Qual o objetivo do capitalismo? A resposta não está em seus discursos sobre liberdade, inovação ou prosperidade compartilhada, mas no movimento concreto que organiza a sociedade: transformar dinheiro em mais dinheiro. O entregador que pedala por horas, o professor submetido a metas e plataformas, a trabalhadora de call center controlada por segundos e scripts não produzem prioritariamente para satisfazer necessidades humanas. Produzem para que uma empresa acumule valor, reduza custos e amplie sua capacidade de explorar trabalho.
Isso não significa que o capitalismo não produza mercadorias úteis. Significa que a utilidade é subordinada a outra finalidade. Um alimento, um remédio, uma casa ou um aplicativo só entram plenamente no circuito capitalista quando podem realizar valor no mercado. O sistema não pergunta primeiro do que as pessoas precisam, mas quanto lucro uma necessidade pode gerar. Quando não há lucro, mesmo uma necessidade urgente tende a ser tratada como problema secundário, gasto público excessivo ou oportunidade ainda não explorada.
Qual o objetivo do capitalismo além da promessa de progresso
Na crítica de Marx, a fórmula decisiva do capital é D-M-D’: dinheiro que compra mercadorias, sobretudo força de trabalho e meios de produção, para retornar ampliado. O ponto de partida e o ponto de chegada são o dinheiro acrescido de lucro. A mercadoria é o meio; a acumulação é a finalidade. O capital não é apenas riqueza, comércio ou dinheiro guardado. É uma relação social que precisa crescer continuamente e que transforma a produção, a técnica e o tempo de vida em instrumentos dessa expansão.
É por isso que o capitalismo não pode se limitar a produzir o suficiente. Uma empresa que obtenha lucro estável, mas não consiga acompanhar a pressão por expansão, produtividade e competitividade, será considerada atrasada, vulnerável ou descartável. O capital precisa reinvestir, conquistar mercados, baratear o trabalho, acelerar os ciclos de produção e encontrar novas formas de transformar dimensões da vida em mercadoria. O resultado é uma sociedade submetida a uma exigência abstrata que ninguém controla individualmente, mas que se impõe sobre todos: crescer ou ser eliminado.
O trabalhador aparece nesse processo como pessoa livre apenas em sentido jurídico. Ele não pertence formalmente ao patrão, como ocorria na escravidão, mas precisa vender sua capacidade de trabalhar para sobreviver. A diferença entre o valor produzido durante a jornada e o valor pago em salário constitui a mais-valia. Não existe aplicativo colorido, discurso de autonomia ou contrato chamado parceria que elimine essa relação. A linguagem muda; a apropriação do trabalho alheio permanece.
O entregador e a finalidade real do capital
O entregador de aplicativo é uma figura exemplar dessa contradição. A plataforma afirma que oferece flexibilidade e oportunidade para quem deseja empreender. Na prática, o trabalhador assume os custos da motocicleta, da manutenção, do combustível, do celular, dos acidentes e do tempo de espera. O aplicativo controla sua atividade por meio de algoritmos, distribui pedidos, define incentivos, registra avaliações e pode reduzir seu acesso às entregas sem uma negociação transparente.
A plataforma não precisa manter uma fábrica visível nem contratar todos os trabalhadores segundo o modelo tradicional para organizar a exploração. Ela transforma a gestão em código e desloca riscos para o indivíduo. O entregador é convocado a se enxergar como empresário de si mesmo, embora não controle o preço do serviço, a relação com o consumidor, a distribuição dos pedidos ou as regras do sistema. A ideologia do empreendedorismo encobre essa dependência ao converter subordinação econômica em suposta escolha pessoal.
O que interessa à empresa não é que o entregador tenha uma vida segura, uma renda previsível ou tempo para descanso. Interessa que a entrega seja realizada ao menor custo, no menor prazo e com a menor responsabilidade patronal possível. A tecnologia, nesse caso, não liberta o trabalho de sua exploração. Ela aperfeiçoa a capacidade de medir, comparar, pressionar e substituir trabalhadores. O algoritmo é apresentado como neutro porque não grita, não ameaça e não demonstra preferências. Mas suas regras expressam decisões econômicas e relações de poder.
A promessa de escolha e a administração da obediência
Em um call center, a cena é menos celebrada, mas a lógica é semelhante. A trabalhadora atende clientes seguindo scripts, cumpre metas de duração, suporta monitoramento constante e pode ser avaliada por indicadores que reduzem sua atividade a uma sequência de números. O discurso empresarial chama isso de eficiência e qualidade. O corpo vivido, porém, encontra pressão, repetição e exaustão. A fala precisa soar espontânea dentro de limites previamente calculados.
O professor submetido a plataformas educacionais e metas de produtividade também é capturado por essa racionalidade. O tempo de preparação, a correção, a relação com os alunos e a elaboração intelectual são comprimidos para caber em planilhas de desempenho. A educação passa a ser administrada como entrega mensurável, e o trabalhador que não alcança os indicadores é responsabilizado por uma precarização que não criou.
A alienação aparece quando os produtos e as instituições criados pelos seres humanos se erguem diante deles como forças estranhas. O trabalhador produz riqueza, tecnologia e conhecimento, mas não decide o destino social dessa produção. Quanto mais a empresa se fortalece, mais ele pode se tornar descartável. Quanto mais a plataforma conhece seus hábitos, horários e deslocamentos, menos controle ele possui sobre as condições que organizam sua própria atividade.
O objetivo do capitalismo e a fabricação de necessidades
O capitalismo não apenas atende desejos existentes; ele fabrica necessidades compatíveis com a acumulação. A indústria cultural descrita pela tradição de Frankfurt mostrou como a cultura pode ser organizada segundo a mesma lógica da mercadoria: padronizar gostos, vender estilos de vida e converter atenção em receita. No ambiente digital, essa dinâmica se aprofunda. A plataforma disputa cada segundo de concentração, coleta dados sobre comportamentos e transforma a experiência em matéria-prima para publicidade, previsão e controle.
Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo uma forma de vida em que a relação entre pessoas é mediada por imagens e mercadorias. O espetáculo não é apenas televisão, propaganda ou entretenimento. É uma organização social na qual aquilo que aparece substitui aquilo que é vivido. O trabalhador pode ser apresentado como vencedor, autônomo e inovador enquanto sua existência concreta depende de jornadas extensas e renda instável. A imagem de liberdade funciona como parte da disciplina.
Essa inversão também sustenta a meritocracia. Se cada indivíduo é responsabilizado isoladamente por seu sucesso, as relações de classe desaparecem do campo de visão. O salário baixo vira falta de esforço; o desemprego vira deficiência de qualificação; a exaustão vira incapacidade de organização. A sociedade capitalista apresenta como resultado de mérito aquilo que é produzido por posições desiguais diante da propriedade, do poder e do acesso às oportunidades.
Estado, direito e a naturalização da exploração
O Estado não está fora dessa dinâmica como árbitro neutro entre interesses equivalentes. Como mostra Alysson Mascaro, a forma política estatal se relaciona estruturalmente à forma mercadoria e à reprodução do capitalismo. O Estado garante direitos individuais, contratos e liberdade jurídica, mas essa igualdade formal convive com a desigualdade material entre quem possui meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho.
Isso explica por que a regulação de aplicativos, a proteção trabalhista e os serviços públicos são permanentemente disputados. Quando o poder público limita a exploração, a classe dominante acusa a medida de impedir a inovação ou aumentar o custo para o consumidor. Quando o Estado financia empresas, oferece infraestrutura e protege contratos privados, essa intervenção costuma ser apresentada como normalidade econômica. A neutralidade desaparece no momento em que observamos quem arca com os riscos e quem fica com os ganhos.
O capitalismo pode incorporar reformas, direitos e políticas sociais sem abandonar seu objetivo central. Melhorias reais nas condições de trabalho são conquistas importantes, mas não transformam automaticamente a finalidade do sistema. A exploração pode ser menos brutal, mais regulada e socialmente legitimada, enquanto a produção continua orientada pela acumulação privada.
Quando a produção deixa de servir à vida
A questão decisiva não é se o capitalismo produz riqueza, mas para quem essa riqueza é produzida e sob qual comando. A sociedade possui capacidade técnica para reduzir jornadas, ampliar o acesso à saúde, à educação e à moradia, e organizar o trabalho de modo menos destrutivo. No entanto, essa capacidade é bloqueada quando sua realização ameaça a rentabilidade de empresas e investidores.
O objetivo do capitalismo não é o bem-estar, embora possa se apropriar dessa linguagem. Não é a liberdade, embora dependa de proclamá-la. Não é a inovação, embora celebre cada novidade tecnológica. Seu objetivo é a valorização do valor: a expansão incessante de uma riqueza que se acumula como poder privado sobre o trabalho social.
Romper com essa lógica exige mais do que trocar o aplicativo, o chefe ou o slogan corporativo. Exige disputar quem decide o que produzir, como produzir e para que finalidade. Enquanto essas decisões permanecerem submetidas à rentabilidade, a tecnologia continuará podendo servir ao controle, a produtividade continuará significando intensificação do trabalho e a promessa de autonomia continuará escondendo dependência. A vida não será o centro do sistema por receber discursos sobre dignidade, mas somente quando deixar de ser matéria-prima da acumulação.
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