O lumpemproletariado não é sinônimo de pobreza, desemprego ou trabalho informal. Transformar a palavra em insulto contra os de baixo é repetir justamente a operação ideológica que o conceito deveria desmascarar. O problema está em compreender como o capitalismo produz uma massa social afastada dos meios estáveis de organização, submetida à insegurança permanente e disponível para projetos políticos que convertem ressentimento em obediência. No Brasil, essa questão aparece tanto no entregador governado pelo algoritmo quanto no trabalhador precarizado mobilizado por discursos de ódio contra sindicatos, universidades, imigrantes, mulheres e a própria política.
O lumpemproletariado como produção política
Na tradição marxista, o lumpemproletariado não corresponde a uma classe social homogênea situada simplesmente abaixo do proletariado. Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx emprega o termo para analisar uma massa heterogênea, formada por indivíduos deslocados das formas regulares de inserção social e suscetível à manipulação política. A categoria não serve para declarar que determinadas pessoas seriam moralmente inferiores. Ela permite investigar uma relação entre desagregação social, dependência material e uso político da desorientação.
Essa distinção é decisiva. O trabalhador que passa o dia entregando comida, pagando a manutenção da motocicleta, o combustível, o celular e a conexão não é automaticamente lumpemproletário. Ele vende sua força de trabalho e produz valor para uma empresa que se apresenta como plataforma tecnológica. Sua condição é a de um proletário precarizado, ainda que a empresa tente apagar a relação trabalhista chamando-o de parceiro ou empreendedor. O lumpemproletariado aparece como problema político quando a precarização destrói vínculos coletivos, enfraquece a capacidade de organização e deixa indivíduos isolados à mercê de chefes, intermediários, igrejas, milícias, influenciadores e máquinas partidárias.
O capitalismo contemporâneo amplia esse terreno. A informalidade não é um acidente externo ao sistema, mas uma forma de gestão da força de trabalho. O aplicativo transfere para o entregador os custos e os riscos que antes poderiam ser parcialmente assumidos pela empresa. O algoritmo distribui corridas, controla ritmos e estabelece punições sem se apresentar como patrão. A avaliação do cliente substitui a relação profissional; a disponibilidade contínua substitui a jornada definida; a promessa de autonomia encobre a necessidade de aceitar qualquer chamada.
Essa vida submetida ao cálculo permanente não produz apenas pobreza. Produz anomia, no sentido de uma dissolução dos referenciais coletivos capazes de organizar a experiência. Cada trabalhador precisa interpretar sozinho as oscilações da renda, a ameaça do bloqueio e a competição com milhares de outros. O fracasso aparece como falha individual, embora seja fabricado por uma estrutura que necessita de mão de obra abundante, barata e substituível. A ideologia do empreendedorismo transforma essa violência em narrativa de mérito.
Do trabalhador precarizado à massa disponível
Não há uma passagem automática entre precarização e lumpemproletarização política. Um entregador pode participar de paralisações, organizar grupos de trabalhadores e reivindicar direitos. Pode reconhecer no colega um aliado, e não um concorrente. A mesma experiência material que produz isolamento também pode produzir solidariedade, desde que encontre linguagem e organização capazes de convertê-la em ação coletiva. O ponto crítico está na disputa por essa experiência.
Quando a organização coletiva é destruída ou impedida, a insegurança busca uma explicação. A extrema direita oferece uma explicação pronta: o problema não seria a exploração do trabalho, mas o trabalhador protegido; não seria a concentração de renda, mas o imposto; não seria o poder empresarial, mas o professor; não seria a crise social, mas a mulher emancipada, o negro que reivindica direitos, o imigrante ou o militante de esquerda. O ressentimento é deslocado lateralmente, contra grupos igualmente submetidos à exploração, enquanto os proprietários e os administradores da riqueza desaparecem do campo de visão.
É nesse deslocamento que a categoria do lumpemproletariado ganha força para analisar o bolsonarismo. O bolsonarismo não inventou a precariedade brasileira, mas soube convertê-la em identidade política. Sua linguagem combina a exaltação da força individual, a desconfiança de toda mediação coletiva e a promessa de restauração de uma ordem imaginária. O trabalhador deve ser um guerreiro; o chefe, um homem de pulso; o Estado, quando garante direitos, é um obstáculo, mas quando reprime ou protege negócios privados, torna-se desejável.
As motociatas e as comunidades digitais bolsonaristas expressaram essa operação em registros diferentes, mas conectados. A motocicleta, o uniforme, a arma simbólica, a bandeira e o vídeo compartilhável funcionam como signos de pertencimento para sujeitos submetidos à instabilidade. Não é preciso supor que todos os participantes sejam socialmente desorganizados ou que todos os trabalhadores precarizados apoiem a extrema direita. Basta perceber que o movimento oferece uma forma de pertencimento pronta, baseada na oposição a inimigos construídos e na identificação emocional com um líder que se apresenta como alguém sem filtros.
O fascismo administra o abandono
O fascismo se alimenta da dissolução dos vínculos, mas não quer superar suas causas. Ele administra o abandono. Em vez de universalizar direitos, oferece reconhecimento seletivo; em vez de fortalecer organizações populares, oferece comunidade imaginária; em vez de enfrentar o poder econômico, oferece inimigos internos. A massa é convocada a sentir-se soberana enquanto permanece materialmente dependente.
Le Bon ajuda a compreender como a multidão pode ser mobilizada por imagens, repetições e afetos mais do que por argumentos coerentes. Mas a psicologia da multidão não deve ser usada para culpar a irracionalidade dos indivíduos. O que importa é saber quem fabrica as imagens, quem controla os canais de circulação e quais interesses se beneficiam da conversão de uma frustração social em ódio político. Na sociedade do espetáculo, a indignação também pode ser uma mercadoria: circula, produz audiência e mantém a atenção distante das relações concretas de exploração.
As plataformas digitais radicalizam esse mecanismo. Elas não apenas distribuem conteúdos; organizam a visibilidade, selecionam estímulos e recompensam a reação mais intensa. O usuário que trabalha sob avaliação algorítmica também consome uma política marcada por métricas, rankings e disputas de exposição. A tecnologia aparece como meio neutro, mas realiza uma forma de poder: individualiza problemas, monitora comportamentos e transforma a participação pública em desempenho mensurável.
Por isso, chamar indiscriminadamente de lumpemproletariado todo trabalhador pobre é uma operação conservadora. Ela substitui a análise da exploração por uma classificação moral e entrega a extrema direita o monopólio da dignidade. O entregador não precisa ser educado para aceitar sua condição; precisa reconhecer que sua autonomia prometida é uma relação de dependência sem direitos. O trabalhador informal não precisa ser tratado como ameaça social; precisa encontrar meios de organização que convertam a vulnerabilidade em força coletiva.
Contra a lumpemproletarização da política
A questão decisiva não é descobrir quais indivíduos merecem o rótulo, mas identificar as condições que produzem uma política lumpemproletarizada: fragmentada, ressentida, facilmente capturada e orientada contra os próprios explorados. A resposta não está em idealizar uma classe trabalhadora já unificada. Ela está em reconstruir mediações concretas: sindicato, associação, movimento de bairro, escola pública, partido, cooperativa e formas de solidariedade que enfrentem a competição entre indivíduos.
Sem isso, a precarização continuará sendo traduzida como destino pessoal, e o ódio continuará funcionando como compensação imaginária para a impotência real. A luta contra o bolsonarismo não se reduz a desmentir suas mentiras nas redes. Exige disputar as condições materiais e simbólicas que tornam suas mentiras plausíveis. O lumpemproletariado, entendido criticamente, não é o nome de uma humanidade descartável. É o aviso de que uma sociedade que destrói a organização dos trabalhadores pode transformar a própria desagregação em arma contra eles.
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