O que significa hegemonia? Não significa simplesmente que um partido vence eleições, que uma ideia circula mais nas redes ou que uma classe possui dinheiro bastante para impor sua vontade pela força. Hegemonia é a capacidade de uma classe dirigente de transformar seus interesses particulares na aparência de interesse geral, fazendo com que os dominados reconheçam como natural, inevitável ou desejável uma ordem que os prejudica. É poder, mas um poder que não se mostra apenas no cassetete, na lei ou na demissão. Ele se instala na linguagem com que as pessoas descrevem a própria vida.

Essa distinção importa porque o capitalismo brasileiro não se conserva somente pela repressão aberta, embora recorra a ela com desenvoltura contra pobres, trabalhadores, indígenas e movimentos sociais. Ele se conserva também quando o entregador sem vínculo é chamado de empreendedor; quando a professora sobrecarregada é orientada a inovar sem condições materiais; quando o operador de call center submetido a metas inalcançáveis entende seu sofrimento como falha de atitude. A hegemonia começa quando a experiência concreta da exploração recebe um nome que a encobre.

Antonio Gramsci elaborou o conceito para explicar por que a dominação de classe não depende de coerção permanente. Para dirigir a sociedade, uma classe precisa organizar consentimento, construir instituições, formar valores, produzir intelectuais e estabelecer um horizonte do que parece razoável. Escola, imprensa, igrejas, empresas, plataformas e aparelhos do Estado não atuam todos da mesma forma, nem obedecem a uma central secreta. Mas podem convergir na reprodução de uma visão de mundo em que a propriedade privada, a competição e a hierarquia social aparecem como paisagem, e não como decisões históricas.

O que significa hegemonia no vocabulário do empreendedor de aplicativo

O trabalho por aplicativos oferece uma cena brasileira especialmente nítida. A empresa se apresenta como mera intermediária tecnológica: não emprega, apenas conecta; não determina jornada, apenas oferece oportunidade; não reduz remuneração, apenas aplica uma lógica impessoal de cálculo. Mas é ela que organiza a distribuição de corridas, define bloqueios, estabelece padrões de aceitação, muda tarifas e controla o trabalhador por avaliações e dados que ele não consegue auditar. A subordinação existe, ainda que seja embrulhada no discurso da autonomia.

Chamar esse trabalhador de parceiro não é um detalhe de marketing. É uma operação ideológica. A palavra desloca o conflito: se há pouca renda, a causa deixa de ser a assimetria entre uma corporação que controla a plataforma e um indivíduo que depende dela para sobreviver; passa a ser sua estratégia, sua disposição, sua capacidade de trabalhar mais horas ou aceitar mais riscos. A bicicleta, a moto, o celular e o combustível, pagos pelo trabalhador, são apresentados como sinais de propriedade e liberdade. Na prática, são frequentemente meios pessoais postos a serviço da acumulação alheia.

A hegemonia triunfa quando o explorado descreve a exploração com as palavras fornecidas por quem explora.

Não se trata de negar que muitos entregadores valorizem a possibilidade de escolher horários ou de complementar renda. Seria inútil romantizar a vida assalariada tradicional, também marcada por comando, vigilância e exaustão. O ponto é outro: uma liberdade formal, exercida sob necessidade material, não elimina a relação de poder. Quem precisa rodar para pagar aluguel não negocia em igualdade com quem pode alterar unilateralmente as regras do aplicativo. A hegemonia neoliberal consiste precisamente em converter essa necessidade em escolha moral: o trabalhador precário deve agradecer pela chance de se virar.

O senso comum não nasce espontaneamente

Há uma mistificação confortável segundo a qual o senso comum é apenas a soma das opiniões comuns. Gramsci via nele algo mais contraditório: um terreno onde sobrevivem experiências populares de solidariedade e também preconceitos, crenças e ideias herdadas da classe dominante. Por isso, hegemonia nunca é total. Ela precisa ser repetida, atualizada e defendida, porque a realidade social produz desmentidos constantes. A fila no posto de saúde, o salário que não alcança o mês, a jornada sem descanso e o medo de um bloqueio algorítmico expõem limites muito concretos à fábula meritocrática.

Mas a indústria cultural e as plataformas digitais trabalham para reorganizar esses desmentidos. Debord escreveu que, na sociedade do espetáculo, a relação social entre pessoas aparece mediada por imagens. Hoje, a imagem do sujeito que enriquece sozinho, do jovem que “escalou” o próprio negócio e do influenciador que vende disciplina como solução universal não serve apenas para entreter. Ela educa afetos e expectativas. O trabalhador que vê sua renda corroída é convidado a se comparar com uma vitrine de vencedores; em vez de identificar a estrutura que concentra riqueza, aprende a culpabilizar sua suposta insuficiência.

Os algoritmos aprofundam essa operação porque transformam visibilidade em prêmio e isolamento em método. Cada pessoa recebe uma sequência personalizada de promessas, medos e ressentimentos. O problema coletivo da precarização reaparece como uma coleção de dramas privados: falta planejamento, falta mentalidade, falta coragem para empreender. A tecnologia não inventou a alienação, mas lhe deu ritmos e instrumentos novos. Ela mede o desempenho, fragmenta a percepção do trabalho e produz a ilusão de que decisões empresariais são apenas resultados neutros de um sistema técnico.

Bolsonarismo, ressentimento e direção social

O bolsonarismo não criou a hegemonia neoliberal, mas soube explorar suas ruínas. Enquanto defendia uma retórica de liberdade, combateu direitos trabalhistas, atacou sindicatos, estimulou a violência política e ofereceu aos de cima mais espaço para desregulamentar. Sua força não pode ser compreendida apenas como manipulação de ignorantes, fórmula elitista que dispensa análise. Ela reuniu medos reais — de perda de status, de insegurança econômica, de abandono estatal — e lhes deu alvos falsos: professores, movimentos sociais, população pobre, mulheres, pessoas negras, indígenas e qualquer um identificado como inimigo de uma ordem imaginária.

Essa é uma dimensão decisiva da hegemonia: ela não promete somente prosperidade; pode oferecer pertencimento pela exclusão. Quando a desigualdade se torna insuportável, o fascismo desloca a raiva contra quem está abaixo ou ao lado, nunca contra a estrutura que concentra propriedade e poder. Le Bon observou a força afetiva das multidões, mas uma crítica materialista deve perguntar quem organiza os símbolos, quais meios amplificam os afetos e quais interesses se beneficiam deles. A massa não é uma substância irracional desligada da história; ela é disputada em condições sociais determinadas.

O Estado participa dessa disputa sem ser um árbitro acima das classes. Como insiste Alysson Mascaro ao analisar a forma política capitalista, o Estado e o direito organizam relações sociais que garantem a reprodução do capital, mesmo quando reconhecem direitos arrancados por luta. A legislação trabalhista, a fiscalização, a tributação e as decisões judiciais não são neutras: são terrenos de conflito. Quando se vende a retirada de proteção como modernização inevitável, a hegemonia busca antecipar o resultado do conflito antes mesmo de ele chegar à lei.

Contra-hegemonia é dar outro nome ao que vivemos

Entender hegemonia não autoriza fatalismo. Se uma ordem precisa produzir consentimento, é porque esse consentimento pode falhar. A organização coletiva dos entregadores, as greves, a luta sindical, os movimentos por moradia, a defesa da escola pública e a resistência à violência policial não são ruídos externos à política: são momentos em que a experiência fragmentada pode adquirir linguagem comum. O entregador deixa de ser o empreendedor solitário que não conseguiu prosperar e passa a reconhecer-se como trabalhador diante de uma empresa que extrai valor de seu tempo, de seu veículo e de seus dados.

Não basta, porém, trocar palavras em campanhas publicitárias de esquerda. Uma contra-hegemonia só se sustenta quando a crítica se liga a instituições, formação política, formas de solidariedade e conquistas materiais capazes de mudar a vida. Dizer que há exploração sem construir meios de enfrentá-la pode produzir apenas desespero. Mas aceitar o idioma empresarial da “flexibilidade” significa entregar a interpretação do mundo à classe que lucra com ele.

O desafio brasileiro é romper essa naturalização. Não porque exista uma consciência pura esperando ser despertada, mas porque o cotidiano já contém contradições que a ideologia tenta administrar. Onde o aplicativo diz parceria, há comando; onde a meritocracia diz mérito, há herança e desigualdade; onde o bolsonarismo diz liberdade, há licença para que o forte esmague o fraco. Nomear essas relações é o começo de uma disputa mais ampla: a disputa por fazer da vida coletiva algo maior que a sobrevivência competitiva que o capital chama de liberdade.