Populismo é uma forma de articulação política que reúne demandas sociais diversas sob a imagem de um “povo” contraposto a uma elite, instituição ou grupo definido como responsável pelos males coletivos. Não designa, por si só, uma ideologia fechada de esquerda ou direita: pode mobilizar reivindicações por direitos, renda e participação popular, mas também converter frustrações reais em nacionalismo, racismo, culto ao chefe e perseguição a inimigos. O ponto decisivo é perguntar quem é chamado de povo, quem é posto para fora dele e qual projeto de poder dá conteúdo a essa oposição.

Origem e disputa em torno do conceito

A palavra populismo costuma ser usada como xingamento por comentaristas e elites políticas: tudo o que fala diretamente com as maiorias, critica privilégios ou foge ao vocabulário técnico passa a ser chamado de populista. Esse uso é útil para desqualificar conflitos sociais legítimos. Uma greve, uma demanda por salário, uma denúncia da desigualdade ou a defesa de serviços públicos podem ser reduzidas à “demagogia” quando ameaçam interesses estabelecidos.

Ernesto Laclau deslocou esse debate. Para ele, o populismo não é simplesmente uma mentira contada às massas nem um desvio irracional da política. É uma lógica de construção de uma fronteira: de um lado, demandas populares que não encontram resposta nas instituições; de outro, o poder que as bloqueia. Quando reivindicações distintas — moradia, transporte, trabalho, saúde, reconhecimento — passam a se perceber como parte de uma mesma frustração, elas podem formar uma cadeia de equivalências e produzir o sujeito político chamado povo.

Essa formulação ajuda a entender que “o povo” não é uma coisa natural, homogênea ou automaticamente virtuosa. É uma construção disputada. Mas ela também exige uma crítica materialista: as demandas não surgem num vazio discursivo. Elas nascem de relações concretas de exploração, desemprego, racismo, precarização e concentração da riqueza. Se a análise esquece classe, propriedade e trabalho, o populismo pode parecer apenas uma técnica de linguagem, quando é também uma disputa sobre quem controla a economia e o Estado.

Como o populismo opera

O populismo organiza insatisfações dispersas por meio de símbolos, palavras de ordem e lideranças que prometem representar uma unidade popular. A oposição entre povo e elite simplifica uma realidade social complexa, o que pode ter efeitos contraditórios. Ela pode dar visibilidade a quem era tratado como ruído: trabalhadores informais, moradores das periferias, usuários abandonados dos serviços públicos. Mas pode igualmente apagar diferenças fundamentais dentro do próprio “povo”.

Um entregador de aplicativo, por exemplo, pode compartilhar a revolta contra tarifas, impostos ou políticos com um pequeno empresário. Porém, sua condição é marcada pela dependência de plataformas que controlam preço, acesso ao trabalho e avaliação algorítmica. Uma retórica que fale genericamente em “empreendedores brasileiros” pode unir essas pessoas na superfície, enquanto encobre a exploração específica do trabalhador plataformizado. O mesmo vale para a professora sobrecarregada e para o operador de call center: ambos podem ser convocados como parte do povo, mas a crítica efetiva precisa nomear jornadas, metas, terceirização, baixos salários e o poder patronal.

Por isso, o populismo democrático não se mede apenas pelo tom popular de um discurso. Ele depende de ampliar organização coletiva, direitos e capacidade de decisão dos trabalhadores. Já o populismo autoritário transforma o povo em massa obediente, encarnada num líder. Em vez de enfrentar a classe dominante e os mecanismos econômicos que produzem desigualdade, oferece bodes expiatórios: imigrantes, pobres, servidores, movimentos sociais, minorias ou uma suposta conspiração cultural.

Populismo no Brasil hoje

No Brasil, a linguagem do povo tem longa história e aparece em projetos muito diferentes. Ela pode expressar a demanda por inclusão de maiorias historicamente excluídas; pode também ser capturada por oligarquias, igrejas empresariais, redes de desinformação e aparelhos policiais. O conflito não está entre uma política “populista” e outra supostamente pura, técnica e neutra. Está entre projetos que reconhecem ou ocultam as divisões de classe.

O bolsonarismo mostrou uma forma autoritária dessa operação. Falou em nome do “cidadão de bem” e contra “o sistema”, mas preservou interesses do agronegócio, do mercado financeiro e de setores empresariais. A figura do inimigo — esquerda, imprensa, universidades, movimentos sociais, povos indígenas — serviu para consolidar uma identidade agressiva. A crítica à elite foi seletiva: não mirava a propriedade concentrada ou a exploração do trabalho, e sim instituições e grupos transformados em alvos permanentes.

As plataformas digitais intensificam esse mecanismo. Algoritmos premiam indignação, simplificação e antagonismos fáceis; influenciadores podem se apresentar como voz espontânea do povo enquanto monetizam audiência e reproduzem interesses empresariais. Isso não significa que a internet tenha inventado o populismo, mas que oferece infraestrutura para sua circulação acelerada e personalizada.

Crítica: povo não basta

A contribuição de Laclau é importante porque recusa a arrogância liberal que trata as massas como incapazes de fazer política. Ainda assim, uma perspectiva anticapitalista precisa ir além da oposição abstrata entre povo e elite. Sem organizar trabalhadores, disputar a propriedade, enfrentar a financeirização e democratizar os meios de produção, a palavra povo pode ser usada para administrar a mesma ordem social com outra linguagem.

O problema não é falar em nome do povo; é fazê-lo sem indicar as relações que dividem esse povo e sem criar poder coletivo para transformá-las. Quando a unidade popular se torna dependência de um líder, abre-se caminho para a tutela. Quando se liga à organização de classe, à solidariedade e à ampliação concreta de direitos, ela pode se tornar força de democratização radical.