Hegemonia não é apenas liderança, maioria eleitoral ou domínio exercido pela força. É a capacidade de uma classe apresentar seus interesses particulares como se fossem o interesse de todos, fazendo com que uma ordem social historicamente construída pareça natural, inevitável e até desejável. No Brasil, essa operação aparece quando o entregador de aplicativo é chamado de empreendedor, quando a pobreza é tratada como falha individual e quando a defesa dos privilégios se apresenta como defesa da liberdade.
Essa é a diferença entre explicar o conceito e compreender sua função política. A hegemonia não vive somente nos discursos oficiais do governo ou nas opiniões dos grandes empresários. Ela atravessa a escola, a publicidade, os noticiários, as igrejas, as plataformas digitais, as relações familiares e o modo como cada trabalhador interpreta a própria vida. Seu êxito se mede pelo momento em que a exploração deixa de ser percebida como exploração e passa a ser narrada como oportunidade.
Hegemonia é a fabricação do senso comum
Antonio Gramsci formulou o conceito para explicar por que a dominação burguesa não depende permanentemente de uma repressão visível. O Estado conserva a coerção, mas a classe dominante também precisa dirigir moral e intelectualmente a sociedade. Ela precisa convencer os dominados de que suas categorias de pensamento são razoáveis, de que não existe alternativa prática e de que a desigualdade resulta de diferenças naturais de talento, esforço ou disciplina.
Isso não significa que o consentimento seja livre ou que a coerção tenha desaparecido. O trabalhador que aceita uma jornada exaustiva porque precisa pagar o aluguel não está diante de uma escolha abstratamente livre. A ausência de direitos, a ameaça do desemprego e a dependência do salário delimitam brutalmente o campo de decisão. A hegemonia atua justamente nesse campo estreito: ela transforma uma imposição material em decisão pessoal e uma necessidade social em projeto individual.
O senso comum, nesse sentido, não é uma opinião qualquer. É um conjunto contraditório de ideias, hábitos e valores sedimentados pela experiência social. Um trabalhador pode reconhecer que o aplicativo reduz sua remuneração, mas ainda assim acreditar que o problema é sua falta de organização. Pode reclamar da jornada e defender que cada pessoa deve vencer sozinha. A contradição não é um defeito psicológico isolado; é o efeito de uma sociedade que produz a dependência e, ao mesmo tempo, ensina seus indivíduos a interpretá-la como fracasso privado.
Do entregador empreendedor ao trabalhador invisível
O entregador de aplicativo oferece uma imagem concreta da hegemonia neoliberal. Ele trabalha com sua bicicleta ou motocicleta, assume os custos de combustível, manutenção, seguro e risco de acidente, permanece disponível por longos períodos e pode ser punido por avaliações ou bloqueios. A empresa, entretanto, não o apresenta como empregado submetido a uma relação de exploração. Apresenta-o como parceiro, autônomo, dono do próprio tempo.
A linguagem não descreve apenas a realidade: ela organiza a realidade. Ao chamar o trabalhador de empreendedor, a plataforma desloca para ele os custos e as responsabilidades que antes seriam associados à empresa. Se a renda cai, a explicação dominante não procura a estrutura da remuneração, o poder algorítmico ou a concentração econômica. Procura a produtividade insuficiente do indivíduo. A exploração permanece, mas muda de nome.
O algoritmo intensifica essa operação porque converte a autoridade empresarial em uma sequência aparentemente neutra de notificações, mapas, metas e pontuações. Não há necessariamente um supervisor gritando, mas há um sistema que distribui corridas, calcula desempenho e pode restringir o acesso ao trabalho. A técnica aparece como ferramenta objetiva, embora esteja organizada para atender à valorização do capital. O trabalhador obedece a uma forma de comando que se apresenta como cálculo.
Guy Debord ajuda a compreender esse processo ao mostrar que, na sociedade do espetáculo, as relações sociais são mediadas por representações. O entregador não é apenas explorado; ele é convidado a representar a si mesmo como alguém livre, flexível e em ascensão. A imagem do empreendedor substitui a experiência concreta da dependência. O espetáculo não esconde a precariedade por simples mentira: ele oferece uma forma social em que a precariedade pode ser vivida como promessa de autonomia.
A escola, o mercado e a moral do mérito
A hegemonia neoliberal não se limita ao trabalho por aplicativo. Ela alcança o professor submetido a metas, avaliações e plataformas de desempenho; o funcionário de call center monitorado por tempo de atendimento; o trabalhador de depósito controlado por produtividade; a pessoa desempregada obrigada a transformar sua vida em currículo permanente. Em todos esses casos, a pressão econômica é acompanhada por uma pedagogia moral: quem não acompanha o ritmo deve aperfeiçoar-se, adaptar-se e responsabilizar-se.
A meritocracia cumpre papel decisivo nessa pedagogia. O mérito existe como esforço individual, mas a meritocracia é a ideologia que usa esse esforço para justificar resultados socialmente desiguais. Ela apaga a origem de classe, a qualidade da escola, o acesso à saúde, a existência de redes de proteção e a posição ocupada na divisão social do trabalho. Quando um vencedor afirma que chegou lá sozinho, sua narrativa pode ocultar justamente as condições coletivas que tornaram sua trajetória possível.
O Estado participa dessa construção, inclusive quando se apresenta como árbitro neutro entre indivíduos equivalentes. Como mostra Alysson Mascaro, o Estado moderno não é um instrumento externo às relações capitalistas, acionado ocasionalmente por uma classe. Sua própria forma jurídica produz sujeitos livres e iguais perante a lei, enquanto a economia os coloca em posições profundamente desiguais. O trabalhador pode vender formalmente sua força de trabalho em igualdade jurídica com o proprietário, mas não possui os mesmos recursos para recusar a venda.
A crise da hegemonia e a força do bolsonarismo
O bolsonarismo não surgiu porque milhões de pessoas abandonaram toda racionalidade. Ele cresceu sobre uma crise da direção política tradicional, na qual instituições, partidos e promessas de inclusão perderam credibilidade sem que uma alternativa anticapitalista se tornasse dominante. Nesse espaço, a extrema direita reorganizou ressentimentos reais por meio de explicações falsas ou regressivas.
O aumento da insegurança, a precarização do trabalho, o medo da perda de status e a desconfiança em relação às instituições foram deslocados para inimigos convenientes: professores, pobres, movimentos sociais, mulheres, pessoas negras, comunistas imaginários e minorias sexuais. A classe dominante não precisa convencer todos de uma doutrina coerente. Basta oferecer uma narrativa capaz de canalizar a revolta para alvos que não ameacem a propriedade e o poder econômico.
A psicologia das multidões de Gustave Le Bon, embora marcada por limites conservadores, permite observar como afetos coletivos podem substituir a deliberação racional quando uma massa é submetida a símbolos, repetições e inimigos comuns. No bolsonarismo, a disputa política foi convertida em liturgia de pertencimento: bandeiras, palavras de ordem, vídeos curtos, gestos e agressões funcionam como sinais de uma comunidade ameaçada. A adesão não depende da consistência das propostas, mas da sensação de identidade e combate.
As redes sociais aceleram esse mecanismo, mas não o inventam. A tecnologia oferece velocidade, segmentação e vigilância; a base social do fenômeno está nas contradições materiais do capitalismo brasileiro. Tratar o bolsonarismo apenas como produto de notícias falsas é insuficiente. A mentira se torna politicamente eficaz quando encontra insegurança, desamparo e uma experiência cotidiana que não consegue ser explicada pela esquerda de modo acessível e organizado.
Disputar o senso comum é disputar a realidade
Se a hegemonia fosse apenas propaganda, bastaria desmentir cada mentira para derrotá-la. Mas a dominação se reproduz também pela organização material da vida. Não se disputa o senso comum apenas com argumentos corretos, e sim construindo experiências coletivas capazes de tornar outra interpretação plausível. Um sindicato que enfrenta o bloqueio algorítmico, uma associação de entregadores que transforma queixas individuais em reivindicação comum e uma escola que relaciona a precarização dos professores à estrutura do trabalho produzem mais do que informação: produzem consciência organizada.
A tarefa é revelar o vínculo entre aquilo que parece privado e aquilo que é social. A ansiedade do trabalhador, a dívida da família, a exaustão do professor e o medo do desemprego não são problemas de caráter. São experiências produzidas por relações de classe. A crítica perde força quando apenas denuncia a ideologia de fora; ela ganha força quando mostra, na vida concreta, como a promessa de liberdade está presa à obrigação de vender a própria força de trabalho.
A hegemonia burguesa permanece poderosa porque combina dinheiro, instituições, tecnologia, coerção e produção cultural. Mas ela não é invencível nem eterna. Toda hegemonia precisa renovar sua promessa, administrar suas contradições e neutralizar as experiências que poderiam revelar seu funcionamento. Quando o entregador reconhece que não é empreendedor, mas trabalhador; quando o professor entende que a meta não mede seu valor, mas intensifica a exploração; quando a revolta deixa de procurar bodes expiatórios e encontra sua causa social, abre-se uma ruptura no senso comum.
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