Quando entregadores de aplicativos voltaram a organizar paralisações e mobilizações nacionais, como no Breque dos Apps de 2025, a reação previsível das empresas e de parte da imprensa foi traduzir um conflito de classe em problema de gestão: haveria ajustes possíveis nas taxas, nos bloqueios, nos canais de atendimento. A tradução é conveniente. Ela retira da cena aquilo que está em disputa: quem controla o trabalho, quem define seu valor, quem acumula com ele e quem arca com o custo da cidade hostil. O trabalhador aparece na tela como “parceiro”; na rua, é submetido ao prazo, à avaliação invisível, ao risco do trânsito, à chuva, ao assalto e à renda que pode desaparecer por uma decisão automática.

É nesse ponto que a teoria crítica deixa de ser uma etiqueta acadêmica e se torna uma ferramenta de leitura do presente. Seu trabalho não é admirar a inovação nem condenar abstratamente uma tela de celular. É recusar as explicações que tomam como natural aquilo que foi organizado por relações de poder. Se um aplicativo consegue apresentar a transferência de custos para o trabalhador como liberdade de escolha, não basta perguntar se a tecnologia é eficiente. É preciso investigar a forma social que faz da eficiência empresarial uma máquina de insegurança para milhões.

O algoritmo não substituiu o patrão; tornou seu comando menos visível

A propaganda das plataformas insiste numa imagem: a do sujeito que liga o aplicativo quando quer, escolhe quanto trabalhar e constrói sua própria renda. Há alguma liberdade formal nessa cena, mas ela é estreita e não elimina a dependência material. O entregador pode, em tese, recusar uma corrida; na prática, precisa aceitar pedidos ruins para alcançar um ganho diário mínimo, sustentar a casa, pagar combustível, manutenção, aluguel da moto ou a parcela da bicicleta elétrica. Pode desligar o aplicativo; não pode desligar a conta de luz, o mercado ou o aluguel.

Marx mostrou que a liberdade do trabalhador assalariado sob o capitalismo tem uma dupla face: ele é livre para vender sua força de trabalho e, ao mesmo tempo, livre dos meios que lhe permitiriam viver sem vendê-la. A plataforma atualiza essa condição com vocabulário empreendedor. Ela dispensa parte das obrigações trabalhistas, chama subordinação de autonomia e converte o trabalhador em microempresa de si mesmo. Capacete, veículo, dados móveis, reparos e tempo de espera entram como investimento individual; a receita gerada pela coordenação dessa massa de trabalho circula como sucesso tecnológico da empresa.

O algoritmo é decisivo não porque seja uma entidade maligna dotada de vontade própria, mas porque organiza o comando sem assumir a figura clássica do chefe. Ele distribui ofertas, hierarquiza desempenhos, induz trajetos, mede velocidade, registra avaliações e pode bloquear perfis. Seus critérios costumam ser opacos para quem trabalha, enquanto o trabalhador é radicalmente exposto à medição. A assimetria é a própria relação de poder: a empresa sabe onde estão os entregadores, quanto aceitam, em que horários circulam e como respondem aos incentivos; o entregador não sabe plenamente por que recebeu menos chamadas, por que foi punido ou como se calcula o valor de sua corrida.

Chamar esse regime de “flexível” é reproduzir o ponto de vista de quem compra força de trabalho sem querer responder por ela. Para quem pedala ou pilota por longas jornadas, flexibilidade significa renda variável, ausência de proteção diante de acidente e disponibilidade permanente diante de uma demanda que não controla. A tecnologia não aboliu a exploração; refinou seus instrumentos e distribuiu seus custos para baixo.

A cidade vê a entrega e deixa de ver o trabalho

Há uma operação ideológica também do lado de quem pede comida. O consumidor acompanha no mapa um ícone se deslocando, recebe previsões de minutos e avalia o serviço ao fim da compra. A interface transforma uma cadeia extensa de trabalho em experiência individual de conveniência. O entregador entra no campo visual como ponto móvel e, depois da entrega, desaparece. A urgência fabricada — comida rápida, frete rápido, resposta imediata — parece exigência espontânea da vida urbana, quando é resultado de um modelo de negócio que educa consumidores e trabalhadores para aceitar velocidades cada vez mais violentas.

Debord ajuda a compreender essa inversão. Na sociedade do espetáculo, a relação social não deixa de existir; ela se apresenta por imagens e aparências que a tornam difícil de reconhecer. A tela exibe autonomia, agilidade e personalização. Fora dela, há uma relação entre capital e trabalho na qual um lado concentra a infraestrutura, os dados e a decisão, enquanto o outro vende tempo, corpo e disponibilidade. A imagem do entregador empreendedor não é uma mentira isolada de campanha: é a forma pela qual uma estrutura econômica busca ser desejada e defendida por aqueles que dela extraem algum benefício imediato.

A mesma lógica alcança quem trabalha em call centers, centros de distribuição, escolas privadas e escritórios submetidos a metas. O professor recebe plataformas que prometem modernizar a aula, mas frequentemente acumulam registros, relatórios e tarefas administrativas sem ampliar sua autonomia pedagógica. A atendente de telemarketing é medida por segundos, scripts e notas de satisfação. O empregado remoto parece ter escapado do relógio de ponto, mas pode carregar no computador softwares de monitoramento e uma jornada que invade a casa. Em todos esses casos, a ferramenta é apresentada como neutra; o que se oculta é a pergunta sobre quem definiu seus fins.

A crítica precisa alcançar as promessas que habitam o trabalhador

Não basta denunciar a empresa como se a ideologia estivesse apenas em sua publicidade. O capitalismo também se sustenta porque suas promessas penetram a experiência de quem sofre suas consequências. O entregador pode desejar mais corridas e rejeitar qualquer regra que pareça limitar sua renda, mesmo quando a falta de regras o deixa desprotegido. O jovem precarizado pode se identificar com a palavra empreendedor porque ela oferece dignidade simbólica num mercado que lhe nega estabilidade. Isso não é ignorância individual nem defeito moral. É a resposta possível de quem precisa sobreviver numa ordem que transformou direitos em privilégios e vendeu adaptação como virtude.

A indústria cultural, analisada pelos pensadores da Escola de Frankfurt, não opera apenas entretendo. Ela produz padrões de percepção e de desejo compatíveis com a ordem existente. Nas redes, o discurso do “corre” celebra jornadas extenuantes como prova de caráter; vídeos de produtividade ensinam a explorar cada intervalo do dia; histórias excepcionais de enriquecimento dão aparência de regra a trajetórias raras. A miséria estrutural é recodificada como insuficiência de esforço. Assim, a mais-valia deixa de aparecer como apropriação privada do trabalho excedente e passa a se ocultar sob a moral da disposição individual.

A teoria crítica não trata quem acredita nisso como massa passiva a ser corrigida por especialistas. Ela procura as contradições presentes na própria vida social. A plataforma promete independência, mas depende de trabalhadores sem poder real de negociação. Promete renda complementar, mas organiza jornadas das quais famílias inteiras passam a depender. Promete inovação, mas conserva um princípio antigo: concentrar os ganhos e socializar os riscos. Promete neutralidade técnica, mas suas regras produzem vencedores e perdedores. Nomear tais conflitos permite que a experiência isolada — a corrida mal paga, o bloqueio sem explicação, a exaustão tratada como escolha — seja reconhecida como parte de uma estrutura comum.

Do incômodo privado à posição diante do mundo

O que muda para quem lê essa crítica não é uma revelação confortável de que todo aplicativo é perverso, nem uma recomendação purista para abandonar tecnologias que se tornaram necessárias em muitas rotinas. Muda o terreno da pergunta. Em vez de perguntar apenas se o serviço é prático, cabe perguntar quais condições tornam sua praticidade possível. Em vez de admirar a eficiência da entrega em poucos minutos, cabe enxergar o tempo humano comprimido para que ela aconteça. Em vez de aceitar o bloqueio algorítmico como falha técnica, cabe vê-lo como exercício de poder que exige transparência, defesa e organização coletiva.

Essa mudança importa porque a alienação começa a ceder quando aquilo que parecia destino individual passa a ser percebido como relação social transformável. O entregador não é parceiro porque o aplicativo o chama assim; é trabalhador porque sua sobrevivência depende de vender sua atividade sob regras definidas por outro. O consumidor não está fora dessa relação, pois sua comodidade é organizada por ela. E a tecnologia não é um tribunal acima da política: ela incorpora decisões empresariais, disputas de classe e prioridades que podem — e devem — ser contestadas.

Tomar partido nesse conflito é a consequência prática de pensar criticamente. Significa recusar a chantagem segundo a qual direitos destruiriam a inovação, apoiar a organização dos trabalhadores de plataforma e não confundir a linguagem polida do empreendedorismo com emancipação. A teoria só se realiza quando ajuda a interromper a naturalidade da dominação. Na rua, entre a mochila térmica e a tela que ordena o próximo pedido, essa interrupção já começou.