Meritocratico parece, à primeira vista, um elogio simples: seria meritocratico quem progride por talento, estudo e esforço, sem depender de sobrenome ou favor. Mas essa palavra só adquire força política quando se olha para as condições de partida que ela cuidadosamente apaga. No capitalismo brasileiro, a meritocracia não é uma regra que distribui reconhecimento de modo justo; é uma narrativa que explica como merecida a vitória de quem herdou proteção e como fracasso pessoal a sobrevivência precária de quem nunca teve escolha real. Seu efeito mais eficiente não é fazer todos acreditarem que ascenderão. É fazer o trabalhador atribuir a si mesmo a responsabilidade por não ascender.
Não se trata de negar que pessoas estudem, se empenhem e desenvolvam capacidades. O problema começa quando esse fato elementar é transformado em explicação total da posição social. Esforço existe, mas não existe no vazio. Uma estudante que atravessa a cidade em ônibus lotado, trabalha o dia inteiro e chega à aula exausta não disputa a mesma prova, nem o mesmo futuro, que o jovem cuja família financiou colégio, curso de idioma, computador, tempo livre e redes de contato. Chamar o resultado dessa corrida de mérito é converter vantagens materiais acumuladas em virtudes morais individuais. A desigualdade deixa de aparecer como relação social e passa a parecer diferença de valor entre pessoas.
O trabalhador meritocratico e a fábrica sem patrão visível
O caso do entregador de aplicativo torna essa operação brutalmente nítida. A empresa de plataforma se apresenta como intermediária tecnológica, enquanto o trabalhador é rebatizado de parceiro, empreendedor ou dono de sua rotina. A remuneração variável, os incentivos por meta e a classificação por desempenho compõem uma pedagogia meritocrática: quem ganha pouco teria aceitado poucas corridas, recusado demais, escolhido mal o horário ou demonstrado insuficiente disposição para trabalhar. A plataforma individualiza aquilo que é determinado pela tarifa imposta, pelo custo da gasolina, pelo risco das ruas, pela distribuição opaca de pedidos e pelo excesso de gente buscando renda.
O entregador vê no próprio celular uma espécie de tribunal permanente. Cada corrida, nota e bônus promete medir objetivamente seu valor; na realidade, mede sua adaptação a uma regra que ele não escreveu e não pode discutir. O algoritmo não precisa gritar como um capataz. Ele organiza escassez, premia disponibilidade total e pune, por meios muitas vezes indecifráveis, quem tenta preservar tempo, saúde ou renda mínima. A técnica, aqui, não é instrumento neutro colocado nas mãos da sociedade. Como alertava Heidegger, a técnica moderna tende a enquadrar o real como reserva disponível. Sob a gestão por aplicativo, o corpo do trabalhador é enquadrado como bateria, localização e capacidade de entrega.
É justamente nesse ponto que a palavra mérito faz seu serviço ideológico. Ela dá à exploração a aparência de oportunidade. Se cada pessoa é uma empresa de si, já não há patrão a quem atribuir a redução da renda, apenas decisões pessoais a revisar. O desempregado deve melhorar seu currículo; o operador de call center deve aperfeiçoar sua comunicação; a professora sobrecarregada deve inovar apesar da falta de estrutura; o entregador deve otimizar sua rota. A ordem econômica produz a precariedade, mas exige que suas vítimas a administrem como se fosse um projeto de autodesenvolvimento.
Meritocratico não é quem se esforça, mas quem aceita a regra
Marx mostrou que a aparência da troca entre indivíduos livres encobre uma relação na qual quem possui apenas sua força de trabalho precisa vendê-la para viver. A meritocracia atualiza essa aparência para a era neoliberal. Ela não diz apenas que todos podem trabalhar; diz que todos devem transformar cada aspecto de si em capital: atenção, aparência, sociabilidade, disponibilidade, diplomas, seguidores e capacidade de suportar pressão. O trabalhador passa a se vigiar para elevar sua empregabilidade, como se sua vida fosse uma carteira de ativos. Quando não encontra emprego ou não consegue pagar as contas, a acusação vem pronta: faltou investimento em si mesmo.
Esse discurso é particularmente perverso no Brasil porque convive com uma estrutura histórica de concentração de terra, renda, poder e educação. A herança colonial e escravista não desapareceu porque se abriu uma prova de concurso ou porque a universidade passou a usar processos seletivos padronizados. A seleção pode até produzir deslocamentos reais e importantes, mas não suspende o peso de uma sociedade em que alguns chegam à disputa com patrimônio, moradia estável, segurança alimentar e relações familiares capazes de amortecer qualquer queda. Para outros, uma doença, uma demissão ou uma moto quebrada basta para transformar esforço em ruína.
O mito ganha ainda mais força porque oferece uma compensação moral aos vencedores. Quem acumulou recursos pode interpretar sua posição como prova de superioridade, e não como resultado também de classe, herança e instituições moldadas a seu favor. Essa autolegitimação é indispensável à classe dominante. Não basta possuir; é preciso parecer merecer possuir. A meritocracia produz essa aparência ao trocar o vocabulário da exploração pelo da excelência. O salário baixo vira falta de qualificação; a concentração patrimonial vira competência; a desigualdade escolar vira diferença de dedicação.
A ideologia meritocrática não elimina o privilégio: ela lhe dá um currículo e chama esse currículo de caráter.
Guy Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Nas redes sociais, essa mediação fornece à meritocracia sua vitrine diária. O empreendedor sorridente, a rotina de produtividade, a mesa de trabalho impecável e o discurso sobre disciplina produzem uma cena em que o sucesso aparece separado de suas condições sociais. Não se vê a família que bancou os anos iniciais, o capital que absorveu erros, a rede de indicações, a terceirização do cuidado doméstico, o trabalhador mal pago na base da cadeia. Vê-se somente o indivíduo triunfante, convertido em propaganda de uma regra que talvez nem ele tenha vivido como narra.
Essa encenação não é inofensiva. Ela reorganiza afetos políticos. Em vez de indignação contra salários insuficientes, escolas precarizadas e jornadas extensas, ela cultiva vergonha de não render. Em vez de solidariedade entre trabalhadores, estimula competição por migalhas e suspeita contra quem reivindica direitos. O colega que adoece parece pouco resiliente; o desempregado parece acomodado; quem critica a exploração parece invejoso. A linguagem do mérito desloca a violência estrutural para o interior da consciência e transforma uma questão coletiva em sofrimento privado.
A escola entre promessa de ascensão e seleção de classe
A escola é um terreno decisivo dessa disputa. Ela pode ampliar repertórios, garantir acesso ao conhecimento e oferecer instrumentos para a crítica do mundo. Mas, submetida à lógica de ranking, desempenho e competição individual, também pode ensinar que a nota é uma medida integral do valor de alguém. O estudante aprende cedo a disputar vagas sem discutir por que as vagas são escassas, por que o ensino público é abandonado em tantos territórios e por que o trabalho que espera muitos formados continua instável e mal remunerado. A promessa de mobilidade é usada para silenciar a crítica à estrutura que torna essa mobilidade exceção.
Não é por acaso que o bolsonarismo e outras direitas autoritárias exploram tão bem a retórica do esforço individual. Ao hostilizar políticas de reparação, direitos trabalhistas e investimento público, apresentam qualquer medida de igualdade como privilégio indevido. A figura abstrata do cidadão que “venceu sozinho” serve para atacar cotas, sindicatos e proteção social. Mas essa defesa da liberdade individual convive sem embaraço com a liberdade muito concreta do capital para impor preços, demitir, terceirizar e capturar o Estado. Como observa Alysson Mascaro em sua crítica da forma estatal, o direito e o Estado não pairam acima das relações de produção; operam dentro de uma sociabilidade marcada pela reprodução do capital.
Recusar a meritocracia, então, não é pedir que ninguém seja reconhecido por seu trabalho. É recusar que a capacidade humana seja medida sob regras feitas para preservar hierarquias. Uma sociedade menos desigual não aboliria o empenho, o estudo ou a criação; aboliria a chantagem que obriga milhões a provar diariamente que merecem não passar fome. O que precisa ser socialmente valorizado não é a obediência meritocrática à competição, mas a construção de condições materiais para que ninguém dependa de uma corrida exaustiva para ter direito à vida.
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