O neoliberalismo não é apenas um conjunto de medidas econômicas, como privatizações, cortes de gastos ou redução de impostos para os mais ricos. Ele é uma forma de organizar a sociedade pela concorrência, convertendo cada indivíduo em uma empresa de si mesmo. No Brasil, essa ideologia aparece com nitidez no entregador que pedala por horas sem vínculo, no professor submetido a metas e plataformas, na atendente de call center avaliada por segundos e no desempregado obrigado a vender a própria disponibilidade como empreendedorismo. A exploração permanece, mas passa a ser apresentada como escolha pessoal.

A liberdade que obriga a aceitar qualquer trabalho

O discurso neoliberal promete autonomia ao trabalhador justamente quando elimina as condições materiais para que ele seja autônomo. O entregador de aplicativo é chamado de parceiro, não de empregado; o motorista é apresentado como dono do próprio negócio; o profissional contratado como pessoa jurídica é elogiado por sua flexibilidade. A linguagem muda a aparência da relação, mas não altera sua estrutura: a plataforma controla preços, avaliações, distribuição das corridas e critérios de acesso ao trabalho, enquanto transfere ao trabalhador os custos da moto, do celular, da manutenção, do combustível e dos acidentes.

A suposta liberdade consiste em aceitar a corrida disponível, cumprir o ritmo imposto pelo algoritmo e permanecer conectado o maior tempo possível. Não existe chefe visível no sentido tradicional, mas existe uma administração automatizada que organiza o trabalho e pune a recusa. A plataforma não precisa ordenar diretamente que o trabalhador se desgaste; basta criar um sistema em que a renda depende de disponibilidade permanente, boas avaliações e aceitação de tarefas. A coerção econômica é apresentada como oportunidade.

Neoliberalismo e a privatização do fracasso

Essa transformação também atinge a maneira como os indivíduos interpretam suas próprias vidas. O desemprego vira falta de qualificação. O salário baixo vira ausência de esforço. O esgotamento vira deficiência de organização. A pobreza é retirada do campo das relações sociais e devolvida ao indivíduo como culpa particular. A meritocracia cumpre aí uma função ideológica decisiva: ela transforma desigualdades produzidas por classe, raça, território e gênero em supostas diferenças de talento.

Marx mostrou que o trabalhador, separado dos meios de produção, precisa vender sua força de trabalho para sobreviver. O neoliberalismo atualiza essa dependência ao fazer com que o trabalhador acredite possuir um capital próprio quando, na maioria das vezes, possui apenas sua capacidade de trabalhar e algum instrumento precário para oferecê-la. A motocicleta financiada, o notebook comprado em parcelas e o celular indispensável ao serviço não tornam o trabalhador capitalista. Apenas ampliam sua responsabilidade pelos custos da produção e reduzem o valor efetivamente recebido por sua jornada.

O resultado é uma forma intensificada de alienação. O trabalhador não controla o produto, o ritmo, a finalidade ou as condições do trabalho, mas é levado a imaginar que controla tudo isso porque escolhe quando se conectar. A própria exploração precisa parecer iniciativa. Se a renda não basta, a resposta não é questionar a plataforma, mas trabalhar mais horas, adquirir novas competências, aceitar mais tarefas e administrar melhor a própria insuficiência.

O Estado não desaparece: ele protege a concorrência

Uma das ficções centrais do neoliberalismo é a ideia de que o mercado funciona melhor quando o Estado se retira. Na prática, o Estado não desaparece. Ele muda sua atuação: reduz direitos sociais, flexibiliza normas trabalhistas, protege contratos privados, garante a circulação do capital e trata a concorrência como princípio geral da vida. A liberdade de mercado exige uma intervenção política contínua para existir.

Na leitura de Alysson Mascaro, o Estado não é um árbitro neutro situado acima das classes. Sua forma jurídica e institucional está ligada à reprodução das relações capitalistas, nas quais trabalhadores e proprietários aparecem como sujeitos formalmente livres para contratar. Essa igualdade jurídica encobre uma desigualdade material elementar: um lado possui os meios de produção; o outro precisa vender sua força de trabalho. No caso das plataformas, a disputa sobre vínculo empregatício não é detalhe burocrático. É a luta para definir quem paga pelo risco social da atividade e quem fica com os ganhos de sua organização.

Quando o Estado reconhece a empresa de aplicativo apenas como intermediária tecnológica, aceita a narrativa de que a exploração não existe porque não há patrão tradicional. Quando reduz direitos em nome da modernização, não está apenas acompanhando a tecnologia. Está escolhendo proteger um modelo de acumulação que privatiza os ganhos e socializa os custos. O acidente do entregador, a doença do professor e o colapso emocional da trabalhadora de call center aparecem como problemas individuais porque a organização econômica que os produz é mantida fora do enquadramento.

A técnica como comando invisível

A tecnologia não é neutra quando é desenvolvida para subordinar trabalhadores à rentabilidade. O algoritmo que distribui corridas, mede produtividade ou acompanha o tempo de atendimento incorpora decisões sociais e interesses empresariais. Ele pode parecer uma ferramenta impessoal, mas define prioridades concretas: reduzir pausas, aumentar a velocidade, extrair mais atividade por hora e tornar a força de trabalho substituível.

Heidegger compreendeu a técnica moderna como uma forma de enquadrar o mundo, fazendo com que tudo apareça como recurso disponível. No trabalho plataformizado, esse enquadramento alcança o próprio trabalhador. Sua atenção, seu deslocamento, seu tempo de espera e seu corpo tornam-se dados administráveis. O entregador deixa de aparecer como pessoa situada em uma cidade desigual e passa a ser uma unidade de disponibilidade. A professora vira índice de desempenho; a atendente, duração média de chamada; o motorista, taxa de aceitação. A técnica não apenas mede o trabalho: ela define o que conta como trabalho e o que deve ser descartado.

O espetáculo do empreendedor de si

Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo a organização da vida social por imagens que substituem a experiência direta das relações. O empreendedorismo neoliberal funciona como uma dessas imagens. Vídeos motivacionais, cursos de enriquecimento, influenciadores financeiros e discursos sobre mentalidade vencedora apresentam a precariedade como etapa de uma ascensão individual. A promessa não precisa ser cumprida para cumprir sua função. Basta manter o trabalhador ocupado em aperfeiçoar a si mesmo enquanto as estruturas que determinam sua vida permanecem intocadas.

Essa imagem também produz uma divisão moral entre os trabalhadores. Quem consegue acumular alguma renda é apresentado como prova de que o sistema funciona; quem fracassa é tratado como alguém que não se esforçou o suficiente. O sucesso excepcional é usado para justificar a insegurança geral. A exceção aparece como regra possível para todos, embora dependa de condições que não podem ser universalizadas. Assim, a concorrência não disputa apenas salários e oportunidades: disputa a interpretação da realidade.

Da culpa individual à luta coletiva

Romper com essa ideologia não significa rejeitar a tecnologia nem defender uma volta imaginária ao passado. Significa recolocar a tecnologia sob controle social e reconhecer que nenhuma plataforma existe sem o trabalho que ela organiza. Significa disputar a jornada, a remuneração, a proteção previdenciária, o direito à representação e o acesso aos critérios que governam os algoritmos. Significa também abandonar a fantasia de que cada trabalhador pode se salvar sozinho por meio de disciplina, cursos e resiliência.

A saída começa quando a experiência individual deixa de ser interpretada como fracasso privado e passa a ser reconhecida como parte de uma condição comum. O cansaço do entregador, a pressão sobre o professor e a vigilância no call center não são desvios acidentais de um sistema saudável. São manifestações de uma mesma lógica: extrair mais trabalho, reduzir responsabilidades empresariais e transformar direitos em custos inconvenientes.

O neoliberalismo quer que o trabalhador diga “eu não consegui” quando a frase real deveria ser “estão organizando minha vida para que eu trabalhe mais por menos”. A diferença entre essas duas frases é política. Nela se decide se a precariedade continuará sendo administrada como destino individual ou se voltará a ser enfrentada como conflito de classe.