Racismo estrutural não é o nome sofisticado para a existência de racistas. É o modo pelo qual uma sociedade organizada sobre a herança escravista distribui trabalho, renda, risco, autoridade e até o direito ao descanso segundo a raça. Quando a discussão se limita à pergunta moral — quem teve intenção de ofender? —, ela poupa precisamente a máquina que produz a desigualdade. O preconceito pessoal é real e violento, mas não explica sozinho por que a população negra aparece tão frequentemente nos postos de menor remuneração, nos deslocamentos mais longos, nos territórios abandonados pelo Estado e na mira preferencial de sua polícia. A estrutura não precisa de uma reunião secreta de racistas para funcionar; ela se reproduz todos os dias pela normalidade das instituições capitalistas brasileiras.
Essa normalidade tem uma cena brutal: em junho de 2020, Miguel Otávio, filho de Mirtes Renata Santana de Souza, morreu após cair de um prédio de luxo no Recife. Mirtes era trabalhadora doméstica e havia ido trabalhar durante a pandemia. Seu filho ficou sob os cuidados da empregadora enquanto ela passeava com o cachorro da casa. O caso não pode ser reduzido à conduta de uma pessoa, por mais indispensável que seja apurar responsabilidades individuais. Ele expõe uma relação social inteira: uma mulher negra, empregada doméstica, precisava deixar o próprio filho no espaço de trabalho para executar tarefas destinadas ao conforto de uma família branca e rica. A vida de Miguel entrou naquela casa não como vida a ser protegida, mas como inconveniente subordinado à rotina da patroa.
É essa engrenagem que a fórmula “racismo estrutural” deve revelar. O Brasil aboliu juridicamente a escravidão sem repartir terra, riqueza, moradia ou poder político entre aqueles que haviam sido escravizados e seus descendentes. A liberdade formal chegou desacompanhada de condições materiais para exercê-la. A classe dominante pôde preservar patrimônio, mando e prestígio; à população negra foi oferecida a concorrência desigual por empregos, habitação e educação. Não se trata de afirmar que toda pessoa branca é rica ou que toda pessoa negra ocupa a mesma posição social. Trata-se de entender que classe e raça não correm em trilhos separados: no capitalismo brasileiro, a raça organiza a oferta de força de trabalho barata e torna socialmente aceitável que certos corpos carreguem mais cansaço, perigo e humilhação.
Racismo estrutural começa onde o mérito termina
A ideologia meritocrática é decisiva para esconder esse mecanismo. Ela observa o resultado — o empresário branco no comando, a mulher negra na limpeza, o jovem negro entregando comida na chuva — e inventa uma explicação moral para uma distribuição histórica de oportunidades. Um teria estudado, poupado e se esforçado; outro não teria feito escolhas corretas. Mas a pergunta material é outra: quem pôde estudar sem trabalhar cedo? Quem herdou uma casa em bairro servido por transporte, rede de contatos e escolas? Quem pode errar sem cair na fome? Quem foi educado para se reconhecer como chefe, e quem foi educado para se apresentar como serviçal?
Marx mostrou que a aparência da troca salarial encobre uma relação de exploração: trabalhador e patrão parecem celebrar um contrato entre livres, mas um possui os meios de produção e o outro precisa vender sua força de trabalho para viver. No Brasil, essa relação carrega as marcas da escravidão. A trabalhadora doméstica não vende apenas horas de serviço; vende a disponibilidade de cuidar da casa, dos filhos e da intimidade de outra família, quase sempre em uma relação atravessada por paternalismo. O “ela é praticamente da família” pode soar afetuoso, mas frequentemente é uma frase de dominação: quer os deveres de uma empregada sem reconhecer integralmente seus direitos e sua vida própria.
O trabalho doméstico evidencia como a estrutura produz afetos convenientes. A patroa pode dizer que confia na empregada, que a considera indispensável, que ajuda quando pode. Ainda assim, a trabalhadora pega vários ônibus, deixa filhos sob cuidados precários, aceita horários extensos e retorna a uma casa que não recebeu o mesmo investimento, segurança e conforto daquela que ela mantém limpa. O vínculo afetivo não desfaz a relação de classe; pode até torná-la mais opaca. A caridade substitui o direito, e a gratidão exigida substitui o salário digno. Quando acontece uma tragédia como a de Miguel, a sociedade é obrigada a encarar o que prefere manter nos fundos da casa: a desigualdade tem empregados, elevadores de serviço, quartos minúsculos e crianças que não deveriam estar expostas àquela situação.
A cidade também administra a vida pela cor
O racismo estrutural não se encerra na porta do apartamento. Ele aparece no mapa urbano. Os bairros onde vivem trabalhadores pobres, em grande medida negros, costumam estar mais longe dos centros de emprego e dispõem de menos serviços públicos. A jornada de trabalho não é apenas o tempo registrado no ponto: inclui o deslocamento exaustivo, a espera pelo ônibus, a insegurança do caminho e a tarefa doméstica que continua depois do expediente. Para quem entrega mercadorias por plataforma, a cidade é ainda mais explícita. O aplicativo vende a fantasia do empreendedor autônomo, mas organiza uma massa de trabalhadores disponíveis, sem renda garantida, submetidos a metas e avaliações que não controlam. Muitos são negros porque a desigualdade racial já os empurrou para o mercado que oferece menos proteção.
Não é um detalhe que o entregador seja abordado com suspeita na entrada de um condomínio onde sua presença é aceita apenas enquanto carrega uma mochila com o logotipo da plataforma. Ele pode entrar para servir, mas não para pertencer. Essa é uma pedagogia cotidiana da hierarquia: porteiros, câmeras, regras de acesso, olhares e abordagens policiais ensinam quem é tratado como proprietário presumido e quem é percebido como ameaça presumida. A tecnologia não elimina esse padrão; ela o administra com eficiência. Plataformas transformam pessoas em notas, rotas e tempos de entrega, enquanto sistemas de vigilância convertem a suspeita racial em procedimento aparentemente técnico.
Heidegger advertia que a técnica moderna tende a enquadrar o real como reserva disponível, algo a ser calculado e explorado. Na economia de plataformas, essa reserva tem corpo e cor. O trabalhador é reduzido a localização, desempenho e disponibilidade; seu adoecimento ou sua morte aparecem como externalidades da operação. Mas não há algoritmo inocente quando ele se instala num país cuja força de trabalho já foi racialmente hierarquizada. A empresa pode proclamar que seus critérios são automáticos, enquanto se beneficia de uma população empobrecida, com menor poder de recusa e maior necessidade de aceitar qualquer corrida.
O Estado não está fora da estrutura
Seria confortável imaginar que o Estado corrige os excessos do mercado. No entanto, ele participa da reprodução da ordem quando oferece proteção desigual, pune seletivamente e trata direitos sociais como favor orçamentário. Alysson Mascaro insiste que o Estado e o direito não pairam acima do capitalismo como árbitros neutros; eles são formas históricas ligadas à reprodução das relações sociais capitalistas. Isso não significa que leis e políticas públicas sejam inúteis. Direitos trabalhistas, educação pública, ações afirmativas e políticas de moradia são frutos de luta e podem alterar vidas concretas. Significa, porém, que sua existência formal não basta quando as instituições operam num terreno desigual e quando os interesses proprietários delimitam o alcance das transformações.
A polícia é talvez a face mais nua desse problema. Ela não atua no vácuo, como simples máquina de resposta ao crime. Atua em territórios previamente abandonados por emprego, escola, saúde, lazer e infraestrutura; depois, esse abandono é narrado como perigo natural daquele território. O jovem negro pobre torna-se suspeito antes de qualquer ato porque a sociedade do espetáculo, no sentido de Debord, repete imagens de criminalidade desligadas das condições que a produzem. A televisão transforma operações violentas em espetáculo de ordem, enquanto a exploração econômica que expulsa, endivida e precariza permanece quase invisível. A violência estatal aparece como remédio; a desigualdade que a alimenta, como destino.
Chamar isso de estrutural não dilui responsabilidades. Ao contrário: impede que a indignação seja descarregada apenas em indivíduos facilmente condenáveis, preservando empresas, governos, condomínios, escolas e famílias que lucram ou se acomodam à hierarquia. O combate ao racismo exige responsabilizar atos racistas, mas também mexer nas condições que tornam esses atos previsíveis e socialmente tolerados. Exige valorizar e proteger o trabalho, enfrentar a segregação urbana, garantir serviços públicos, combater a violência policial e recusar a mentira de que o mercado premia talentos de maneira imparcial.
A morte de Miguel não foi uma abstração sociológica. Foi o ponto em que uma cadeia de relações — trabalho doméstico desvalorizado, maternidade sem amparo, desigualdade racial, privilégio de classe e naturalização do serviço — se tornou impossível de ignorar. Racismo estrutural é o nome dessa cadeia. Entendê-lo é recusar tanto a desculpa de que tudo se resume a casos isolados quanto a resignação de que a desigualdade brasileira seria inevitável. O que foi construído por exploração, propriedade e poder pode e deve ser desmontado por luta social.
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