O significado de senso comum não está na soma neutra das opiniões de uma população. O senso comum é o modo pelo qual uma sociedade organiza explicações aparentemente evidentes para aquilo que, na verdade, resulta de relações históricas e disputas de poder. Quando um entregador afirma que é um empreendedor independente, embora dependa do aplicativo para receber pedidos, seja avaliado por clientes e possa perder sua renda por decisões automatizadas, não estamos diante apenas de uma opinião individual. Estamos diante de uma forma social de interpretar a própria exploração.

Essa interpretação interessa ao capitalismo porque converte relações coletivas em dramas privados. O salário baixo aparece como falta de esforço; o desemprego, como insuficiência de qualificação; a exaustão, como incapacidade de administrar o tempo; a desigualdade, como diferença de mérito. O senso comum não inventa essas ideias do nada. Ele recolhe fragmentos da experiência cotidiana, mistura valores religiosos, frases familiares, discursos empresariais, imagens da mídia e preconceitos sedimentados, até formar uma explicação que parece espontânea. Sua força está justamente em parecer não ter autor.

O significado de senso comum não é ignorância popular

Tratar o senso comum como simples ignorância é uma maneira elitista de perder o problema. Trabalhadores não aderem a determinadas ideias porque sejam incapazes de pensar. Muitas vezes, essas ideias oferecem uma linguagem disponível para nomear experiências contraditórias. Um professor submetido a metas, relatórios e avaliações pode acreditar que a solução para o desgaste é organizar melhor sua rotina porque a própria escola apresenta a precarização como desafio de desempenho. Um funcionário de call center pode repetir que basta conquistar uma promoção porque sua sobrevivência depende de acreditar que a hierarquia é uma escada aberta, mesmo quando a empresa renova contratos precários e intensifica o controle.

Antonio Gramsci chamou atenção para esse terreno contraditório. O senso comum contém concepções diferentes e até incompatíveis: uma pessoa pode defender que cada um deve cuidar da própria vida e, ao mesmo tempo, depender de redes de solidariedade para atravessar uma doença, uma demissão ou uma enchente. Pode repetir que o Estado não deve intervir na economia e cobrar auxílio público quando a empresa fecha. Pode admirar o rico como modelo de sucesso e sentir, na prática, que seu salário é apropriado por quem não trabalha diretamente na produção. A disputa política começa quando essas experiências fragmentadas deixam de ser explicadas como fracassos pessoais e passam a ser relacionadas às estruturas sociais.

Como a exploração se disfarça de escolha

O entregador de aplicativo é uma imagem precisa da ideologia neoliberal. Ele é chamado de parceiro, não de trabalhador; recebe uma tela com incentivos, não uma ordem direta; escolhe quando se conectar, mas precisa permanecer disponível nos horários de maior demanda para alcançar uma renda minimamente previsível. A linguagem da liberdade encobre uma dependência material. O aplicativo não precisa estar ao lado do trabalhador para discipliná-lo: o algoritmo distribui corridas, registra recusas, organiza avaliações e define condições que o usuário dificilmente consegue contestar.

Essa forma de controle é eficaz porque apresenta a subordinação como autonomia. O trabalhador assume os custos da motocicleta, do combustível, da manutenção e do risco de acidente. Quando a jornada se prolonga, a empresa pode afirmar que ele administra seu próprio tempo. A responsabilidade pelo resultado é deslocada para o indivíduo, enquanto a plataforma conserva o poder de organizar o mercado, extrair valor dos serviços e alterar suas regras sem negociação real. O senso comum traduz essa relação com frases como quem quer, corre atrás ou ninguém mandou aceitar. A aparência de escolha funciona como justificativa para a ausência de direitos.

É nesse ponto que a meritocracia deixa de ser apenas uma promessa enganosa e se torna uma tecnologia ideológica. Ela não precisa convencer todos de que a sociedade é justa. Basta fazer com que cada pessoa interprete a própria posição como prova de seu valor. O trabalhador que fracassa se culpa; o que melhora temporariamente sua renda acredita ter vencido por talento; os dois permanecem submetidos à mesma estrutura. A exceção é usada para negar a regra.

O senso comum brasileiro entre medo, mérito e ressentimento

No Brasil, o senso comum também é moldado pela desigualdade histórica. Em uma sociedade marcada por escravidão, concentração de renda e acesso seletivo a direitos, a ideia de que todos competem em condições iguais sempre foi uma ficção conveniente. Ela permite transformar privilégios herdados em competência individual e tratar políticas de reparação como favorecimento. O discurso contra cotas, por exemplo, raramente se apresenta como defesa explícita da hierarquia racial. Aparece como apelo à neutralidade: seria preciso avaliar apenas o mérito. Mas essa neutralidade ignora que as condições de formação, renda, moradia e acesso à escola são profundamente desiguais.

O bolsonarismo explorou esse material já existente. Sua força não veio de criar do zero o ressentimento contra pobres, professores, universidades, movimentos sociais e políticas de igualdade. Veio de organizar essas frustrações em uma narrativa política: o indivíduo honesto estaria cercado por inimigos, o Estado seria apropriado por parasitas, a ciência seria conspiração, e a autoridade masculina resolveria a desordem. A multidão digital encontrou uma linguagem comum para medos distintos. Le Bon observou que a multidão tende a responder mais intensamente a imagens, repetições e símbolos do que a demonstrações racionais; nas redes, essa dinâmica é acelerada pela circulação de mensagens que recompensam indignação e pertencimento.

Isso não significa que todo senso comum seja fascista, nem que as pessoas sejam manipuladas como marionetes. Significa que o fascismo oferece uma síntese reacionária para contradições que o capitalismo não resolve. A precariedade deixa de ser atribuída à exploração e passa a ser projetada contra minorias, imigrantes, mulheres, militantes, professores ou qualquer grupo apresentado como obstáculo à recuperação de uma ordem imaginária. O ressentimento social é desviado para baixo, enquanto os proprietários do poder permanecem protegidos.

Quem produz aquilo que parece evidente

O senso comum não circula apenas em conversas familiares. Ele é fabricado e reforçado por instituições. A publicidade ensina que a realização depende do consumo; a empresa de tecnologia apresenta vigilância como conveniência; o discurso escolar transforma competição em preparação para a vida; o noticiário converte decisões econômicas em fatalidades técnicas. Na sociedade do espetáculo, descrita por Guy Debord, a experiência social é mediada por imagens que não apenas representam a realidade, mas organizam o modo de percebê-la. O trabalhador não vê simplesmente uma plataforma: vê uma promessa de independência, flexibilidade e ascensão.

A técnica também participa dessa produção de evidências. Heidegger mostrou que a técnica moderna não é apenas um conjunto de ferramentas disponíveis para uso humano; ela enquadra o mundo como estoque calculável. Aplicada ao trabalho, essa lógica transforma pessoas em indicadores de produtividade, tempo de resposta, pontuação e disponibilidade. O que não cabe na métrica — cansaço, medo, solidariedade, criatividade, sofrimento — aparece como ruído. A violência desaparece porque o sistema só reconhece aquilo que consegue contabilizar.

O resultado é uma experiência de alienação: o trabalhador produz as condições de sua vida, mas não controla a organização social que determina como produzir e quanto receber. Suas próprias capacidades aparecem diante dele como forças externas, pertencentes à empresa, ao aplicativo ou ao mercado. O senso comum dá acabamento cotidiano a essa alienação quando afirma que a tecnologia é neutra, que o mercado apenas responde à demanda ou que a pobreza é o preço inevitável do progresso.

Romper o senso comum é disputar a realidade

A crítica não consiste em substituir uma opinião popular por uma doutrina pronta. Consiste em reconstruir a ligação entre experiências que o senso comum separa. A exaustão do entregador, a ansiedade do professor, a vigilância no call center e o endividamento de uma família não são acidentes isolados. São manifestações de uma organização do trabalho orientada pela valorização do capital, na qual o direito e o Estado frequentemente estabilizam a propriedade e administram os efeitos da desigualdade, em vez de superá-la.

Essa reconstrução exige linguagem, organização e conflito. Quando trabalhadores se reconhecem como classe, a pergunta muda: não é mais por que determinado indivíduo não conseguiu vencer, mas quem define as regras da disputa e quem se apropria do resultado. A crítica ao senso comum só se torna material quando produz formas coletivas de ação — sindicato, associação, greve, movimento social, solidariedade concreta. Sem isso, a denúncia permanece como opinião esclarecida, incapaz de enfrentar as instituições que fabricam a aparência de naturalidade.

O senso comum é conservador quando transforma a história em destino. Mas não é uma prisão sem brechas. Nas greves, nas lutas por direitos, nas redes de apoio e nas revoltas contra a humilhação cotidiana, surgem elementos de uma consciência diferente. A tarefa política é fazer com que esses elementos deixem de parecer exceções individuais e se reconheçam como força social. O que hoje parece evidente — trabalhar sem direitos, competir por migalhas e agradecer ao aplicativo pela oportunidade — também foi produzido. E aquilo que foi produzido por relações de poder pode ser desfeito por uma ação coletiva capaz de nomear o conflito que a ideologia manda esconder.