O que é alienados, na formulação áspera que aparece nas buscas e nas conversas, não é uma pergunta sobre indivíduos distraídos, ignorantes ou moralmente inferiores. Alienados são aqueles — isto é, somos nós, em graus e circunstâncias distintas — cuja vida social é organizada por forças que parecem externas, inevitáveis e naturais, embora tenham sido produzidas por relações humanas históricas. A palavra não deve servir como insulto confortável de quem se imagina desperto diante de uma massa passiva. Ela designa uma condição material: a de pessoas separadas do controle sobre o trabalho que realizam, sobre o tempo que vivem, sobre as necessidades que definem e sobre a política que poderia transformar essas condições.
Essa é a tese de Marx quando trata da alienação. No capitalismo, o trabalhador não vende apenas uma atividade durante determinadas horas; vende sua força de trabalho para sobreviver. O produto de seu esforço pertence a outro, a organização do processo lhe é imposta, e a riqueza que ele ajuda a criar retorna como poder alheio: lucro, máquina, meta, aplicativo, patrão, banco, preço do aluguel. Não se trata de uma sensação psicológica ocasional. É uma estrutura em que a capacidade humana de produzir o mundo se volta contra quem produz. O entregador pedala para tornar uma plataforma mais valiosa, mas não decide tarifas, bloqueios, trajetos ou regras. O professor preenche sistemas, atende exigências administrativas e mede sua aula por indicadores que não inventou. A operadora de call center repete um script calculado para extrair produtividade de cada segundo. Nesses casos, a pessoa não está apenas cansada: está submetida a uma forma de vida cujo comando aparece como coisa.
O que é alienados além da falta de informação
Reduzir alienação à ignorância é uma maneira de não compreendê-la. Alguém pode saber que um aplicativo explora seus entregadores e, ainda assim, depender dele para pagar as contas; pode reconhecer a farsa da meritocracia e continuar disputando vagas, notas, promoções e bicos como se seu fracasso fosse uma falha íntima. A alienação não desaparece porque recebemos uma informação correta. Ela persiste porque as relações materiais obrigam indivíduos isolados a agir dentro de uma engrenagem que não controlam. Saber que a roda gira não basta para sair debaixo dela.
Por isso, chamar o eleitor pobre que aderiu ao bolsonarismo de alienado, como se o termo encerrasse a explicação, é politicamente preguiçoso. O bolsonarismo não nasceu de uma hipnose coletiva sem causa. Ele encontrou terreno em décadas de precarização, medo social, humilhação cotidiana e destruição de vínculos de solidariedade. Seu discurso ofereceu inimigos fáceis — o pobre, a mulher, o negro, o professor, o movimento social, o artista, o suposto comunista — para deslocar a raiva que deveria atingir os donos do poder econômico. A extrema direita converte a experiência real da insegurança em ressentimento contra vítimas ainda mais vulneráveis. Há ideologia justamente porque há uma realidade ferida a ser falsamente explicada.
Isso não absolve o fascismo nem transforma suas adesões em gesto inocente. Significa que combatê-lo exige mais do que desprezo. Exige desarmar as condições que fazem uma mentira autoritária parecer resposta para quem foi abandonado pela política institucional e submetido à competição permanente. Quando o trabalhador é ensinado a tratar outro trabalhador como concorrente, quando o desempregado deve provar que merece qualquer auxílio e quando toda derrota é atribuída à falta de esforço, a classe dominante ganha duas vezes: explora e ainda faz os explorados se acusarem mutuamente.
O trabalho que nos separa de nós mesmos
A figura contemporânea da alienação tem a tela como superfície, mas não começa nela. A plataforma digital promete autonomia ao motorista que arca com combustível, manutenção, risco e jornada; promete empreendedorismo ao entregador que não tem salário garantido, férias nem proteção contra bloqueios arbitrários. A linguagem da empresa é cuidadosamente construída para apagar a relação de exploração. Não há empregado, há parceiro; não há demissão, há desativação; não há chefe, há algoritmo. Contudo, a troca de palavras não muda o fato de que uma empresa controla as condições essenciais do trabalho e captura a parte decisiva da riqueza produzida.
A técnica, nesse ponto, não é neutra. Heidegger alertava que a técnica moderna não é somente um conjunto de ferramentas, mas uma forma de enquadrar o real como reserva disponível para uso. Sob as plataformas, o trabalhador torna-se dado, localização, avaliação, taxa de aceitação, tempo de resposta. Sua experiência é convertida em métrica; seu corpo, em capacidade logística; sua necessidade, em disponibilidade ininterrupta. O algoritmo não é uma entidade sobrenatural. É a decisão empresarial sedimentada em código, protegida pela opacidade e apresentada como cálculo objetivo.
A alienação digital também alcança quem não trabalha diretamente para um aplicativo. A professora que responde mensagens de responsáveis à noite, o funcionário que carrega o e-mail corporativo no bolso, o jovem que precisa exibir uma personalidade vendável em redes sociais: todos aprendem que o tempo livre é um intervalo precário a ser colonizado. A promessa de conexão produz vigilância, comparação e desempenho. A vida passa a ser administrada como portfólio. Até o descanso pode ser vivido com culpa, porque a ideologia da produtividade exige que cada instante prove alguma utilidade.
O espetáculo não informa apenas, ele organiza a percepção
Debord chamou de sociedade do espetáculo a forma social em que a relação entre pessoas é mediada por imagens. Não é uma crítica superficial à televisão ou ao celular, como se bastasse desligar a tela para recuperar a liberdade. O espetáculo é a apresentação do mundo capitalista como único mundo possível: consumo como felicidade, riqueza como mérito, violência policial como ordem, devastação ambiental como preço do progresso. A mercadoria deixa de ser apenas objeto comprado e passa a oferecer identidade, prestígio e pertencimento.
Nas redes, essa lógica se acelera. A indignação circula em fragmentos, o medo é rentável, a mentira encontra recompensa algorítmica quando prende atenção. Mas seria um erro imaginar que a tecnologia sozinha fabrica a alienação. Ela potencializa uma sociedade já fundada na separação: entre quem possui os meios de produção e quem só possui a própria força de trabalho; entre o cidadão formalmente igual e a desigualdade brutal de classe, raça e território; entre a promessa democrática e um Estado que, como analisa Alysson Mascaro, não paira acima das relações sociais, mas opera dentro da forma política do capitalismo.
Alienação não é a ausência de pensamento; é a presença de uma vida social que impede o pensamento de se tornar poder coletivo.
Deixar de ser alienado é construir relação coletiva
Não existe despertar individual puro, realizado por consumo de conteúdo correto, superioridade moral ou uma coleção de autores citados. A crítica pode iluminar mecanismos, mas sua verdade se mede na capacidade de reconectar pessoas às forças que organizam suas vidas. Um entregador não se emancipa porque entende isoladamente a mais-valia; ele amplia sua potência quando se organiza com outros entregadores contra taxas, bloqueios e jornadas desumanas. Uma escola não vence a precarização porque cada docente se sacrifica mais; ela resiste quando trabalhadores defendem condições comuns de ensino. A consciência não cai sobre a realidade: ela se forma na luta contra aquilo que torna a realidade intolerável.
Ser alienado, então, não é um defeito de caráter nem uma identidade fixa. É viver em uma ordem que expropria a produção, fragmenta os vínculos e faz parecer natural que poucos mandem sobre o trabalho, o território, a informação e o futuro de muitos. Nomear essa condição com precisão é recusar tanto o cinismo de quem diz que nada pode mudar quanto a crueldade de quem culpa os indivíduos pela prisão social em que foram colocados. A desalienação começa quando o que parecia destino revela seu nome histórico: capitalismo. E quando aquilo que parecia problema privado se reconhece como conflito de classe.
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