O que significa subjetividade não se responde com a imagem confortável de uma interioridade isolada, feita apenas de emoções, traços de personalidade e decisões íntimas. A subjetividade é o modo pelo qual cada pessoa se percebe, deseja, teme, julga e age no mundo; mas esse modo nunca nasce fora da história. Ela é formada nas relações materiais, na família, na escola, no trabalho, nas instituições, nos meios de comunicação e nas tecnologias que ordenam o cotidiano. Dizer isso não implica negar a singularidade de ninguém. Implica recusar a mentira liberal segundo a qual o indivíduo é uma unidade soberana que cria a si mesma por força de vontade.
No Brasil contemporâneo, um entregador de aplicativo oferece um caso concreto dessa disputa. Ele pode saber que a remuneração é baixa, que o custo da bicicleta ou da moto é seu, que a plataforma altera regras unilateralmente e que uma chuva ou um acidente podem interromper sua renda. Ainda assim, é convocado a se reconhecer como parceiro, empreendedor, guerreiro, dono do próprio horário. Não se trata apenas de propaganda. Essa linguagem entra na maneira como ele precisa narrar a própria sobrevivência para suportá-la. A subjetividade é atingida precisamente aí: quando a exploração deixa de aparecer como relação social e passa a ser experimentada como desafio individual.
O que significa subjetividade sob a disciplina da necessidade
Marx mostrou que a produção capitalista não fabrica somente mercadorias. Ela também produz relações sociais e tipos humanos adequados à sua reprodução. O trabalhador separado dos meios de produzir vende sua força de trabalho para viver; essa dependência objetiva condiciona sua experiência de liberdade. Hoje, a tela do celular atualiza essa velha separação sem aboli-la. O aplicativo não entrega ao trabalhador autonomia real sobre os meios de trabalho, sobre o preço de sua atividade ou sobre as regras do serviço. Entrega uma interface, metas variáveis, avaliações, incentivos temporários e a possibilidade permanente de ficar sem chamada.
A liberdade prometida pela plataforma é, muitas vezes, a liberdade de administrar a própria insegurança. Escolher quando conectar-se não equivale a controlar a jornada quando a necessidade de pagar aluguel, comida, combustível e contas define a duração efetiva do trabalho. O entregador aprende a calcular aceitação de corrida, tempo parado, distância, risco e desgaste do corpo. Seu descanso se torna culpa, porque cada hora desconectada parece uma decisão pessoal contra a renda. A técnica, que poderia reduzir o esforço social e ampliar o tempo livre, aparece como mecanismo de comando disperso e opaco.
É nesse ponto que a reflexão de Heidegger sobre a técnica ganha um sentido político mais duro. A técnica não é apenas um conjunto neutro de ferramentas à disposição de quem as usa; ela pode constituir uma forma de revelar o mundo, transformando tudo em recurso disponível para cálculo e extração. Nas plataformas, o trabalhador aparece como dado de localização, taxa de aceitação, nota, tempo de entrega e capacidade de resposta. Sua vida concreta é convertida em indicadores. A subjetividade não desaparece nesse processo: ela é reorganizada para que o próprio sujeito se vigie, acelere e se cobre como se fosse gerente de si mesmo.
O empreendedor de si é uma figura da alienação
Chamar esse processo de alienação não é dizer que os trabalhadores são enganados por ignorância ou incapazes de compreender sua situação. Alienação é uma relação social na qual os produtos da atividade humana enfrentam seus produtores como poderes estranhos. O entregador mantém a cidade circulando, mas não decide as condições dessa circulação. O professor alimenta plataformas educacionais, preenche relatórios e produz indicadores, mas vê seu trabalho pedagógico comprimido por metas administrativas. A atendente de call center sustenta uma cadeia de serviços, porém tem sua fala roteirizada, seu tempo cronometrado e seus intervalos controlados. Em todos esses casos, a atividade humana se volta contra quem a realiza.
A ideologia neoliberal faz uma operação decisiva: ela toma essa subordinação e a traduz no vocabulário do mérito. Se alguém prospera, teria sido disciplinado e inovador; se fracassa, teria administrado mal a própria vida. O desemprego, a rotatividade e o adoecimento deixam de ser problemas de uma ordem econômica para se tornarem defeitos de caráter. A subjetividade exigida pelo capitalismo contemporâneo é a de alguém que deve estar sempre disponível, resiliente, mensurável e otimista. Não é por acaso que a linguagem empresarial invadiu até o sofrimento: fala-se em desenvolver competências, gerir emoções e investir em si, como se a existência fosse uma carteira de ativos.
Essa forma de individualização é cruel porque não elimina as desigualdades de classe, raça e gênero; ela as oculta sob uma aparência de competição universal. Nem todos começam do mesmo lugar, nem carregam os mesmos riscos, nem possuem a mesma rede de proteção. Mas a ordem meritocrática precisa fingir que a corrida é justa para justificar seus vencedores e responsabilizar seus derrotados. A pessoa que trabalha doze horas para obter uma renda instável não é apenas explorada economicamente. Ela é pressionada a internalizar a ideia de que seu esgotamento comprova insuficiência pessoal.
A subjetividade capturada pela tela e pelo espetáculo
Guy Debord descreveu a sociedade do espetáculo como uma forma de vida em que as relações entre pessoas são mediadas por imagens. Nas redes sociais, a promessa empreendedora ganha rosto, música, testemunho e aparência de evidência. Vemos a moto nova, a rotina de produtividade, o discurso de superação; não vemos com igual visibilidade a dívida, a exaustão, o acidente, a punição algorítmica e o tempo sem remuneração. A imagem não é uma simples mentira externa à realidade. Ela seleciona o que pode aparecer e organiza o desejo de aparecer. O trabalhador é levado a transformar sua própria precariedade em conteúdo motivacional para conquistar reconhecimento.
As plataformas digitais aprofundam essa captura porque exploram simultaneamente trabalho, atenção e informação. Cada interação fornece dados; cada avaliação fabrica hierarquias; cada notificação disputa o tempo mental. O algoritmo não precisa conhecer integralmente a consciência de uma pessoa para condicioná-la. Basta tornar certos comportamentos mais recompensados, outros mais custosos e as regras suficientemente obscuras para produzir adaptação. A administração algorítmica é eficiente justamente porque desloca a coerção para o interior da conduta cotidiana. O comando parece vir do próprio indivíduo que decidiu aceitar mais uma corrida ou responder mais uma mensagem.
Isso também ajuda a entender por que o bolsonarismo encontrou terreno fértil em parcelas submetidas à insegurança social. Não porque a precarização produza automaticamente fascismo, mas porque o desamparo pode ser convertido em ressentimento quando a estrutura de classe permanece invisível. Em vez de identificar empresas, proprietários e políticas econômicas como agentes de uma ordem desigual, a raiva é desviada contra inimigos fabricados: pobres, professores, movimentos sociais, mulheres, pessoas racializadas, artistas, servidores públicos. A subjetividade ferida busca uma explicação, e a extrema direita oferece uma comunidade imaginária, autoritária e punitiva.
Não há libertação individual de uma produção social
Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima das relações capitalistas como árbitros neutros. Essa observação importa porque a crítica da subjetividade não pode se reduzir a conselhos psicológicos sobre autoestima ou consumo consciente. Quando a legislação tolera vínculos frágeis, quando a fiscalização é insuficiente e quando o discurso público celebra a informalidade como solução, instituições inteiras ajudam a produzir o sujeito precarizado. A plataforma não domina apenas porque possui um bom software; domina porque encontra uma sociabilidade e uma forma estatal capazes de normalizar sua posição.
Reconhecer a dimensão social da subjetividade abre uma possibilidade que o individualismo fecha: aquilo que foi produzido historicamente pode ser transformado historicamente. O entregador que percebe que sua angústia não é falha privada pode encontrar, na organização coletiva, outra interpretação de sua experiência. A greve, a associação, o sindicato, a conversa entre colegas e a luta por direitos não são apenas instrumentos externos para obter melhores condições. São práticas que desconstroem a figura solitária do empreendedor de si e criam uma subjetividade de classe, fundada na percepção de que a vida de cada um depende do trabalho de muitos.
O ponto decisivo é que a subjetividade não é um refúgio intacto contra o capitalismo, mas tampouco é uma prisão sem saída. Ela é um terreno de disputa. Enquanto a ordem vigente fizer da sobrevivência uma competição e chamar submissão de liberdade, produzirá sujeitos obrigados a se culpar pelo que lhes foi imposto. Uma crítica materialista recusa esse veredito. Ela devolve à exploração seu nome, à técnica sua função política e ao sofrimento sua causa social. Só então a experiência individual deixa de ser uma sentença privada e pode se tornar matéria de transformação coletiva.
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