Hegemonie é uma palavra estrangeira para um mecanismo muito familiar: a capacidade de uma classe dirigir a sociedade fazendo seus interesses parecerem interesse de todos. Não se trata apenas de mandar, ameaçar ou controlar instituições. A hegemonia capitalista funciona quando o entregador aceita a instabilidade como liberdade, quando o professor responsabiliza a si mesmo pelo colapso da escola e quando o trabalhador chama de oportunidade a necessidade de vender cada hora do próprio dia. No Brasil, essa fabricação do consentimento combina plataformas digitais, ideologia do mérito e guerra cultural.

A dominação não desaparece porque as pessoas repetem voluntariamente os valores de quem as domina. Ela se torna mais eficiente. O capital não precisa apresentar a exploração com seu nome histórico; basta oferecer uma narrativa na qual cada fracasso pareça defeito individual e cada privilégio apareça como recompensa legítima. A força continua existindo, sob a forma da demissão, da dívida, da fome e da polícia, mas é acompanhada por uma pedagogia cotidiana que ensina o trabalhador a interpretar sua própria submissão como escolha.

Hegemonie não é consenso espontâneo

A tradição marxista permite compreender que a sociedade não é organizada apenas pela circulação de ideias, mas pela estrutura material que define quem possui os meios de produzir, quem trabalha e quem decide. A contribuição de Gramsci está em mostrar que a classe dominante não governa somente por coerção: ela busca apresentar sua visão de mundo como senso comum. A hegemonia é esse exercício de direção intelectual e moral, sustentado por instituições, hábitos, linguagens e expectativas que parecem naturais.

Isso explica por que a meritocracia é tão persistente mesmo quando a experiência cotidiana a desmente. O entregador que pedala durante horas, sem salário fixo e sem proteção suficiente, é convidado a se enxergar como empreendedor. Seu instrumento de trabalho é seu próprio corpo; seu risco é tratado como investimento; sua exaustão, como disciplina. A plataforma não aparece como empregadora, mas como intermediária neutra entre indivíduos livres. A relação de classe é rebatizada como parceria.

O aplicativo, nesse sentido, não é apenas uma ferramenta. Ele organiza a jornada, distribui pedidos, avalia desempenho e condiciona a renda a uma lógica que o trabalhador não controla. O algoritmo apresenta decisões econômicas como se fossem resultados técnicos. A opacidade da empresa é convertida em objetividade da máquina. O trabalhador não discute com um patrão identificável; obedece a uma pontuação, a uma taxa, a um bloqueio que parece automático. A tecnologia torna a dominação menos visível sem torná-la menos concreta.

O mérito como máscara da exploração

A ideologia do mérito realiza uma operação simples e devastadora: transforma desigualdades sociais em diferenças morais. Quem acumula renda é visto como mais competente, esforçado ou disciplinado. Quem perde o emprego é suspeito de não ter se qualificado o suficiente. Quem trabalha em dois turnos e continua endividado recebe cursos sobre organização financeira, como se o problema fosse administrar melhor uma renda insuficiente.

No call center, a promessa de crescimento convive com metas que fragmentam o tempo e tornam cada pausa um desvio. Na escola, professores são pressionados por resultados enquanto lidam com salas superlotadas, salários corroídos e falta de estrutura. Em ambos os casos, a organização do trabalho desaparece atrás da responsabilidade individual. O trabalhador é avaliado como unidade isolada, mesmo quando sua produtividade depende de decisões empresariais e políticas públicas que ele não pode determinar.

Essa é a face cotidiana da alienação: o indivíduo se relaciona com forças sociais produzidas coletivamente como se fossem poderes externos e inevitáveis. O mercado parece uma lei natural; o algoritmo, uma inteligência imparcial; a carreira, uma competição justa. A sociedade deixa de reconhecer a si mesma nas instituições que criou. O que é resultado de escolhas políticas aparece como destino.

A hegemonia se fortalece justamente porque oferece uma explicação emocional para essa impotência. Se o trabalhador não consegue ascender, a culpa é sua. Se a escola não funciona, o professor é incompetente. Se a cidade é desigual, faltaria esforço aos pobres. Ao deslocar o conflito da estrutura para a conduta individual, o discurso meritocrático desarma a solidariedade. Cada pessoa passa a enxergar a outra como concorrente, ameaça ou prova viva de seu próprio fracasso.

Da precarização à guerra cultural

O bolsonarismo compreendeu e explorou esse terreno. Sua força não veio apenas de um programa econômico favorável às elites ou de uma retórica autoritária. Veio também da capacidade de transformar inseguranças materiais em ressentimento político. Em vez de nomear o poder de bancos, grandes empresas, plataformas e proprietários, a guerra cultural oferece inimigos mais próximos e vulneráveis: professores, artistas, jornalistas, movimentos sociais, mulheres, pessoas LGBT, pobres organizados.

Essa operação não é um desvio acidental do debate econômico. Ela protege a hegemonia capitalista ao impedir que a frustração se converta em consciência de classe. O trabalhador indignado com a precarização é convidado a odiar quem defende direitos. O pequeno comerciante esmagado por dívidas é levado a imaginar que seu problema é o excesso de democracia. O cidadão exausto da violência é convencido de que mais punição, e não menos desigualdade, resolverá sua insegurança.

A sociedade do espetáculo, descrita por Debord, ajuda a entender esse deslocamento. A experiência social é mediada por imagens, conflitos e personagens que substituem a compreensão das relações reais. A política se converte em permanente encenação de identidade. O debate público gira em torno de gestos, frases, escândalos e inimigos simbólicos, enquanto as decisões sobre trabalho, propriedade e renda permanecem protegidas da atenção coletiva.

As redes sociais aceleram esse processo porque recompensam a reação imediata. O conteúdo mais inflamado circula melhor do que a explicação paciente; a indignação individual substitui a organização comum. A plataforma não precisa produzir cada opinião para governar o campo em que as opiniões disputam atenção. Sua arquitetura favorece a fragmentação, a vigilância e a transformação do conflito político em consumo contínuo de estímulos.

O Estado por trás da aparência de liberdade

A hegemonia não significa ausência do Estado. Ao contrário, o Estado organiza as condições jurídicas e materiais para que a concorrência pareça natural e a propriedade privada permaneça protegida. O direito apresenta os indivíduos como formalmente livres e iguais, mas essa igualdade abstrata convive com uma desigualdade concreta: de um lado, quem possui capital, plataformas e patrimônio; de outro, quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.

Como observa Alysson Mascaro ao tratar da forma política do capitalismo, o Estado não é um árbitro exterior às relações econômicas. Sua autonomia relativa permite que ele apareça como representante do interesse geral, embora assegure a reprodução de uma sociedade fundada na exploração. A lei pode reconhecer direitos e, ao mesmo tempo, organizar os limites dentro dos quais esses direitos não ameacem a acumulação.

É por isso que a linguagem da liberdade precisa ser examinada com cuidado. A liberdade do trabalhador de aceitar ou recusar uma corrida não equivale à liberdade de escolher não vender sua força de trabalho quando aluguel, comida e transporte dependem dessa renda. A liberdade empresarial de definir regras na plataforma não é uma liberdade entre iguais. É o poder de estabelecer as condições às quais milhões terão de se adaptar.

Romper o senso comum da submissão

Criticar a hegemonia não significa imaginar que bastaria revelar uma verdade escondida para libertar a sociedade. A consciência não nasce fora das condições materiais. Ela se forma na disputa por tempo, organização, linguagem e poder. O entregador só pode deixar de interpretar sua exploração como fracasso pessoal quando encontra outros trabalhadores, identifica padrões comuns e transforma a experiência isolada em reivindicação coletiva.

Romper com a hegemonia do capital exige disputar as instituições e também o cotidiano. Significa rejeitar a ideia de que todo problema social é uma falha de caráter, recolocar o trabalho no centro da política e tratar tecnologia como campo de conflito, não como destino inevitável. Significa defender direitos que reduzam a dependência individual diante das empresas e criar formas de controle social sobre as decisões que hoje aparecem como automáticas.

A hegemonia capitalista parece invencível quando consegue fazer sua própria história desaparecer. A exploração vira oportunidade, a desigualdade vira mérito e o autoritarismo vira proteção. Mas aquilo que foi produzido socialmente também pode ser reorganizado socialmente. O consentimento não é uma essência do povo; é um resultado disputado. A tarefa política começa quando a linguagem do fracasso individual deixa de encobrir a estrutura que produz tantos fracassados e passa a nomear o conflito que os separa dos proprietários do mundo.