A espetacularização não é apenas a presença excessiva de imagens, celebridades ou acontecimentos dramáticos na vida social. No capitalismo de plataformas, ela se tornou uma forma de organizar a experiência: aquilo que não aparece parece não existir, e aquilo que aparece precisa ser convertido em atenção, engajamento, reputação ou consumo. O entregador que filma sua jornada, a trabalhadora que expõe a rotina exaustiva, o político que transforma conflito social em cena e o influenciador que traduz a pobreza em narrativa de superação participam de uma mesma economia da visibilidade. O espetáculo não substitui a exploração; ele a torna suportável, vendável e, muitas vezes, invisível como exploração.

Essa operação pode ser observada no cotidiano dos entregadores de aplicativo. O trabalhador pedala ou pilota por horas, submetido a avaliações, bloqueios, metas informais e remunerações que dependem de uma lógica algorítmica opaca. Mas, nas redes sociais, a figura que circula não é necessariamente a do trabalhador exausto, sem proteção previdenciária e exposto ao trânsito. Circula o “guerreiro”, o empreendedor de si mesmo, o sujeito que venceu a adversidade com disciplina, fé e disposição. A precariedade é apresentada como prova de caráter. A jornada sem direitos aparece como aventura; a necessidade de aceitar qualquer corrida aparece como liberdade; a ausência de patrão visível aparece como autonomia.

O espetáculo não esconde a exploração: ele a reorganiza

Guy Debord definiu o espetáculo como uma relação social mediada por imagens. A formulação é mais precisa do que a ideia corrente de que espetáculo seria apenas excesso de publicidade ou entretenimento. A imagem, em Debord, não é uma camada superficial aplicada sobre uma realidade intacta. Ela participa da própria organização da realidade, porque orienta os indivíduos sobre o que desejar, admirar, temer e considerar normal. O espetáculo é a aparência socialmente dominante de uma sociedade em que as relações entre pessoas assumem a forma de relações entre coisas e imagens.

Nas plataformas digitais, essa mediação se intensifica porque a visibilidade é quantificada, distribuída e comercializada por sistemas técnicos. Curtidas, visualizações, compartilhamentos, avaliações e seguidores parecem expressar reconhecimento, mas também funcionam como instrumentos de classificação. A plataforma não apenas hospeda a imagem do trabalhador: ela decide quem será visto, em que momento, por qual público e sob qual lógica de rentabilidade. A atenção se converte em ativo, e a exposição passa a ser uma exigência econômica para quem deseja sobreviver no mercado de trabalho ou construir uma identidade pública.

É nesse ponto que a espetacularização da precariedade se distingue de uma simples representação da pobreza. O problema não está em mostrar o sofrimento, denunciar a injustiça ou produzir testemunhos. Ao contrário, tornar visível o que o discurso dominante deseja ocultar pode ser uma prática política necessária. A questão é saber sob quais condições a imagem é produzida, quem controla sua circulação e qual relação social ela termina por reproduzir. Um vídeo de um entregador denunciando o valor de uma corrida pode romper o silêncio. Mas a mesma plataforma que amplia essa denúncia pode transformá-la em conteúdo consumível, isolando o caso individual e devolvendo a responsabilidade ao próprio trabalhador.

O sofrimento aparece, então, sem a estrutura que o produz. Vemos a chuva, o acidente, o cansaço, a fome ou o bloqueio da conta, mas não necessariamente vemos a propriedade da plataforma, a assimetria contratual, a transferência de custos para o trabalhador e o poder empresarial de definir os critérios de remuneração. A imagem torna a dor próxima e a causa distante. O público se comove com o indivíduo, mas não é conduzido a reconhecer a forma social que produz milhares de indivíduos submetidos à mesma situação.

O entregador diante da câmera e do algoritmo

O entregador de aplicativo ocupa uma posição exemplar nessa economia da aparência. Ele precisa permanecer disponível para o aplicativo, obedecer a uma arquitetura de decisões que não controla e arcar com combustível, manutenção, seguro, equipamento e riscos do deslocamento. Ao mesmo tempo, é incentivado a administrar a própria imagem: deve parecer eficiente, resistente, cordial, produtivo e permanentemente disposto. A reputação não é apenas um recurso simbólico. Ela pode afetar oportunidades, parcerias, convites, gorjetas e a possibilidade de alcançar algum rendimento fora das corridas.

O trabalhador que se torna entregador-influenciador descobre uma saída ambígua. Ao narrar seu cotidiano, pode denunciar abusos e formar uma comunidade de apoio. Também pode conquistar publicidade, vender cursos, negociar presença digital ou transformar sua experiência em uma marca pessoal. Essa possibilidade não deve ser desprezada nem moralizada. Ela revela, contudo, uma contradição: para escapar parcialmente da dependência da plataforma de entregas, o trabalhador pode precisar se submeter a outra plataforma, agora como produtor de conteúdo. A autonomia é deslocada, não realizada. Em vez de vender apenas sua força de trabalho para transportar mercadorias, ele passa a vender também sua rotina, sua voz, seu rosto e sua capacidade de produzir identificação.

O algoritmo de trabalho e o algoritmo de visibilidade se reforçam. O primeiro distribui corridas, calcula incentivos, registra deslocamentos e avalia desempenho. O segundo distribui atenção, premia frequência, estimula a exposição e seleciona o que será recomendado. Ambos operam por meio de critérios que não precisam ser inteiramente compreendidos para produzir obediência. O trabalhador aprende a interpretar sinais, ajustar horários, escolher palavras, testar formatos e antecipar mudanças. A gestão deixa de ser apenas uma ordem direta e passa a funcionar como um ambiente de competição permanente.

Essa gestão é particularmente eficaz porque se apresenta como escolha individual. O entregador decide gravar, publicar, aceitar uma corrida, buscar uma meta, manter uma rotina e construir uma audiência. O sistema aparece como oportunidade, não como comando. A ideologia da liberdade empreendedora consegue transformar a adaptação à necessidade em decisão autônoma. Marx chamou de alienação o processo pelo qual o trabalhador perde o controle sobre sua atividade e sobre os produtos de seu trabalho. Na economia da visibilidade, até a própria experiência subjetiva pode ser separada de quem a vive: o trabalhador sofre uma situação, mas precisa convertê-la em narrativa atraente para obter algum retorno.

Da fábrica de imagens à fábrica de identidades

A indústria cultural, analisada por Adorno e Horkheimer, não produz somente mercadorias culturais. Ela produz padrões de percepção, desejos e comportamentos adequados à reprodução social. A promessa de singularidade é frequentemente fabricada por formatos repetidos. O sujeito é convidado a ser autêntico, mas encontra modelos prontos de autenticidade: o trabalhador incansável, a mãe que supera tudo, o jovem que vence pela disciplina, o pobre que não reclama e o empreendedor que transforma obstáculo em oportunidade.

Nas redes, a forma dominante de singularidade é a marca pessoal. Cada indivíduo deve escolher um nicho, sustentar uma narrativa e produzir regularidade. A pessoa não é apenas alguém que trabalha; deve demonstrar uma atitude diante do trabalho. A exaustão precisa ser editada, a indignação precisa ser legível, a pobreza precisa ter uma estética e a denúncia precisa caber na duração de um vídeo. A vida social é submetida à exigência de possuir um formato publicável.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que discursos de meritocracia sobrevivem mesmo quando a desigualdade é evidente. A sociedade apresenta milhares de trabalhadores precarizados, mas seleciona alguns casos de ascensão e os transforma em prova de que todos poderiam vencer. O caso excepcional é usado para desmentir a regra. A pessoa que consegue comprar uma moto melhor, abrir um pequeno negócio ou tornar-se influenciadora aparece como evidência de que o esforço individual funciona. O que desaparece é a massa de trabalhadores que se esforça sem alcançar segurança, descanso ou reconhecimento.

A meritocracia não precisa negar que existam dificuldades. Ela pode até exibir essas dificuldades em detalhes. Seu trabalho ideológico consiste em deslocar a explicação: a desigualdade deixa de ser resultado da propriedade, da renda, da exploração e das políticas estatais e passa a ser medida pelo comportamento individual. Quem prospera teria “mentalidade”; quem fracassa não teria persistência. O espetáculo oferece uma galeria de exemplos emocionais para que a estrutura pareça uma coleção de destinos particulares.

A política como performance e a revolta como conteúdo

A mesma lógica atravessa a política brasileira. O bolsonarismo não se limitou a defender determinadas pautas; construiu uma forma de presença política baseada na produção contínua de cenas, inimigos e conflitos. A transmissão direta, o insulto calculado, a provocação e a circulação de recortes permitiram que a política fosse vivida como acompanhamento permanente de uma personalidade. O acontecimento político valia menos por suas consequências materiais do que por sua capacidade de gerar reação, indignação e pertencimento.

Isso não significa que o espetáculo elimine a política. Ele a reorganiza em torno da identificação afetiva. A disputa deixa de ser apresentada prioritariamente como conflito entre projetos de sociedade e passa a ser encenada como confronto moral entre grupos. O adversário vira ameaça absoluta; a informação vira munição; o líder vira personagem capaz de condensar ressentimentos difusos. Le Bon observou como a multidão tende a responder mais intensamente a imagens, fórmulas e afirmações repetidas do que a argumentos complexos. No ambiente digital, essa dinâmica ganha velocidade e escala, mas não nasce da tecnologia. Ela se alimenta de frustrações sociais reais que não encontram canais coletivos de elaboração.

O bolsonarismo soube converter abandono estatal, insegurança econômica e ressentimento de classe em uma dramaturgia de combate. Em vez de organizar trabalhadores contra as relações que os exploram, ofereceu alvos: professores, jornalistas, universidades, movimentos sociais, pessoas pobres beneficiárias de políticas públicas, minorias e instituições democráticas. A revolta foi desviada de seu fundamento material e transformada em guerra cultural. O espetáculo não inventou a precariedade, mas forneceu uma linguagem para que ela fosse interpretada contra os próprios precarizados.

Essa política performática encontra a economia das plataformas porque ambas recompensam a intensidade. Conteúdos moderados, análises estruturais e reivindicações coletivas disputam espaço com provocações que podem ser recortadas e compartilhadas. A indignação aparece como combustível gratuito para empresas que lucram com o tempo de permanência dos usuários. A política torna-se uma sucessão de estímulos, e a plataforma converte o conflito social em tráfego.

Quando a denúncia precisa obedecer ao formato do espetáculo

Há um limite importante nessa dinâmica: nem toda exposição é emancipadora. Quando uma denúncia depende de viralização, a causa passa a ser pressionada a produzir uma cena excepcional. Um acidente precisa comover; uma demissão precisa indignar; uma injustiça precisa possuir um vilão identificável. A estrutura, por ser repetitiva e impessoal, tem dificuldade de competir com o acontecimento singular. O público reage ao caso, mas pode não reconhecer a regra que o caso revela.

Isso afeta também a organização coletiva. Greves, paralisações e protestos precisam ser traduzidos em imagens rápidas para alcançar circulação. O breque dos apps, por exemplo, expressa uma contestação concreta ao controle das plataformas e à remuneração insuficiente. Mas sua leitura pública pode ser reduzida a uma cena de trânsito, a uma disputa entre consumidores e entregadores ou a um episódio de desordem urbana. A reivindicação coletiva é reabsorvida como acontecimento episódico, enquanto o funcionamento cotidiano da plataforma permanece naturalizado.

O problema não está em usar redes para organizar mobilização. Trabalhadores sempre recorreram aos meios disponíveis para construir solidariedade e disputar o sentido de suas lutas. A questão é não confundir circulação com força política. Uma mensagem viral pode desaparecer no dia seguinte; uma organização capaz de sustentar negociação, paralisação e pressão institucional exige vínculos que não cabem inteiramente nos indicadores de engajamento. O espetáculo mede atenção, mas não mede necessariamente capacidade coletiva.

O mesmo vale para o professor que grava vídeos denunciando salas superlotadas, para a trabalhadora de call center que narra metas abusivas ou para o empregado submetido a avaliação permanente. A exposição pode romper o isolamento. Porém, se cada relato for consumido como história individual de sofrimento, a denúncia se torna uma mercadoria emocional. O espectador sente que tomou contato com a realidade, mas não necessariamente se compromete com a transformação das condições que a produzem.

A saída não é desaparecer, mas disputar a forma social da visibilidade

Criticar a espetacularização não significa defender silêncio, pureza ou retorno a uma esfera pública sem imagens. A política sempre dependeu de símbolos, narrativas e formas de presença. A diferença está em saber se a imagem serve à elaboração coletiva da experiência ou se captura a experiência para alimentar a acumulação de atenção. Uma denúncia organizada por trabalhadores pode utilizar vídeo, humor e circulação digital sem reduzir a luta à performance individual. O critério não é a ausência de espetáculo, mas o controle social sobre o sentido e o destino daquilo que é mostrado.

Isso exige deslocar o foco do herói para a relação. O entregador não deve aparecer apenas como indivíduo resiliente, mas como trabalhador submetido a uma forma específica de exploração. A professora não é somente uma pessoa vocacionada diante de dificuldades; é parte de uma categoria atingida por políticas de austeridade, intensificação e desvalorização. O operador de call center não é um personagem em crise; é trabalhador inserido em uma organização que transforma sua voz, seu tempo e suas emoções em produtividade mensurável.

Também é preciso disputar o Estado e o direito. A aparência de neutralidade das plataformas não elimina sua função econômica nem sua responsabilidade social. Quando o Estado permite que empresas definam unilateralmente critérios de remuneração, bloqueio e avaliação, a tecnologia privada passa a exercer poderes que afetam direitos fundamentais. A questão não se resolve com a promessa de transparência algorítmica se o trabalhador continua sem poder de negociação e sem proteção social. Para Alysson Mascaro, o Estado capitalista não é um árbitro exterior às relações econômicas; ele organiza juridicamente as condições gerais da reprodução do capital. A regulação do trabalho em plataformas, assim, não pode ser reduzida a ajuste técnico: envolve disputa sobre quem terá poder, renda e proteção.

A visibilidade só se torna politicamente produtiva quando deixa de ser um fim individual e passa a integrar uma prática de organização. O relato precisa encontrar outros relatos; o caso precisa revelar a regra; a indignação precisa criar vínculo; a imagem precisa apontar para a propriedade, o comando e a divisão social do trabalho. Sem esse movimento, a sociedade assiste à própria precarização como quem acompanha uma série interminável de episódios, torcendo por alguns personagens enquanto aceita a permanência do roteiro.

A espetacularização da vida social não oferece apenas distração diante da exploração. Ela transforma a exploração em paisagem, conteúdo e teste moral. O trabalhador é convocado a provar que aguenta; o público é convidado a admirar quem aguenta; a plataforma registra quem performa melhor; o capital recolhe a atenção produzida por todos. Romper esse circuito significa recusar a imagem do indivíduo isolado que precisa converter sofrimento em sucesso para merecer reconhecimento. A precariedade não é uma etapa de crescimento pessoal nem uma prova de caráter. É uma relação social, e somente como relação social pode ser enfrentada.