A praxis marxista não é a aplicação de uma teoria pronta sobre uma realidade imóvel. É a unidade tensa entre compreender as relações materiais e intervir nelas para transformá-las. Essa definição ganha outra densidade quando observamos o trabalho dos entregadores de aplicativo no Brasil. O trabalhador que pedala por horas, submete seu corpo ao ritmo do algoritmo e assume sozinho os custos da atividade não precisa apenas de uma explicação sobre exploração. Ele precisa converter a experiência dispersa da precariedade em força coletiva capaz de confrontar a empresa, o Estado e a ideologia que apresenta sua submissão como empreendedorismo.
O chamado Breque dos Apps, em 2020, tornou visível essa possibilidade. Entregadores organizaram paralisações e mobilizações contra bloqueios, remuneração insuficiente, ausência de proteção e critérios opacos de distribuição das corridas. O movimento não surgiu porque uma vanguarda distribuiu um manual de marxismo aos trabalhadores. Surgiu de uma contradição concreta: plataformas que vendem a imagem de autonomia dependem de uma multidão submetida a regras que não controla. A teoria crítica começa quando essa contradição deixa de parecer um problema privado de cada entregador e passa a ser reconhecida como relação social.
Praxis marxista não é contemplação da exploração
A alienação, em Marx, não designa apenas um mal-estar subjetivo. Ela ocorre quando a atividade humana se volta contra quem a realiza e quando o produto, os meios e as condições do trabalho aparecem como poderes estranhos. No aplicativo, a alienação assume uma forma atualizada: o trabalhador possui a bicicleta ou a motocicleta, escolhe quando se conecta e recebe uma tela que parece oferecer liberdade. No entanto, não controla o preço da entrega, a avaliação, o bloqueio, a prioridade das chamadas nem o critério pelo qual seu tempo é convertido em renda.
A propriedade de alguns instrumentos de trabalho não elimina a exploração. Ao contrário, a plataforma desloca para o indivíduo despesas, riscos e períodos sem remuneração, enquanto conserva o controle da infraestrutura digital e dos dados. A aparência de autonomia encobre uma relação de dependência. O entregador pode desligar o aplicativo, mas, se precisa daquela renda para pagar as contas, a possibilidade formal de recusa não equivale a liberdade material.
É nesse ponto que a praxis se distingue tanto do comentário acadêmico quanto da indignação episódica. A indignação identifica a violência; a praxis procura organizar os sujeitos submetidos a ela e alterar a correlação de forças que a reproduz. Um trabalhador isolado pode recusar uma corrida. Uma categoria organizada pode questionar o modelo de remuneração, disputar regras públicas e afirmar que a plataforma não é uma simples intermediária tecnológica, mas uma empresa que organiza trabalho e dele extrai valor.
Da experiência individual à classe em movimento
O capitalismo contemporâneo fragmenta trabalhadores que desempenham funções semelhantes. O entregador é chamado de parceiro; o professor contratado por produtividade é tratado como prestador; o atendente de call center recebe metas como se fossem desafios pessoais. A linguagem empresarial transforma relações de classe em escolhas individuais. Se a renda é baixa, a culpa recai sobre a suposta falta de esforço. Se o trabalhador adoece, a responsabilidade é apresentada como falha de gestão da própria vida.
Essa ideologia não é apenas uma mentira que se corrige com informação. Ela organiza comportamentos e impede que a experiência seja generalizada. O entregador que se considera um empreendedor fracassado tende a interpretar o bloqueio como infortúnio pessoal, não como mecanismo de disciplina. O professor que não alcança a meta de produção sente vergonha, não percebe a estrutura que converte educação em desempenho mensurável. A praxis precisa romper esse isolamento, produzindo uma linguagem comum para sofrimentos que o mercado distribui como problemas privados.
O Breque dos Apps foi importante precisamente porque interrompeu, ainda que de modo limitado, a narrativa da autonomia individual. A paralisação mostrou que o aplicativo não funciona sem o trabalho vivo que pretende tornar invisível. Mas a existência de uma mobilização não garante sua continuidade nem sua vitória. A empresa pode oferecer concessões pontuais, alterar a comunicação e preservar a estrutura de controle. A ação coletiva precisa avançar da denúncia para a organização permanente, da reivindicação imediata para a disputa sobre quem decide as condições do trabalho.
O algoritmo não substitui a política
A tecnologia participa da exploração, mas não é sua causa autônoma. Em Heidegger, a técnica moderna aparece como uma forma de revelar o mundo como estoque disponível, pronto para ser calculado e utilizado. No capitalismo de plataformas, essa lógica alcança o tempo, o deslocamento, a atenção e o corpo do trabalhador. Cada entrega vira dado; cada pausa pode ser lida como improdutividade; cada avaliação converte uma relação social em índice de desempenho. O algoritmo parece neutro porque transforma decisões empresariais em operações técnicas.
Essa aparência é politicamente útil. Se o bloqueio é produzido por um sistema automático, ninguém parece responsável. Se a tarifa muda, a empresa pode alegar que apenas responde à demanda. Se a plataforma classifica o trabalhador, a classificação aparece como resultado objetivo de dados, não como escolha de um poder privado. A crítica marxista precisa retirar o algoritmo desse lugar de mistério. Ele não possui vontade própria: expressa objetivos de acumulação, redução de custos e controle da força de trabalho.
Por isso, reivindicar transparência pode ser necessário, mas não basta. Saber como o sistema calcula a remuneração não entrega aos trabalhadores o controle sobre a atividade. Uma caixa-preta aberta ainda pode continuar pertencendo ao capital. A questão decisiva é quem define os critérios, quem administra os dados, quem responde pelos acidentes e quem se apropria do valor gerado. Sem essa disputa, a crítica tecnológica corre o risco de pedir uma exploração mais compreensível, em vez de enfrentar a exploração.
O Estado não é árbitro exterior à luta
A luta dos entregadores também revela os limites da ideia de que bastaria regular o mercado para corrigir seus abusos. O Estado pode estabelecer direitos, fiscalizar empresas e reconhecer vínculos de trabalho, e essas medidas podem melhorar concretamente a vida de milhões. Mas, como mostra Alysson Mascaro ao analisar a forma política do capitalismo, o Estado não paira acima das relações econômicas. Sua estrutura jurídica universaliza indivíduos formalmente livres e proprietários, enquanto a produção permanece organizada pela exploração.
Isso significa que a ação política não deve abandonar a disputa institucional, mas tampouco pode depositar nela toda a esperança. Uma lei favorável pode ser restringida, esvaziada ou aplicada de maneira seletiva. A força dos trabalhadores depende da organização que sustenta a reivindicação antes, durante e depois da negociação. Sem essa força, a promessa de proteção pode ser rebaixada a programa de inclusão subordinada: o trabalhador permanece exposto, apenas com uma nova linguagem administrativa para nomear sua exposição.
A praxis, nesse sentido, não separa economia e política. A tarifa, o bloqueio e a jornada são questões econômicas; a definição de direitos, a propriedade da plataforma e a fiscalização são questões políticas. A empresa tenta apresentar sua operação como assunto privado, mas toda relação de trabalho é atravessada por leis, instituições e decisões coletivas. Quando os entregadores ocupam a esfera pública, não estão desviando de sua pauta. Estão descobrindo que a exploração só se sustenta porque encontra proteção jurídica, tolerância social e representação política.
Organizar a recusa do mundo administrado
Guy Debord descreveu o espetáculo como uma relação social mediada por imagens. No trabalho de plataforma, a imagem do empreendedor conectado cumpre essa função: substitui a figura do trabalhador explorado por uma promessa de independência, flexibilidade e ascensão. A publicidade não precisa negar a precariedade; basta exibir alguns casos de sucesso para transformar a exceção em norma imaginária. O fracasso, então, parece prova de incapacidade individual.
Romper com esse espetáculo exige mais do que expor suas falsidades. É preciso construir práticas que produzam outro tipo de poder. Sindicatos, associações, assembleias, fundos de solidariedade e redes de apoio não são acessórios morais da luta: são formas materiais de reduzir a dependência diante da empresa. A organização permite que o trabalhador atravesse o medo do bloqueio, compartilhe informação e transforme uma perda individual em conflito coletivo.
A praxis marxista não promete uma passagem automática da revolta à emancipação. A classe não aparece pronta; forma-se na disputa, com avanços, recuos, divergências e derrotas. O desafio está em impedir que cada mobilização seja absorvida como episódio de comunicação corporativa ou como espetáculo de indignação nas redes. O Breque dos Apps mostrou uma fissura no discurso da autonomia. A tarefa política é fazer dessa fissura uma abertura duradoura para questionar a propriedade, o comando e a finalidade social das plataformas.
Quando um entregador interrompe a circulação que sustenta o aplicativo, ele não apenas reivindica uma taxa melhor. Ele revela que a tecnologia depende de relações humanas que o capital tenta esconder. Quando essa revelação se converte em organização, a experiência deixa de ser destino individual e se torna matéria de transformação. É aí que a teoria deixa de observar o mundo de fora: na prática coletiva que recusa aceitar como natural uma sociedade construída para beneficiar quem controla o trabalho alheio.
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