Hegemônicos não são apenas os grupos que ocupam o topo da hierarquia social. Hegemônicos são os sentidos que conseguem se apresentar como naturais, inevitáveis e até desejáveis. No Brasil, um entregador que aceita uma jornada interminável, um professor submetido a metas e um eleitor seduzido pelo bolsonarismo aparecem como indivíduos fazendo escolhas isoladas. A estrutura que organiza essas escolhas desaparece. É justamente aí que a dominação vence: quando deixa de parecer dominação.
A hegemonia não funciona somente pela força, pela censura ou pela ordem explícita. Ela organiza o campo do pensável. Define o que parece razoável, moderno, responsável e possível. O trabalhador deve agradecer à plataforma pela oportunidade; o desempregado deve converter a própria sobrevivência em empreendedorismo; o cidadão deve interpretar direitos sociais como privilégios indevidos. Essa gramática não precisa ser repetida por um ministro ou por um patrão. Ela circula na publicidade, nos aplicativos, nas escolas, nos telejornais e nas conversas ordinárias, até parecer a voz espontânea da realidade.
Hegemônicos são os sentidos antes de serem os vencedores
A disputa política mais profunda não ocorre apenas entre partidos, governos ou candidatos. Ela ocorre antes, na definição das palavras com que uma sociedade interpreta a própria experiência. Se um entregador é chamado de parceiro, a relação de trabalho deixa de aparecer como relação de exploração. Se a vigilância algorítmica é apresentada como ferramenta de eficiência, o controle sobre o tempo e o corpo do trabalhador passa a ser confundido com inovação. Se a pobreza é descrita como falta de esforço, a desigualdade deixa de ser uma questão política e se torna defeito moral.
Essa operação é ideológica porque não precisa falsificar todos os fatos. O entregador realmente pode escolher quando ligar o aplicativo. A plataforma realmente pode oferecer alguma flexibilidade em comparação com um emprego formal. O professor realmente pode melhorar seu desempenho quando recebe metas claras. O problema está na parte omitida: a liberdade formal convive com a necessidade material, e a escolha individual é feita dentro de condições que não foram escolhidas pelo indivíduo. A ideologia não inventa uma realidade paralela; ela recorta a realidade de modo a esconder a relação que a sustenta.
Marx mostrou que, no capitalismo, as relações sociais aparecem como relações entre coisas. No trabalho por aplicativo, esse fetichismo adquire uma aparência digital: a relação entre capital e trabalho é mediada por uma tela, uma pontuação, uma rota e um sistema de distribuição de pedidos. Não há necessariamente um gerente ao lado do trabalhador, mas há regras que definem sua remuneração, seu ritmo e sua permanência. A ausência física do patrão não elimina o comando; torna o comando menos visível.
O aplicativo como fábrica dispersa
Considere a rotina de um entregador em uma grande cidade brasileira. Ele arca com veículo, combustível, manutenção, riscos do trânsito e períodos sem chamada. Para elevar a renda, precisa ampliar a disponibilidade, aceitar deslocamentos e acompanhar as variações da demanda. A plataforma se apresenta como intermediária tecnológica, não como empregadora. Assim, o custo da operação é empurrado para o trabalhador enquanto a empresa preserva o controle sobre o acesso aos clientes e sobre a distribuição do trabalho.
A tela transforma a exploração em uma sequência de decisões pessoais. Aceitar ou recusar uma corrida, permanecer conectado, buscar uma região mais movimentada, cumprir uma meta de entregas: cada ato parece uma escolha autônoma. Mas o conjunto dessas escolhas é moldado por remunerações variáveis, avaliações, incentivos e ameaças de bloqueio. O trabalhador administra a própria subordinação. A empresa não precisa ordenar cada movimento quando o sistema já produziu alguém compelido a monitorar a si mesmo.
Essa forma de controle é particularmente eficaz porque combina precariedade material e linguagem de autonomia. O trabalhador é convidado a se imaginar como dono do próprio negócio, embora não controle o preço do serviço, o acesso à clientela, os critérios do algoritmo nem as condições gerais do mercado. A ideologia do empreendedorismo converte a ausência de direitos em prova de independência. O fracasso, quando chega, retorna como culpa individual: faltou disciplina, planejamento, qualificação ou disposição para vencer.
A hegemonia no trabalho, na escola e na tela
A mesma lógica atravessa profissões menos associadas à tecnologia. No call center, a voz do atendente é cronometrada, gravada e avaliada por indicadores. Na escola, o professor responde a metas e formulários que prometem medir a qualidade do ensino enquanto reduzem o trabalho pedagógico a desempenho quantificável. Em todos esses espaços, a linguagem da eficiência apresenta a intensificação do trabalho como aperfeiçoamento técnico.
A técnica não é neutra quando é organizada para aumentar a extração de valor. Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a revelar o mundo como estoque disponível. No capitalismo, essa lógica alcança também as pessoas: o professor vira recurso humano, o entregador vira unidade de entrega, o estudante vira dado de desempenho e o consumidor vira perfil previsível. A tecnologia não apenas executa uma decisão empresarial; ela ajuda a tornar essa decisão invisível, impessoal e difícil de contestar.
Guy Debord chamou de espetáculo a forma social em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Nas plataformas, o espetáculo não se limita à publicidade. A própria vida profissional passa a ser exibida como painel: estrelas, níveis, selos, rankings, notificações e gráficos. A exploração precisa parecer experiência de consumo. O trabalhador não vê somente o comando; vê uma interface que lhe oferece objetivos, recompensas e a promessa de progresso. A submissão é revestida de design.
Do senso comum ao bolsonarismo
O bolsonarismo soube explorar um terreno já preparado por essa hegemonia. Sua força não depende apenas de mentiras específicas ou da personalidade de Jair Bolsonaro. Ela se apoia em uma visão de mundo que transforma conflitos sociais em ressentimentos individuais: o trabalhador contra o beneficiário de políticas públicas, o cidadão contra a universidade, a família contra os direitos humanos, o contribuinte contra qualquer forma de solidariedade coletiva.
Essa política oferece inimigos concretos para problemas cuja origem permanece protegida. A precarização do trabalho não é atribuída à concentração de renda e ao poder das empresas, mas a sindicatos, servidores, imigrantes, professores ou supostas elites culturais. A revolta é mobilizada, mas desviada. O indivíduo precarizado recebe uma explicação que preserva a estrutura responsável por sua insegurança.
Le Bon percebeu que as multidões podem ser organizadas por imagens, afetos e palavras de ordem mais do que por argumentos consistentes. Nas redes sociais, essa dinâmica é acelerada pela repetição e pela indignação permanente. A política vira uma disputa por estímulos: humilhação, medo, orgulho nacional, suspeita e revanche. A multidão digital não é uma massa sem inteligência; é uma coletividade submetida a mecanismos que premiam a simplificação e castigam a demora necessária ao pensamento.
Por isso, combater o bolsonarismo não consiste apenas em desmentir uma publicação ou substituir um candidato por outro. É preciso romper a gramática que faz a solidariedade parecer fraqueza e a desigualdade parecer resultado natural do mérito. Sem essa ruptura, o neofascismo pode perder uma eleição e conservar sua infraestrutura moral, seus inimigos preferenciais e sua concepção autoritária de liberdade.
O Estado também organiza o que parece natural
O Estado não aparece somente como árbitro externo dos conflitos sociais. Como observa Alysson Mascaro, a forma política estatal está ligada à forma mercantil do capitalismo. O Estado garante condições gerais para que indivíduos juridicamente livres possam trocar sua força de trabalho, mesmo quando essa liberdade esconde dependência econômica. A igualdade diante da lei convive, assim, com desigualdades materiais profundas.
Isso ajuda a entender por que a linguagem dos direitos pode coexistir com a expansão da informalidade. O trabalhador é formalmente livre para contratar, recusar ou negociar, mas enfrenta a necessidade de aceitar condições estabelecidas por empresas muito mais poderosas. A lei reconhece indivíduos iguais; o mercado os coloca em posições radicalmente desiguais. A hegemonia transforma essa contradição em evidência de normalidade.
Não se trata de negar toda possibilidade de autonomia individual. Trata-se de recusar a mentira de que a autonomia pode ser medida sem considerar quem controla os meios, os dados, o tempo e as condições de sobrevivência. A liberdade de escolher entre jornadas ruins não é a mesma liberdade de decidir coletivamente como o trabalho deve ser organizado.
Desmontar a hegemonia começa pelo que ela esconde
Uma crítica social consequente não deve se limitar a denunciar palavras de ordem. Precisa reconstruir as relações materiais que essas palavras ocultam. Quando uma empresa chama o empregado de parceiro, é preciso perguntar quem define o preço e quem assume o risco. Quando a plataforma promete flexibilidade, é preciso verificar quem controla o tempo de trabalho. Quando o político fala em mérito, é preciso perguntar por que alguns começam a corrida com patrimônio, contatos e segurança, enquanto outros começam endividados e sem proteção.
A disputa contra os sentidos hegemônicos não é uma batalha abstrata de opiniões. Ela passa pela organização concreta dos trabalhadores, pela defesa de direitos, pela democratização das tecnologias e pela capacidade de produzir interpretações coletivas sobre experiências que o capitalismo insiste em privatizar. O entregador não é um empreendedor fracassado; é um trabalhador submetido a uma forma renovada de comando. O professor exausto não é incompetente por não alcançar uma meta impossível; está inserido em uma política de intensificação. O cidadão revoltado não precisa ser abandonado ao fascismo para que sua revolta seja compreendida.
O poder se torna hegemônico quando consegue fazer com que suas próprias condições de existência desapareçam. Recuperar essas condições é devolver conflito ao que parecia destino. A dominação pode continuar forte, mas deixa de ser invisível. E aquilo que pode ser visto, nomeado e relacionado a interesses sociais já não possui a mesma facilidade para se apresentar como inevitável.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu comentário será publicado após aprovação.