Subjetividade é a maneira pela qual cada pessoa se percebe, sente seus desejos, organiza sua vida e atribui sentido ao que lhe acontece. Ela não nasce pronta no interior de um indivíduo: é produzida nas relações sociais concretas — na família, na escola, no trabalho, nas normas de gênero, na mídia, na religião, no Estado e nas tecnologias. Sob o capitalismo, a subjetividade tende a ser formada para que a exploração apareça como escolha pessoal, a competição como natureza humana e o sofrimento causado por condições sociais como fracasso individual.

Uma experiência de si que tem história

Falar em subjetividade é recusar a ideia de que existe um “eu” fixo, universal e independente do mundo. Pessoas de épocas e classes diferentes aprendem a desejar, temer, amar, obedecer e imaginar o futuro de modos distintos. A experiência de um trabalhador fabril do século XIX, de uma professora submetida a metas e avaliações permanentes e de um entregador de aplicativo guiado por um algoritmo não é apenas economicamente diferente: ela produz maneiras diferentes de estar consigo mesmo.

Isso não significa que indivíduos sejam robôs sem vontade. Significa que a vontade se forma em condições que não escolhemos inteiramente. Marx mostrou que, numa sociedade baseada na propriedade privada e na venda da força de trabalho, o trabalhador se vê separado do produto que cria, do processo de trabalho, dos outros trabalhadores e de suas próprias capacidades. Essa alienação não fica restrita à fábrica: ela atravessa a forma como alguém calcula seu valor, percebe seu tempo e entende suas possibilidades.

Quando a pessoa aprende que vale pelo salário, pelo currículo, pela produtividade ou pela capacidade de “se vender”, sua subjetividade já está sendo organizada pela lógica do capital. O problema não é ter ambição ou buscar reconhecimento; é uma ordem social que transforma necessidades humanas em desempenho mensurável e faz da sobrevivência uma disputa entre indivíduos.

Como o capitalismo fabrica sujeitos

O capitalismo não domina somente por ordens explícitas. Ele também produz hábitos, expectativas e imagens de sucesso. A ideologia opera justamente quando relações históricas aparecem como naturais: parece normal que alguém trabalhe doze horas, responda mensagens fora do expediente ou aceite remuneração instável porque seria “flexível”, “autônomo” ou “empreendedor”.

A figura do empreendedor de si resume essa operação. Em vez de reconhecer-se como trabalhador com direitos e interesses comuns aos de outros trabalhadores, o indivíduo é chamado a administrar a própria vida como empresa. Deve investir em sua marca pessoal, converter descanso em preparação, transformar vínculos em networking e assumir sozinho os riscos que empresas e governos transferem para ele. A culpa pelo desemprego, pela dívida ou pelo esgotamento é então internalizada.

Essa produção subjetiva tem efeitos psíquicos reais. Ansiedade, sensação de insuficiência, medo de ficar para trás e incapacidade de desligar-se não são meras fragilidades privadas. Podem ser respostas a uma vida social em que o tempo é colonizado pela urgência, a renda é incerta e todo mundo parece estar em avaliação. Reduzir esse sofrimento a um problema individual, a ser resolvido apenas com adaptação e autocontrole, encobre suas causas sociais.

Plataformas, dados e gestão algorítmica

Nas plataformas digitais, a produção da subjetividade ganha instrumentos especialmente invasivos. O entregador não recebe apenas uma tarefa: recebe notas, metas, incentivos, bloqueios pouco transparentes e mensagens que simulam parceria. É apresentado como autônomo, mas seu trajeto, seu ritmo e sua renda dependem de um sistema que ele não controla. A liberdade formal de ligar ou desligar o aplicativo convive com a necessidade material de aceitar corridas ruins para pagar as contas.

No call center, o controle também alcança a voz, o humor e a atenção. Scripts definem como falar; tempos de atendimento transformam cada pausa em indicador; supervisões convertem cordialidade em obrigação produtiva. Já a professora pressionada por plataformas educacionais, relatórios e metas pode passar a medir sua própria dedicação pelo volume de tarefas registradas, mesmo quando esse trabalho burocrático rouba tempo da relação pedagógica.

Redes sociais ampliam esse processo ao transformar a exposição de si em circulação de dados, visibilidade e valor. A comparação permanente incentiva a fabricação de uma identidade exibível, enquanto empresas coletam comportamentos para prever e orientar consumo. Não se trata de dizer que toda comunicação digital é falsa ou que as pessoas são passivas. Trata-se de identificar a infraestrutura privada que monetiza atenção, afeto e insegurança.

Subjetividade e luta coletiva

Uma crítica materialista da subjetividade não substitui política por psicologia. Ao contrário, mostra que transformar a experiência individual exige transformar as condições que a produzem. Jornadas menores, renda garantida, direitos trabalhistas, serviços públicos, sindicatos e formas coletivas de decisão alteram não apenas a distribuição de recursos, mas também o que as pessoas podem desejar e imaginar para si.

A subjetividade é um terreno de disputa. A ideologia dominante ensina isolamento, concorrência e resignação; a organização coletiva pode produzir solidariedade, memória e consciência de classe. Quando entregadores reconhecem que a queda de renda não é incompetência pessoal, mas resultado do poder das plataformas, abre-se espaço para outra percepção de si: não a de microempreendedores fracassados, e sim a de trabalhadores capazes de agir em comum.