Quando São Paulo voltou a enfrentar longos apagões, em outubro de 2024, a imagem pública do desastre foi a de uma cidade aguardando a luz retornar. Famílias sem refrigeração, pequenos comércios perdendo mercadorias, pessoas presas em elevadores, ruas sem sinalização. Mas havia outra cena, menos espetacular e igualmente reveladora: equipes nas ruas, submetidas à urgência, à chuva, ao trânsito e à cobrança de restabelecer um serviço essencial. Para quem olha de longe, são “os técnicos da energia”. Para a organização empresarial, contudo, podem ser empregados de empresas distintas, vinculados a contratos diferentes, comandados por metas separadas e situados em elos desiguais de uma cadeia cujo centro decisório permanece protegido.
Não se trata de atribuir o apagão exclusivamente à terceirização, como se ela explicasse, sozinha, a manutenção da rede, a regulação pública, os investimentos privados ou os eventos climáticos. Trata-se de entender o que ela faz quando uma crise ocorre. A cidade descobre que depende de trabalho concreto: de quem sobe no poste, localiza o defeito, isola a área, troca o equipamento, atende o telefone e organiza o deslocamento. Ao mesmo tempo, descobre como o capitalismo administra esse trabalho: afastando do trabalhador a empresa que lucra diretamente com o serviço e distribuindo responsabilidades por uma arquitetura de contratos.
O apagão não produz a terceirização, mas revela sua engrenagem
Um serviço de energia elétrica é apresentado ao consumidor como uma unidade. Há uma conta, uma marca, uma concessão, uma obrigação de fornecimento. Quando a luz falta, é essa unidade que aparece: a população cobra a concessionária, o poder público anuncia fiscalização, a empresa divulga notas. No chão da operação, porém, a unidade pode se desfazer. A manutenção, o atendimento, a poda, a logística, a segurança e inúmeras tarefas podem ser organizados por empresas interpostas. A marca concentra a receita, os dados, as decisões estratégicas e a relação institucional; os riscos cotidianos descem pela cadeia até quem trabalha.
É nesse rebaixamento do risco que a terceirização mostra seu sentido político. Ela não é um simples instrumento administrativo para “especializar” serviços. Em setores essenciais, a suposta especialização frequentemente convive com pressão para reduzir custos, encurtar prazos, intensificar jornadas e transformar trabalhadores experientes em uma despesa que precisa ser comprimida. A empresa principal não precisa abolir formalmente um direito para enfraquecê-lo. Basta transferir a gestão do vínculo a outra empresa, trocar contratos, dividir equipes e tornar mais difícil a formação de uma força coletiva capaz de impor limites.
O trabalhador terceirizado não enfrenta apenas um chefe. Ele enfrenta uma cadeia. A supervisão diária pode vir da empresa contratada; as exigências de produtividade, do contrato firmado com a tomadora; o padrão técnico, da companhia que controla a operação; e a ameaça de dispensa, da renovação ou não de uma licitação ou contrato. Quando algo falha, cada elo encontra um modo de apontar para o outro. O empregado fica no ponto em que a responsabilidade se torna mais pesada e o poder de decisão, mais distante.
A responsabilidade diluída tem endereço de classe
Essa distância não é acidental. Marx mostrou que a produção capitalista não organiza o trabalho para satisfazer necessidades humanas de maneira racional; ela o organiza para ampliar a valorização do capital. No serviço essencial privatizado ou submetido à lógica empresarial, essa contradição ganha uma forma especialmente brutal. A rede precisa de manutenção permanente, quadros estáveis, conhecimento acumulado e planejamento de longo prazo. O capital, por sua vez, mede a operação por custos, indicadores, resultados financeiros e capacidade de extrair mais trabalho com menos gente.
A terceirização ajuda a converter essa contradição em aparência de normalidade. Se falta pessoal, não é necessariamente a grande empresa que “cortou”: uma prestadora não conseguiu recompor o quadro. Se há alta rotatividade, ela parece ser uma dificuldade de recrutamento. Se uma equipe está exausta, isso pode surgir como problema interno da contratada. Se ocorre acidente ou descumprimento, abre-se uma disputa sobre quem efetivamente mandava, quem fiscalizava e quem devia responder. A fragmentação jurídica acompanha a fragmentação material do trabalho.
Alysson Mascaro insiste que o direito não paira acima das relações sociais como árbitro neutro. Ele estrutura e estabiliza formas próprias do capitalismo. Isso ajuda a compreender por que a ampliação da terceirização não foi apenas uma vitória empresarial no plano da gestão; foi também uma reorganização institucional do poder. Ao admitir que a empresa central contrate trabalho por intermédio de outras empresas inclusive em suas atividades decisivas, a ordem jurídica ampliou a possibilidade de separar quem obtém o benefício econômico de quem arca diretamente com a instabilidade do vínculo.
Não significa que toda empresa contratada seja fictícia ou que todo trabalhador terceirizado exerça a mesma função e receba as mesmas condições. A desigualdade opera justamente por gradações. Há contratos melhores e piores, segmentos com maior organização sindical e outros quase desprovidos dela. Mas a regra estrutural permanece: quanto mais o trabalho é repartido em CNPJs, uniformes e convenções coletivas diferentes, mais difícil se torna reconhecer a comunidade de interesses entre pessoas que produzem o mesmo resultado.
Dividir a categoria é governar o conflito
Um eletricista de empresa contratada, uma atendente de call center, uma trabalhadora da limpeza em hospital, um vigilante de escola e um entregador submetido ao algoritmo parecem ocupar mundos sem comunicação. A ideologia empresarial reforça essa separação: cada qual seria responsável por sua própria “empregabilidade”, por sua avaliação, por sua produtividade e por sua capacidade de se adaptar. O problema deixa de ser uma estrutura de exploração e passa a ser uma coleção de fracassos individuais.
É a mesma operação ideológica que transforma a precariedade em empreendedorismo. A empresa principal aparece como inovadora, eficiente e tecnológica; o trabalhador aparece como fornecedor, parceiro, colaborador ou funcionário de uma prestadora. A linguagem limpa a relação de classe. Não há patrão, haveria apenas uma rede de serviços. Não há redução de custos sobre corpos concretos, haveria otimização. Não há desgaste provocado por cobrança e insegurança, haveria flexibilidade.
Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Na terceirização, a marca desempenha esse papel: ela apresenta ao público uma promessa homogênea de eficiência enquanto esconde a heterogeneidade brutal das condições de trabalho que sustentam o serviço. O consumidor vê o aplicativo, a fatura, o logotipo e a propaganda. Não vê facilmente a cadeia de subcontratos, as equipes insuficientes, a troca de prestadoras nem a disputa sobre responsabilidades. A mercadoria chega como imagem acabada; o trabalho que a torna possível chega fragmentado, quando chega.
Por isso, o apagão tem uma força pedagógica involuntária. Ele interrompe a aparência de que a infraestrutura funciona por si mesma. Durante algumas horas ou dias, torna-se impossível ignorar que energia, comunicação, transporte e abastecimento dependem de milhares de trabalhadores. A questão é que a experiência costuma ser rapidamente capturada por uma indignação abstrata: culpam-se “a burocracia”, “o Estado” ou “a incompetência” em geral. A crítica anticapitalista precisa ser mais precisa. É preciso perguntar quem decide os investimentos, quem se apropria da receita, quem controla os contratos e quem é descartável quando a operação precisa cortar custos.
Ver a cadeia muda o alvo da cobrança
Enxergar a terceirização não exige que o leitor conheça cada cláusula contratual de uma concessionária ou de um hospital. Exige recusar a narrativa de que a pessoa diante de nós — a atendente que não resolve, o técnico que demora, o segurança que diz não ter autorização — é a origem do problema. Frequentemente ela é o elo com menos poder numa estrutura que lhe cobra resultados sem lhe entregar instrumentos, estabilidade ou voz.
Isso muda também a ideia de solidariedade. A defesa de salários, jornadas seguras, contratação direta quando cabível e responsabilidade efetiva da empresa beneficiária não é uma pauta corporativa de um grupo isolado. É defesa da qualidade social do serviço e da capacidade coletiva de controlar aquilo de que todos dependem. Uma infraestrutura entregue à lógica da redução de custos não falha apenas no momento extraordinário da tempestade; ela acumula fragilidade todos os dias, enquanto a planilha celebra eficiência.
Depois de ver essa cadeia, a próxima fatura de luz, a próxima ligação para um call center e o próximo uniforme de empresa desconhecida deixam de ser detalhes administrativos. Eles indicam uma escolha política: concentrar ganhos no topo e espalhar a insegurança na base. A terceirização prospera quando essa escolha parece técnica. Ela começa a perder sua força ideológica quando reconhecemos que, por trás da empresa interposta, há sempre alguém que manda, lucra e deve responder.
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