O que é hegemonia? Não é simplesmente mandar, controlar ou vencer uma disputa eleitoral. Hegemonia é a capacidade de uma classe transformar seus interesses particulares em aparência de interesse geral, fazendo com que uma ordem social historicamente construída pareça natural, inevitável e até desejável. No Brasil, ela opera quando o entregador de aplicativo interpreta sua jornada sem fim como empreendedorismo, quando o professor aceita a destruição das condições de trabalho como modernização e quando o trabalhador precarizado responsabiliza a si mesmo pelo fracasso produzido pelo capital.

O conceito, desenvolvido por Antonio Gramsci, não reduz o poder à coerção exercida pelo Estado. A dominação capitalista também precisa produzir consentimento, organizar valores e definir aquilo que uma sociedade considera razoável. A polícia pode reprimir uma greve, mas a hegemonia trabalha antes disso: convence parte dos próprios trabalhadores de que a greve é irresponsabilidade, que direitos são privilégios e que a empresa, apesar de explorar sua força de trabalho, é uma parceira de oportunidades.

O que é hegemonia na vida concreta

A hegemonia aparece quando uma relação de exploração é apresentada como escolha individual. O entregador não é chamado de trabalhador submetido a uma plataforma que controla preços, rotas, avaliações e acesso à renda. Ele é chamado de parceiro. A palavra não descreve a relação real; reorganiza sua percepção. Entre a empresa de tecnologia e o motociclista não existe uma parceria entre iguais, mas uma relação assimétrica na qual a plataforma concentra dados, define regras e transfere custos, riscos e manutenção para quem trabalha.

Esse deslocamento linguístico tem efeitos materiais. Se o entregador é um empreendedor, sua motocicleta vira investimento, seu tempo de espera vira problema de gestão e seu adoecimento vira falta de disciplina. A empresa desaparece como empregadora, embora continue determinando aspectos centrais da atividade. A ideologia não inventa uma mentira qualquer: ela retira do campo de visão a estrutura que organiza a experiência. O trabalhador continua sentindo cansaço, insegurança e dependência, mas aprende a nomeá-los como insuficiência pessoal.

É assim que o capital produz consentimento sem precisar convencer todos de que estão felizes. Basta fazer parecer que não há alternativa. A hegemonia não exige uma adesão consciente e entusiasmada; pode funcionar como resignação, cinismo e isolamento. O sujeito sabe que o trabalho é injusto, mas acredita que sua única saída é competir melhor dentro da injustiça. Essa é uma forma particularmente eficiente de alienação: a estrutura permanece intacta porque cada indivíduo é empurrado a administrar privadamente um problema coletivo.

O senso comum é uma disputa de classes

Para Gramsci, o senso comum não é uma coleção neutra de opiniões populares. Ele reúne ideias contraditórias, fragmentos de experiências e valores difundidos pelas instituições dominantes. Uma pessoa pode defender a solidariedade no bairro e, ao mesmo tempo, afirmar que quem está desempregado não se esforçou o suficiente. Pode denunciar a corrupção de políticos e aceitar que empresas comprem decisões públicas em nome da eficiência. A hegemonia trabalha justamente nessas contradições, oferecendo uma interpretação pronta para a realidade.

A meritocracia é uma das formas mais poderosas dessa operação no capitalismo brasileiro. Ela converte desigualdades produzidas por classe, raça, gênero, território e acesso a serviços públicos em diferenças aparentemente individuais de talento. O filho da classe trabalhadora que abandona a escola para trabalhar não aparece como vítima de uma estrutura; aparece como alguém que não aproveitou sua chance. Já a riqueza herdada, a rede de contatos e a propriedade acumulada são reembaladas como resultado de esforço e competência.

O discurso meritocrático não precisa negar toda desigualdade. Ele pode até reconhecer que existem obstáculos, desde que preserve a conclusão principal: cada indivíduo continua sendo o principal responsável por sua posição. Com isso, a luta por direitos é substituída por treinamento, a organização coletiva por marca pessoal e a política por gestão de desempenho. O professor submetido a metas, plataformas educacionais e avaliações contínuas deixa de ser visto como trabalhador intelectual e passa a funcionar como operador de indicadores.

Hegemonia, Estado e espetáculo

A hegemonia não está fora do Estado, como se existisse apenas na cultura ou na propaganda. Ela se articula com leis, políticas econômicas, tribunais, escolas e formas de propriedade. O Estado apresenta como interesse público aquilo que frequentemente garante a reprodução das relações capitalistas. Na leitura materialista de Alysson Mascaro, o Estado não é um instrumento neutro que paira acima das classes; sua forma jurídica e política corresponde às necessidades de uma sociedade fundada na mercadoria, na propriedade privada e na exploração do trabalho.

Isso ajuda a compreender por que governos podem proteger a liberdade contratual enquanto milhões de trabalhadores não têm poder real para negociar contrato algum. A igualdade jurídica entre plataforma e entregador encobre uma desigualdade econômica concreta. Ambos aparecem como sujeitos livres no direito, mas apenas um deles controla o aplicativo, os dados, o capital e as condições de contratação. A hegemonia transforma essa assimetria em normalidade institucional.

As redes digitais ampliam o problema ao converter a disputa política em fluxo permanente de imagens, indignação e distração. Debord chamou de sociedade do espetáculo uma forma social em que a relação entre pessoas é mediada por representações. Não se trata apenas de excesso de telas, mas de uma vida em que a aparência pública substitui a experiência comum. A política passa a ser consumida como performance: o governante que insulta, o influenciador que denuncia e o cidadão que compartilha uma frase parecem participar da ação, embora frequentemente apenas reproduzam um circuito de visibilidade controlado por plataformas.

Nesse ambiente, a hegemonia se torna mais veloz e mais personalizada. O algoritmo não precisa apresentar uma doutrina coerente; basta distribuir estímulos que organizem afetos, inimigos e reflexos. A indignação contra o professor, o pobre, o imigrante ou a universidade pode circular como entretenimento e, ao mesmo tempo, deslocar a revolta contra os responsáveis pela precarização. A tecnologia não é neutra nesse processo. Como advertia Heidegger ao analisar a técnica moderna, ela tende a enquadrar tudo como recurso disponível. No capitalismo de plataforma, inclusive a atenção e a raiva são matérias-primas.

O bolsonarismo e a fabricação do inimigo

O bolsonarismo não inventou a hegemonia conservadora brasileira, mas reorganizou suas imagens e seus inimigos com eficiência. A defesa da família, da ordem e de Deus foi combinada com a hostilidade contra universidades, movimentos sociais, imprensa, professores e políticas de igualdade. A operação ideológica consiste em converter conflitos sociais reais em guerras morais. A precarização do trabalho desaparece atrás do medo do comunismo; o desmonte de políticas públicas é apresentado como defesa da liberdade; a violência de Estado é vendida como restauração da autoridade.

Esse discurso não se sustenta apenas por manipulação externa. Ele encontra experiências concretas de insegurança, perda de renda, abandono e impotência. A extrema direita oferece uma explicação simples para sofrimentos complexos: alguém roubou seu país, corrompeu sua família ou destruiu sua liberdade. O inimigo pode mudar, mas a estrutura permanece. A raiva é direcionada horizontalmente, contra outros grupos subalternos, em vez de se transformar em conflito contra as relações que produzem a desigualdade.

Le Bon descreveu como as multidões podem ser mobilizadas por imagens, contágios afetivos e afirmações simplificadas. A crítica contemporânea precisa ir além da ideia de uma massa irracional. O problema não é que o povo seja naturalmente manipulável, mas que suas experiências são organizadas por instituições, meios de comunicação e relações econômicas que limitam o horizonte do pensável. A multidão não nasce alienada: ela é disputada por projetos políticos. O bolsonarismo venceu batalhas porque conseguiu oferecer uma linguagem emocional para um descontentamento que a esquerda muitas vezes não soube organizar.

Romper a hegemonia exige produzir outra prática

Uma crítica da hegemonia não pode se limitar a desmentir notícias falsas ou corrigir frases absurdas. A disputa não acontece somente no plano das ideias isoladas. Ela depende de transformar as condições que fazem determinadas ideias parecerem plausíveis. Dizer ao entregador que ele é explorado é insuficiente se não houver organização capaz de enfrentar a plataforma, garantir direitos e construir formas de proteção coletiva. Explicar a meritocracia não basta se a escola continuar submetida à precarização e se o trabalho continuar distribuindo desigualmente tempo, renda e dignidade.

Romper a hegemonia capitalista significa reconstruir vínculos entre experiências que foram separadas pela concorrência. O professor, o trabalhador de call center, o motorista e o entregador não enfrentam problemas idênticos, mas compartilham a submissão a metas, avaliações, vigilância e insegurança. A tarefa política é tornar visível essa unidade sem apagar as diferenças. Quando o sofrimento privado encontra uma linguagem coletiva, a culpa individual pode se converter em reivindicação e organização.

A hegemonia dominante não é invencível, mas tampouco cai apenas porque suas contradições foram expostas. Ela é reproduzida diariamente no trabalho, na escola, na família, na linguagem e nas plataformas. Por isso, uma alternativa de esquerda precisa disputar não somente eleições ou opiniões, mas o significado de liberdade, sucesso, segurança e produtividade. Liberdade não pode continuar significando a liberdade da empresa para impor contratos desiguais. Sucesso não pode ser a adaptação solitária à exploração. E segurança não pode ser o nome dado à violência contra os de baixo.

A hegemonia começa a se desfazer quando aquilo que parecia destino passa a ser reconhecido como relação social. O aplicativo deixa de parecer uma força natural; o chefe deixa de parecer um avaliador neutro; a desigualdade deixa de parecer consequência de talentos diferentes. Nesse momento, a experiência individual encontra sua causa histórica. E a classe trabalhadora deixa de apenas sobreviver dentro do mundo administrado pelo capital para começar a disputar quem terá o poder de organizá-lo.