A pergunta “o que capitalismo” não precisa ser respondida com uma definição de manual escolar. Ela pode ser feita diante de um entregador que pedala sob chuva, espera horas por uma corrida e ainda escuta que é um empreendedor livre. O capitalismo aparece menos na promessa abstrata de mercado e mais nessa cena concreta: uma empresa controla preços, acesso às entregas, avaliação e punições sem assumir integralmente o vínculo, o salário ou os riscos do trabalho. O sistema não apenas compra força de trabalho. Ele organiza a sociedade para que a exploração pareça uma escolha individual.

O que capitalismo transforma em escolha

O trabalhador de aplicativo não recebe uma ordem direta de um chefe diante de uma máquina, como no modelo fabril clássico. Ele recebe notificações, metas, bônus, bloqueios e variações de demanda calculadas por um sistema que não precisa explicar seus critérios. A aparência é de autonomia: o entregador escolhe quando ligar o aplicativo, decide se aceita uma corrida e, em tese, pode trabalhar para várias plataformas. Mas essa liberdade é estreita porque a sobrevivência depende da disponibilidade permanente, da aceitação de chamadas ruins e da submissão a uma avaliação que pode reduzir suas oportunidades.

O algoritmo não aboliu a chefia; tornou-a menos visível. A empresa pode dizer que apenas oferece uma tecnologia de intermediação, enquanto define as condições econômicas da relação. O aplicativo distribui tarefas, mede desempenho, estabelece reputações e administra sanções. A gestão aparece como cálculo automático, não como decisão de uma direção empresarial. Essa forma técnica de comando dificulta a identificação do conflito de classe: o trabalhador não enfrenta um patrão reconhecível, mas uma interface que converte decisões econômicas em eventos aparentemente neutros.

É nesse ponto que a ideologia do empreendedorismo cumpre sua função. Se cada pessoa é apresentada como uma empresa de si mesma, o fracasso deixa de ser interpretado como resultado de salários baixos, desemprego, racismo, desigualdade territorial ou ausência de proteção social. O entregador que não consegue pagar a manutenção da moto é responsabilizado por não se organizar melhor. A professora submetida a contratos precários é orientada a investir em sua marca pessoal. O operador de call center pressionado por metas é informado de que precisa desenvolver resiliência. A exploração é recodificada como deficiência de atitude.

O lucro não desapareceu: mudou de endereço

Marx mostrou que o capital depende da compra da força de trabalho e da apropriação do valor produzido por ela. Nas plataformas, esse mecanismo não deixa de existir porque a empresa usa termos como parceria, flexibilidade ou conexão. O entregador produz valor ao transportar mercadorias, sustentar a circulação urbana e manter funcionando um mercado que a plataforma organiza. Mesmo quando a empresa não o reconhece como empregado, seu trabalho é indispensável para que a operação exista.

O discurso da inovação procura ocultar essa dependência. A plataforma se apresenta como uma empresa de tecnologia, embora sua atividade dependa de milhares de pessoas que dirigem, pedalam, atendem clientes e resolvem problemas concretos. A tecnologia é real, mas não é a fonte mágica do lucro. Ela concentra informações, reduz custos de supervisão e permite administrar uma massa de trabalhadores dispersos. O aplicativo transforma tempo de espera, deslocamento sem remuneração, manutenção do veículo e risco de acidente em custos privados do trabalhador.

Essa transferência é uma das marcas da precarização contemporânea. A empresa não precisa necessariamente demitir para reduzir seus custos. Basta alterar a tarifa, mudar o sistema de pontuação, restringir o acesso a determinadas corridas ou multiplicar trabalhadores disponíveis numa mesma região. O risco de oscilação da demanda é empurrado para quem precisa trabalhar. Quando há poucas chamadas, o trabalhador permanece conectado sem garantia de remuneração. Quando há excesso de pedidos, enfrenta pressa, trânsito e perigo. A flexibilidade serve principalmente para flexibilizar a responsabilidade empresarial.

Da fábrica à plataforma, a alienação se atualiza

A alienação não significa apenas trabalhar muito ou sentir cansaço. Em Marx, ela designa uma relação na qual o trabalhador perde controle sobre sua atividade, sobre o produto que produz e sobre as condições sociais de sua própria existência. No trabalho por aplicativo, essa perda aparece de modo peculiar. O trabalhador possui o instrumento imediato — uma moto, uma bicicleta, um carro ou um celular —, mas não controla o mercado que determina quanto seu trabalho vale. Ele parece proprietário de seus meios, enquanto depende de uma infraestrutura privada que define as regras do jogo.

O resultado é uma combinação contraditória de propriedade individual e subordinação econômica. A propaganda diz: “seja seu próprio chefe”. A realidade responde: o trabalhador paga combustível, manutenção, seguro, internet e depreciação do veículo, mas não decide a tarifa nem consegue negociar coletivamente com a plataforma em condições equivalentes. A suposta autonomia dissolve a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de espera. O celular permanece próximo, a notificação pode chegar a qualquer instante e o descanso passa a ser calculado conforme a necessidade de faturar.

Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma forma de vida em que as relações sociais aparecem mediadas por imagens e representações. Na economia das plataformas, a imagem do empreendedor independente funciona como espetáculo ideológico: ela substitui a experiência concreta da dependência. O trabalhador vê no aplicativo a promessa de controle sobre a própria rotina, mas não vê com a mesma clareza a estrutura que captura seus dados, define sua reputação e transforma cada movimento em informação útil à valorização do capital.

A técnica administra a obediência

A crítica não deve cair na fantasia de que bastaria retirar a tecnologia para recuperar um passado menos alienado. O problema está no modo como a técnica é subordinada à valorização do capital. Heidegger advertiu que a técnica moderna tende a enquadrar o mundo como um estoque disponível. Nas plataformas, essa lógica alcança o trabalhador: seu tempo, sua localização, sua velocidade, suas pausas e suas respostas são convertidos em recursos mensuráveis e administráveis.

A forma algorítmica de controle é eficiente justamente porque combina vigilância e participação. Ninguém precisa permanecer sob os olhos de um supervisor para que a disciplina funcione. O trabalhador acompanha a própria pontuação, calcula a melhor hora para se conectar, aceita jornadas extensas e internaliza a necessidade de agradar ao sistema. A coerção econômica se apresenta como otimização pessoal. A ordem não vem apenas de fora; ela é reproduzida pelo trabalhador que precisa antecipar a próxima punição ou o próximo incentivo.

O Estado não é espectador dessa relação

Seria um erro tratar a precarização como simples consequência inevitável da inovação. O Estado participa da forma que essa relação assume ao definir direitos, fiscalização, tributação e limites para a atuação empresarial. Quando a legislação aceita que empresas controlem trabalhadores sem reconhecer responsabilidades proporcionais ao controle exercido, não está diante de uma neutralidade técnica. Está diante de uma escolha política que protege determinada forma de acumulação.

Como mostra Alysson Mascaro em sua análise marxista do Estado, as instituições jurídicas não pairam acima da sociedade como árbitros externos ao conflito. O direito organiza relações necessárias à reprodução capitalista e pode reconhecer direitos ao mesmo tempo que preserva a estrutura de exploração. A disputa sobre o vínculo de trabalho, nesse sentido, não é detalhe burocrático. É uma disputa sobre quem paga os custos da atividade econômica e sobre quem tem poder para definir suas regras.

O bolsonarismo encontrou terreno fértil nessa ideologia porque converteu direitos sociais em privilégios e solidariedade em fraqueza. Sua defesa agressiva do empreendedorismo individual não libertou trabalhadores; ofereceu linguagem para que a desproteção parecesse mérito. A mesma operação aparece quando sindicatos são tratados como entraves, quando a ação coletiva é ridicularizada e quando a desigualdade é explicada pela suposta incapacidade moral dos pobres. O trabalhador isolado é mais fácil de administrar, e a plataforma sabe disso.

A liberdade começa onde termina a chantagem econômica

Responder o que capitalismo exige abandonar a imagem de que o mercado é apenas um espaço de trocas entre indivíduos livres. O entregador e a plataforma não negociam em condições simétricas. Um lado controla dados, infraestrutura, preços e acesso à demanda; o outro oferece seu tempo, seu corpo e seus instrumentos para sobreviver. Chamar essa relação de parceria não altera sua estrutura material.

A liberdade real não está em escolher entre aceitar uma corrida mal paga ou permanecer sem renda. Está em poder trabalhar sem entregar toda a existência à lógica da disponibilidade, com remuneração digna, proteção contra acidentes, transparência nos critérios algorítmicos e capacidade coletiva de negociação. A tecnologia poderia reduzir jornadas, distribuir melhor recursos e eliminar tarefas penosas. Sob o comando do capital, porém, ela frequentemente serve para intensificar o trabalho e privatizar seus riscos.

O capitalismo contemporâneo não precisa mais parecer uma fábrica enfumaçada para produzir subordinação. Ele pode caber na tela de um celular, falar a linguagem da autonomia e pedir ao trabalhador que agradeça pela oportunidade. Sua novidade está na embalagem; sua velha lógica permanece: poucos controlam os meios de organizar a produção, muitos vendem sua força para continuar vivendo. Enquanto essa relação for chamada de liberdade, a crítica terá de começar justamente pela desmontagem do nome.