalhador passa a se enxergar pela imagem que a plataforma calcula dele. Uma nota baixa pode parecer julgamento objetivo, ainda que resulte de trânsito, chuva, atraso do restaurante ou preconceito do cliente. O sujeito é reduzido a dado e aprende a se vigiar conforme uma medida que não controla.

A desordem social brasileira tem instituições e responsáveis

Há quem trate o mal-estar contemporâneo como consequência inevitável da tecnologia, como se o algoritmo fosse uma força autônoma que caiu sobre a sociedade. Heidegger ajuda a recusar essa ingenuidade ao pensar a técnica não como mero conjunto de instrumentos, mas como um modo de revelar e ordenar o mundo. Sob o domínio das plataformas, pessoas, ruas, tempos de descanso e necessidades urbanas são enquadrados como recursos calculáveis. Mas esse enquadramento não paira acima da história. Ele é desenvolvido por empresas, protegido por marcos jurídicos e orientado pela busca de rentabilidade.

Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não devem ser compreendidos como árbitros exteriores às relações capitalistas. Isso é crucial para entender a anomia brasileira. Quando autoridades celebram a “modernização” que fragiliza vínculos trabalhistas, quando tribunais e governos hesitam em reconhecer subordinação onde há controle algorítmico evidente, não se está diante de simples omissão. A forma estatal organiza as condições gerais da acumulação, inclusive quando isso significa aceitar que milhões vivam sem previsibilidade.

O bolsonarismo explorou esse terreno de desagregação oferecendo uma falsificação brutal de comunidade. Diante da perda de proteção material, substituiu solidariedade por ressentimento; diante da precariedade, ofereceu o culto ao homem armado, ao chefe autoritário e ao inimigo imaginário. A psicologia das multidões, discutida por Gustave Le Bon, ajuda a perceber como afetos coletivos podem ser mobilizados por símbolos e lideranças, mas não explica sozinha o fenômeno. A multidão bolsonarista não nasceu de um delírio abstrato: foi alimentada por décadas de insegurança social, despolitização do trabalho e indústria cultural que converte frustração em ódio contra os mais vulneráveis.

Contra a anomia, não basta pedir valores

A resposta conservadora ao desamparo costuma ser uma campanha por valores: mais família, mais disciplina, mais empreendedorismo, mais punição. Ela falha deliberadamente em nomear que tipo de ordem produz o sofrimento. Não há reconstrução de laço social quando a moradia é mercadoria inalcançável, o transporte consome horas não remuneradas, a jornada invade a noite pelo celular e o trabalhador pode perder tudo por uma decisão automática de uma empresa. Valores sem condições materiais são sermão dirigido a quem já está sendo esmagado.

Enfrentar a anomia exige recuperar a dimensão coletiva do conflito: direitos trabalhistas para quem é subordinado por plataformas, transparência e contestação das decisões algorítmicas, serviços públicos robustos, redução da jornada e organização sindical capaz de alcançar os novos locais dispersos de trabalho. Não como nostalgia de um passado idealizado, mas como luta para impedir que a vida seja inteiramente entregue à lógica da concorrência.

O sentido crítico da anomia está aí: a sociedade parece sem norma para quem depende de vender a própria força de trabalho, mas é meticulosamente regulada para que a exploração continue. Nomear essa contradição é recusar a mentira de que milhões de brasileiros fracassaram em se adaptar. O que fracassa é uma ordem social que exige tudo de quem trabalha e oferece, em troca, a incerteza como destino.