Imperialismo não é somente a invasão de um país por outro, a bandeira estrangeira sobre um território ou a imagem escolar de tropas ocupando portos. Essa definição, embora não seja falsa, é insuficiente para reconhecer a forma contemporânea da dominação. No capitalismo atual, o imperialismo atravessa o cotidiano sem precisar desembarcar fuzileiros: aparece na corrida de um entregador convocado por um algoritmo, na lavoura organizada para exportar grãos, no minério arrancado para abastecer cadeias industriais externas e no orçamento público comprimido para garantir pagamentos a credores. Ele é uma relação material em que países como o Brasil fornecem trabalho barato, natureza saqueável, mercados consumidores e dados, enquanto os centros do capital concentram comando, tecnologia, propriedade intelectual e lucro.

Definir imperialismo, portanto, não consiste em decorar uma classificação de potências. Consiste em enxergar como a expansão do capital reorganiza territórios e vidas segundo uma hierarquia internacional. Marx já havia identificado que o capital não conhece limites morais ou nacionais quando busca valorização. O que se convencionou chamar de imperialismo é uma etapa em que essa necessidade de expansão ganha instrumentos financeiros, empresariais, militares, diplomáticos e tecnológicos de alcance global. Não se trata de uma conspiração abstrata de estrangeiros contra brasileiros. Trata-se de um sistema em que empresas, bancos e Estados disputam a apropriação da mais-valia produzida no mundo, convertendo a desigualdade entre nações em mecanismo permanente de acumulação.

Definir imperialismo a partir de quem trabalha

O entregador brasileiro de aplicativo ajuda a tornar essa estrutura visível. Ele não precisa saber quem são os acionistas de uma plataforma, onde está sua sede jurídica ou que fundos financiam sua expansão para sentir a ordem imperialista sobre o corpo. Ele recebe chamadas por uma tecnologia que não controla, aceita valores definidos unilateralmente, arca com bicicleta, moto, combustível, manutenção, acidentes e tempo morto. Seu trabalho é apresentado como autonomia, mas sua sobrevivência depende de uma infraestrutura digital proprietária, capaz de alterar tarifas, punir recusas e distribuir corridas por critérios opacos.

A plataforma não inventou a exploração; ela a aperfeiçoa sob a máscara da inovação. O aplicativo concentra em sua propriedade o código, a marca, os dados e a capacidade de coordenar uma multidão de trabalhadores dispersos. Ao trabalhador resta vender sua força de trabalho de forma fragmentada, sem salário garantido e sem poder efetivo de negociação. Uma parcela da riqueza produzida nas ruas de São Paulo, Recife ou Belo Horizonte é capturada por estruturas empresariais que operam em escala transnacional. A cidade brasileira oferece a mão de obra, o consumo e a infraestrutura pública; o comando econômico pode estar muito distante dela.

Isso não significa que todo lucro vá automaticamente para fora do país, nem que a exploração desapareceria caso o proprietário tivesse passaporte brasileiro. A questão é mais dura. O imperialismo se apoia em classes dominantes locais dispostas a organizar a economia nacional de acordo com os interesses do capital internacional, desde que recebam sua parte. Donos de bancos, grandes grupos empresariais, exportadores e setores políticos internos não são vítimas inocentes da dependência. São seus operadores. O nacionalismo empresarial que pede proteção estatal para seus negócios, mas exige corte de direitos para o povo, não rompe com o imperialismo: apenas quer renegociar seu lugar dentro dele.

O Brasil que exporta riqueza e importa dependência

O caso brasileiro não se resume às plataformas. A dependência aparece também no padrão econômico que celebra superávits enquanto preserva uma inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Exportam-se soja, carne, minério de ferro, petróleo e celulose em grande escala; importam-se máquinas, componentes, patentes, tecnologias estratégicas e produtos de maior valor agregado. A fórmula é conhecida: a natureza brasileira é tratada como reserva de matéria-prima, e vastas áreas do país são moldadas pelas exigências de cadeias globais que não respondem às necessidades sociais de quem vive aqui.

Quando uma região é devastada pela mineração ou quando o avanço do agronegócio expulsa comunidades, contamina águas e concentra terras, não se está diante de um mero efeito colateral de escolhas técnicas. Há uma política de classe inscrita no território. A promessa de desenvolvimento serve frequentemente para exigir que populações locais aceitem os danos em nome de divisas, investimentos e competitividade. Mas a pergunta decisiva permanece: desenvolvimento para quem? Se a riqueza extraída não se converte em direitos universais, soberania tecnológica, redução da jornada e proteção ambiental, ela apenas atualiza a antiga posição colonial sob uma linguagem empresarial mais sofisticada.

O neoliberalismo deu a essa subordinação uma aparência de virtude. Privatizar, flexibilizar, abrir mercados e reduzir a capacidade estatal passaram a ser apresentados como exigências inevitáveis de um mundo integrado. A palavra inevitável é central: ela transforma decisões políticas em destino. Heidegger alertava que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como fundo disponível, como estoque de recursos a ser mobilizado. No capitalismo periférico, esse enquadramento atinge também gente: jovens periféricos viram disponibilidade para entrega; professores, metas de desempenho; atendentes de call center, vozes cronometradas; florestas, ativos; rios, obstáculos ou insumos. A técnica não determina sozinha esse processo, mas é organizada por relações de propriedade que decidem quem manda e quem é descartável.

A soberania encenada no espetáculo

É por isso que discursos sobre soberania nacional podem ser tão vazios. Políticos de extrema direita gostam de mobilizar símbolos patrióticos, atacar organismos internacionais seletivamente e fantasiar uma nação ameaçada por inimigos externos. Ao mesmo tempo, defendem a entrega de patrimônio público, a destruição da legislação trabalhista, o desmonte ambiental e a submissão a interesses empresariais transnacionais. O bolsonarismo não enfrentou o imperialismo; ofereceu ao capital uma versão brutalmente servil do país, com menos direitos, mais violência e uma população treinada a confundir obediência com patriotismo.

Debord ajuda a compreender esse mecanismo ao mostrar que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A soberania vira performance: bandeiras, slogans, motociatas, vídeos de indignação e inimigos imaginários ocupam o espaço que deveria ser dedicado à discussão das relações econômicas concretas. Enquanto a cena pública se incendeia com guerras culturais, o trabalhador entrega mais por menos, a escola pública é precarizada e as plataformas acumulam dados sobre hábitos, deslocamentos e necessidades. O espetáculo impede que a exploração seja reconhecida como estrutura, reduzindo-a a fracasso individual ou azar.

A ideologia meritocrática completa o serviço. Se o entregador pedala doze horas e não consegue pagar as contas, dizem que lhe falta estratégia. Se o professor precisa acumular vínculos, dizem que deve se atualizar. Se o país exporta riqueza e mantém uma maioria empobrecida, dizem que o problema é a baixa produtividade nacional, como se produtividade fosse uma qualidade moral separada da propriedade dos meios de produção. A meritocracia individualiza um impasse produzido socialmente. Ela impede que se pergunte quem possui a plataforma, quem define os preços, quem captura os dados e quem se beneficia da precariedade.

Romper a dependência é reorganizar o poder

Uma crítica séria ao imperialismo não pede um capitalismo brasileiro mais competitivo nem sonha com uma burguesia nacional redentora. Também não se resolve pela simples troca de marcas estrangeiras por marcas locais. Se a propriedade permanece concentrada e o trabalho continua subordinado, a bandeira do dono muda, mas a alienação persiste. Como destaca Alysson Mascaro em sua análise da forma estatal, o Estado capitalista não é um árbitro neutro pairando acima das classes; sua própria estrutura está vinculada à reprodução das relações sociais do capital. Por isso, medidas estatais podem aliviar danos e ampliar direitos, mas enfrentam limites quando não alteram o poder econômico que organiza a dependência.

Romper com o imperialismo exige defender direitos imediatos e, ao mesmo tempo, ir além deles: regulação efetiva das plataformas, proteção social para trabalhadores precarizados, controle público de setores estratégicos, soberania sobre dados e recursos naturais, investimento em ciência e tecnologia orientado por necessidades coletivas. Exige sobretudo organização de classe, porque nenhuma engenharia nacional de desenvolvimento será emancipadora se for construída contra quem trabalha. O imperialismo se define, no fim, pela distância entre quem produz a riqueza e quem decide seu destino. A mochila nas costas do entregador não carrega apenas comida: carrega uma economia inteira que precisa ser transformada.